O conflito no Sudão: por que crises humanitárias recebem pouca atenção global

O Sudão vive, desde 2023, a maior crise de deslocamento forçado do mundo — com 14 milhões de pessoas expulsas de casa e dezenas de milhares de mortos —, mas o conflito entre o Exército e a milícia RSF segue sem cobertura midiática ou financiamento humanitário proporcionais à sua escala.

Por Tatiana Mendonça — Munique, Alemanha

15 de setembro de 2026 às 08:55h

Enquanto atenção internacional se concentra na guerra da Ucrânia e no conflito em Gaza, o Sudão vive, desde abril de 2023, a maior crise de deslocamento forçado do mundo, com cerca de 14 milhões de pessoas expulsas de suas casas e dezenas de milhares de mortos — sem que o conflito receba cobertura midiática ou financiamento humanitário proporcional à sua escala. A guerra opõe as Forças Armadas Sudanesas (SAF), lideradas pelo general Abdel Fattah al-Burhan, às Forças de Apoio Rápido (RSF), milícia paramilitar comandada por Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti — dois generais que um dia estiveram aliados e hoje disputam o controle de um dos maiores países da África.

Das cinzas de uma revolução à guerra entre generais

Para entender o conflito atual, é preciso voltar a 2019, quando um levante popular derrubou o ditador Omar al-Bashir, no poder havia quase três décadas. Burhan e Hemedti uniram forças naquele momento, integrando um governo de transição junto a civis que prometia conduzir o Sudão à democracia. A aliança, porém, foi frágil: em outubro de 2021, os dois generais orquestraram um golpe conjunto contra o governo de transição, suspendendo a Constituição e interrompendo o processo democrático — decisão que levou instituições como o Banco Mundial e o FMI a suspenderem ajuda financeira ao país.

O rompimento definitivo entre SAF e RSF veio de desacordos sobre a integração das forças paramilitares ao Exército regular, disputa que escalou para confronto armado aberto em 15 de abril de 2023. A RSF tem origem na milícia Janjaweed, força de maioria árabe usada pelo regime de Bashir para reprimir rebeldes no sul do país durante a Guerra de Darfur, no início dos anos 2000 — conflito que já havia matado mais de 200 mil pessoas e que a ONU classificou, à época, como genocídio.

O estado atual do conflito

Depois de tomar Cartum nos primeiros meses da guerra, a RSF foi expulsa da capital em uma grande ofensiva das SAF entre o fim de 2024 e março de 2025, quando o general Burhan declarou publicamente: “Cartum está livre”. A cidade, porém, ficou em ruínas — hospitais, ministérios e infraestrutura básica destruídos, com dezenas de milhares de civis mortos ou deslocados apenas na capital. Em 2026, as SAF controlam a maior parte do centro e leste do país, incluindo Porto Sudão, enquanto a RSF concentra domínio sobre Darfur, no oeste, e trava batalhas pelo controle da região central de Cordofão, rica em ouro — recurso que financia diretamente o esforço de guerra da milícia.

A violência tem componente étnico cada vez mais explícito. Pesquisadores da ONU já apontaram que ataques da RSF contra comunidades negras não árabes, sobretudo na cidade de El-Fasher, em Darfur, apresentam características de genocídio. O chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, alertou que civis em campos de refugiados como os de Abu Shouk e Zamzam correm “sério risco de ataques retaliatórios com base em sua identidade tribal”. Segundo dados do Ministério da Saúde sudanês citados pela agência Reuters, mais de 11 mil mortes foram formalmente documentadas, mas especialistas estimam que o excesso de mortes desde o início da guerra já soma centenas de milhares.

Uma guerra que ultrapassa fronteiras

O conflito sudanês deixou de ser puramente interno. Relatos indicam que uma cadeia de abastecimento militar parte dos Emirados Árabes Unidos, passa pela Líbia — via Benghazi e Tobruk — e chega a Darfur, abastecendo a RSF, acusação que Abu Dhabi nega oficialmente. Do outro lado, as SAF utilizam drones turcos em larga escala e afirmam já ter abatido aeronaves não tripuladas vindas de bases na Etiópia. Em agosto de 2026, o governo do Chade colocou suas tropas em alerta máximo diante do risco de o conflito se espalhar para o território chadiano, que já abriga centenas de milhares de refugiados sudaneses. A dimensão regional da guerra — envolvendo direta ou indiretamente Chade, Líbia, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Turquia — ilustra como conflitos internos em Estados frágeis frequentemente se transformam em arenas de disputa por influência entre potências regionais e globais.

Por que o Sudão recebe tão pouca atenção?

