Paz negativa e paz positiva: duas ideias muito diferentes de paz

Johan Galtung distinguiu paz negativa — a simples ausência de guerra — de paz positiva, que exige justiça social e estruturas capazes de resolver conflitos sem violência. A diferença ajuda a explicar por que tantos acordos de paz não duram.

Por Tatiana Mendonça — Munique, Alemanha

15 de setembro de 2026 às 08:55h

Quando o noruguês Johan Galtung, considerado um dos fundadores dos estudos para a paz como campo acadêmico, propôs nos anos 1960 a distinção entre “paz negativa” e “paz positiva”, ele desafiou uma noção intuitiva e limitada do que significa viver em paz. Para o público leigo, paz costuma significar simplesmente a ausência de guerra — mas Galtung argumentou que essa definição, embora necessária, é profundamente insuficiente para capturar a complexidade da convivência humana.

A paz negativa, na formulação de Galtung, é justamente essa ausência de violência direta: não há guerra declarada, não há confrontos armados, os corpos não são feridos por balas ou bombas. É a paz mais facilmente mensurável e a que domina a cobertura jornalística tradicional — um cessar-fogo assinado, um tratado de paz ratificado, um exército que se retira de um território. Trata-se de uma condição real e valiosa, mas que pode coexistir com profundas injustiças sociais, econômicas e políticas.

É aí que entra o conceito de paz positiva: a presença ativa de justiça social, igualdade estrutural e instituições capazes de resolver conflitos sem recorrer à violência. Um país pode estar tecnicamente “em paz” — sem guerra civil, sem conflito armado internacional — e, ainda assim, conviver com o que Galtung chamou de “violência estrutural”: desigualdade extrema, discriminação racial ou de gênero institucionalizada, sistemas econômicos que perpetuam pobreza e exclusão. Nessa perspectiva, uma sociedade profundamente desigual, mesmo sem guerra, não vive em paz positiva — apenas na ausência temporária de conflito armado.

A distinção tem implicações práticas relevantes para a política externa e para organismos internacionais. Grande parte da diplomacia tradicional, incluindo boa parte da atuação histórica do Conselho de Segurança da ONU, concentra-se em alcançar e manter a paz negativa: cessar-fogos, missões de manutenção da paz, embargos de armas. Críticos apontam que essa ênfase, embora compreensível diante da urgência de parar mortes imediatas, frequentemente negligencia as causas estruturais que originaram o conflito, criando um ciclo de paz frágil e temporária — países que assinam acordos de paz e, anos depois, mergulham novamente em guerra civil justamente porque as desigualdades subjacentes nunca foram enfrentadas.

Estudiosos da paz positiva argumentam que a verdadeira prevenção de conflitos exige investimento de longo prazo em educação, redução de desigualdade, fortalecimento de instituições democráticas e mecanismos de justiça transicional — processos muito mais lentos, custosos e politicamente complexos do que a simples negociação de um cessar-fogo entre partes beligerantes. O Institute for Economics and Peace, organização internacional dedicada à mensuração de níveis de paz global, incorpora ambos os conceitos em seu Índice Global de Paz, avaliando não apenas a militarização e conflitos ativos de cada país, mas também indicadores de coesão social, respeito aos direitos humanos e qualidade das instituições.

A distinção de Galtung também influenciou diretamente a chamada “peacebuilding” (construção da paz), abordagem que ganhou espaço institucional na ONU a partir dos anos 1990, com a criação de mecanismos voltados não apenas a interromper conflitos, mas a reconstruir instituições e tecido social nas sociedades pós-conflito — reconhecendo implicitamente que sem avanços em direção à paz positiva, a paz negativa tende a ser efêmera.

Referências

GALTUNG, Johan. Violence, Peace, and Peace Research. Journal of Peace Research, v. 6, n. 3, p. 167-191, 1969.

INSTITUTE FOR ECONOMICS AND PEACE. Global Peace Index. Disponível em: https://www.visionofhumanity.org/maps/. Acesso em: 14 set. 2026.

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