Poucas questões dividem tanto analistas de relações internacionais
Relações internacionais designam as interações políticas, econômicas, jurídicas e sociais que atravessam fronteiras e o campo acadêmico que as investiga. More quanto o real alcance do impacto de Donald Trump sobre a arquitetura da ordem internacionalOrdem internacional corresponde aos padrões relativamente estáveis de organização da convivência entre atores internacionais. liderada pelos Estados Unidos desde 1945. Para uns, o chamado “nacionalismoNacionalismo é uma ideologia que atribui centralidade à nação como fonte de pertencimento e legitimidade política. America First” representa uma ruptura histórica com décadas de liderança multilateral americana; para outros, trata-se de uma aceleração — não uma criação — de tendências de desgaste que já vinham corroendo essa ordem havia anos, independentemente de quem ocupasse a Casa Branca.
O diagnóstico da ruptura
Defensores da tese de ruptura apontam para uma série de medidas concretas do segundo governoGoverno é o conjunto de autoridades e estruturas que dirige a ação política e administrativa de uma comunidade em determinado período. Trump, iniciado em janeiro de 2025: a imposição de tarifas comerciais amplas contra parceiros históricos, incluindo aliados como México, Canadá e países da União EuropeiaA União Europeia é uma estrutura de integração regional que combina instituições supranacionais e cooperação intergovernamental.; questionamentos públicos recorrentes sobre o valor da OtanA Organização do Tratado do Atlântico Norte, conhecida como OTAN, é uma aliança político-militar baseada em compromissos de defesa coletiva. e da proteção militar americana a aliados que, na visão do presidente, “não pagam sua parte”; e uma disposição declarada de agir unilateralmente mesmo em questões que tradicionalmente envolveriam consulta multilateral — como a operação militar direta que capturou o então presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro de 2026, sem autorização explícita do Conselho de Segurança da ONUO Conselho de Segurança é o órgão das Nações Unidas com responsabilidade primordial pela manutenção da paz e da segurança internacionais. More.
Para cientistas políticos alinhados a essa leitura, como os que se inspiram na tradição liberal institucionalista de relações internacionais
Relações internacionais designam as interações políticas, econômicas, jurídicas e sociais que atravessam fronteiras e o campo acadêmico que as investiga. More, esse padrão de comportamento mina a credibilidade dos compromissos americanos de longo prazo, incentivando aliados a buscar autonomia estratégicaAutonomia estratégica é a capacidade de formular e executar decisões relevantes sem dependência externa que inviabilize escolhas fundamentais. própria — movimento já visível na aceleração do rearmamento europeuRearmamento europeu é a ampliação ou renovação de capacidades militares por Estados europeus. liderado por Alemanha e França, e na diversificação de parcerias comerciais e de segurança por parte de países como Índia, Japão e Coreia do Sul, que hoje cultivam simultaneamente laços mais próximos com Washington e hedge estratégico com outras potências, incluindo a China.
O contra-argumento: continuidade sob nova retórica
Analistas da tradição realista de relações internacionais
Relações internacionais designam as interações políticas, econômicas, jurídicas e sociais que atravessam fronteiras e o campo acadêmico que as investiga. More, por outro lado, argumentam que o comportamento transacional de Trump é menos uma anomalia radical e mais uma manifestação mais explícita de dinâmicas de poder que sempre estiveram presentes na política externaPolítica externa compreende os objetivos, decisões e instrumentos pelos quais um Estado atua nas relações internacionais. americana — apenas menos disfarçadas por retórica multilateral tradicional. Segundo essa leitura, presidentes democratas e republicanos anteriores também usaram instituições multilaterais de forma seletiva quando convinha aos interesses nacionais americanos, e o “declínio” da ordem liberal internacional já vinha sendo diagnosticado por acadêmicos havia mais de uma década, associado a fatores estruturais como a ascensão econômica da China, o fracasso de intervenções militares no Iraque e Afeganistão, e o descontentamento doméstico crescente com os custos da globalizaçãoGlobalização é a intensificação e reorganização de conexões transfronteiriças em dimensões econômicas, políticas, culturais e tecnológicas. em economias ocidentais.
Nessa visão, o BRICSBRICS: agrupamento de cooperação política e econômica que busca ampliar a influência de seus integrantes na governança internacional. ampliado, a Nova Rota da SedaNova Rota da Seda é a designação corrente da Iniciativa Cinturão e Rota, promovida pela China para desenvolver conexões econômicas e infraestrutura. chinesa e a crescente autonomia diplomática de potências médias como Brasil, Índia e África do Sul já sinalizavam uma transição estrutural em direção a um sistema internacionalSistema internacional é o conjunto de atores e relações cuja interação produz efeitos políticos além das fronteiras estatais. mais multipolar antes mesmo do retorno de Trump ao poder — processo que ele teria acelerado, mas não originado.
O que os dados mostram
Empiricamente, alguns indicadores sustentam parcialmente ambas as leituras. Dados do SIPRI mostram aumento expressivo nas importações de armas por países europeus desde 2022, tendência que se intensificou ainda mais sob a atual administração americana, sugerindo que aliados europeus estão, de fato, reduzindo sua dependência estratégica direta dos EUA. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos seguem sendo, disparadamente, o maior exportador de armas do mundo e o principal fiador de segurança em negociações de conflitos ativos, como a guerra na UcrâniaGuerra na Ucrânia designa o conflito associado à intervenção russa desde 2014 e à invasão em larga escala iniciada em fevereiro de 2022. e o cessar-fogoCessar-fogo é a suspensão de hostilidades acordada entre partes ou declarada por um participante de um conflito. em Gaza — evidenciando que, apesar da retórica nacionalista, a capacidade de projeção de poder americana permanece central para a resolução de crises internacionais.
Organismos multilaterais também não colapsaram: a ONU, o G20 e o FMI seguem funcionando, ainda que sob tensão crescente e questionamentos frequentes sobre sua legitimidadeLegitimidade é a qualidade atribuída a uma ordem ou decisão considerada justificável e merecedora de aceitação. e eficácia. O que parece ter mudado de forma mais perceptível é o grau de previsibilidade da política externaPolítica externa compreende os objetivos, decisões e instrumentos pelos quais um Estado atua nas relações internacionais. americana — um fator que a literatura de relações internacionais
Relações internacionais designam as interações políticas, econômicas, jurídicas e sociais que atravessam fronteiras e o campo acadêmico que as investiga. More associa diretamente à capacidade de um hegemon sustentar a confiança de seus aliados ao longo do tempo.
Uma questão em aberto
Se o nacionalismoNacionalismo é uma ideologia que atribui centralidade à nação como fonte de pertencimento e legitimidade política. de Trump representa uma inflexão definitiva ou apenas um capítulo turbulento dentro de uma trajetória mais longa de transição para um mundo multipolar é uma pergunta que, para a maioria dos especialistas, só poderá ser respondida com mais distância histórica. O que já parece consensual entre observadores de diferentes correntes teóricas é que a confiança automática de décadas passadas na liderança multilateral americana não pode mais ser dada como certa por seus aliados tradicionais — independentemente de quem ocupe a Casa Branca nos próximos ciclos eleitorais.
Referências
SIPRI. Trends in International Arms Transfers 2025. Estocolmo, mar. 2026. Disponível em: https://www.sipri.org/. Acesso em: 14 set. 2026.
IKENBERRY, G. John. A Liberal International Order in Crisis. Ethics & International Affairs, v. 32, n. 1, 2018.
MEARSHEIMER, John J. The Great Delusion: Liberal Dreams and International Realities. New Haven: Yale University Press, 2018.









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