Organizações humanitárias chamam repetidamente o Sudão de “crise esquecida” — termo que descreve conflitos de escala humanitária comparável, ou até superior, a guerras que dominam manchetes internacionais, mas que não geram cobertura midiática, engajamento diplomático ou financiamento proporcionais. O apelo da ONU para ajuda humanitária ao Sudão em 2026 está financiado em apenas 17% do necessário, segundo a CNN Brasil, em um momento no qual os Estados Unidos reduziram drasticamente a ajuda externa e doadores europeus fizeram cortes orçamentários, enquanto potências do Golfo concentram doações em canais bilaterais fora dos mecanismos multilaterais da ONU.

Estudiosos de comunicação internacional apontam fatores estruturais para essa disparidade: a ausência de interesses geopolíticos diretos de potências ocidentais no desfecho do conflito, a dificuldade de acesso de jornalistas estrangeiros a zonas de combate no Sudão, e vieses históricos da cobertura internacional que tendem a priorizar conflitos com conexão direta a interesses econômicos ou de segurança das grandes potências. A diretora da Oxfam para a África, Fati N’Zi-Hassane, classificou a inação internacional como “um fracasso político retumbante” diante da escala da tragédia humanitária sudanesa.

A resposta humanitária vem de dentro

Diante do colapso da resposta internacional, a sociedade civil sudanesa organizou um dos modelos mais estudados de ajuda mútua da atualidade: as chamadas Salas de Resposta Emergencial, redes horizontais lideradas por voluntários locais que distribuem alimentos, operam cozinhas comunitárias e prestam socorro médico básico em meio ao conflito — iniciativa que chegou a ser indicada ao Prêmio Nobel da Paz. Essas redes, porém, operam sob risco crescente: relatos indicam que voluntários têm sido mortos por ambos os lados do conflito, que desconfiam de qualquer estrutura organizada fora de seu controle direto.

Em abril de 2026, Alemanha e União Africana organizaram, em Berlim, a Terceira Conferência Internacional sobre o Sudão, tentativa de reunir apoio diplomático e financeiro para uma solução negociada — esforço que, até o momento, não produziu avanços concretos em direção a um cessar-fogo nacional. Segundo o Unicef, apenas entre janeiro e março de 2026, ao menos 160 crianças foram mortas e 85 ficaram mutiladas em todo o país, um aumento de 50% em relação ao mesmo período do ano anterior — dado que ilustra a deterioração contínua da situação, mesmo três anos após o início da guerra.

O que esperar daqui para frente

Analistas de relações internacionais avaliam que, sem pressão diplomática coordenada das grandes potências — algo improvável dado o desinteresse estratégico ocidental na região — o conflito sudanês tende a se arrastar em um empate militar sangrento, com o país efetivamente fragmentado entre duas administrações rivais: uma controlada pelas SAF no centro-leste, outra pela RSF no oeste. Esse cenário de fragmentação territorial prolongada tem paralelo histórico com outros conflitos africanos que combinam disputa de poder político com controle de recursos naturais, como diamantes ou petróleo em guerras civis anteriores no continente — no caso sudanês, o ouro de Darfur e Cordofão desempenha esse papel de financiar indefinidamente o esforço bélico de ambos os lados.

Para estudantes, pesquisadores e jornalistas que acompanham o Sudão, os eixos centrais a monitorar são: os desdobramentos da disputa por Cordofão, o risco de expansão regional do conflito para Chade, Líbia e Etiópia, o financiamento cada vez mais insuficiente da resposta humanitária da ONU, e o papel crescente — e cada vez mais perigoso — das redes de ajuda mútua lideradas por civis sudaneses como última linha de defesa contra o colapso humanitário total do país.

Referências

WIKIPÉDIA. Guerra Civil no Sudão (2023–presente). Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Civil_no_Sud%C3%A3o_(2023%E2%80%93presente). Acesso em: 14 set. 2026.

CNN BRASIL. Por que o Sudão está em guerra e qual é o impacto? mai. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/por-que-o-sudao-esta-em-guerra-e-qual-e-o-impacto/. Acesso em: 14 set. 2026.

TERRA. Crise esquecida, guerra mata milhares e gera fome no Sudão. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/crise-esquecida-guerra-mata-milhares-e-gera-fome-no-sudao,a1c21558351aa78bf4ed5d4f02b0ab8bada62r8t.html. Acesso em: 14 set. 2026.

INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS (IHU). Três anos de guerra no Sudão: drones, ouro e um roteiro incerto. abr. 2026. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/664849-tres-anos-de-guerra-no-sudao-drones-ouro-e-um-roteiro-incerto-artigo-de-sarah-babiker. Acesso em: 14 set. 2026.

VATICAN NEWS. Guerra no Sudão ameaça se espalhar e envolve países vizinhos. ago. 2026. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-08/guerra-sudao-ameaca-espalhar-paises-vizinhos.html. Acesso em: 14 set. 2026.

CARE INTERNACIONAL. Sudão: Uma crise esquecida à qual o mundo deve prestar atenção agora. jan. 2024. Disponível em: https://www.care.org/pt/news-and-stories/press-releases/sudan-a-forgotten-crisis-the-world-must-pay-attention-to-now/. Acesso em: 14 set. 2026.

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