Afeganistão pós-retirada: o que mudou de fato?

Quatro anos após a retirada americana, o Talibã consolidou controle territorial sobre o Afeganistão, mas o país vive uma das piores crises de direitos humanos e humanitárias do mundo, com milhões de meninas fora da escola e 21,9 milhões de pessoas precisando de ajuda.

Por Tatiana Mendonça — Munique, Alemanha

15 de setembro de 2026 às 08:55h

Quatro anos após a retirada caótica das tropas americanas de Cabul, em agosto de 2021, o Afeganistão sob o Talibã consolidou uma das piores crises de direitos humanos do mundo, segundo a Human Rights Watch — um quadro que contradiz a promessa inicial do grupo de governar de forma mais moderada do que em seu primeiro regime, encerrado em 2001.

A retirada americana, decidida por Joe Biden mas negociada ainda no governo de Donald Trump por meio do Acordo de Doha de 2020, encerrou vinte anos da mais longa guerra da história dos Estados Unidos. Em poucas semanas, o exército afegão treinado e equipado pelo Ocidente entrou em colapso, e o Talibã retomou o controle de Cabul praticamente sem resistência — um desfecho que expôs as fragilidades estruturais do projeto de construção estatal liderado pelos EUA e seus aliados ao longo de duas décadas.

Desde então, o grupo consolidou controle territorial e administrativo sobre praticamente todo o país, mas essa estabilidade aparente esconde, segundo a chefe da Missão da ONU no Afeganistão (Unama), Georgette Gagnon, problemas estruturais profundos. O Talibã promulgou, desde 2021, mais de 230 decretos que retiram direitos básicos de mulheres e meninas, incluindo acesso à educação, ao emprego e à liberdade de movimento. O Afeganistão segue sendo o único país do mundo onde meninas são proibidas de frequentar a escola após o sexto ano — atualmente, cerca de 3,8 milhões de meninas entre 7 e 18 anos estão fora do sistema educacional.

Em 2026, um novo Código de Processo Penal formalizou ainda mais essa discriminação institucionalizada, segundo denúncia da fundadora do Arquivo de Justiça do Afeganistão, Metra Mehran, que descreveu o cenário como um “sistema de opressão de gênero institucionalizada”. A chamada polícia moral do Talibã passou a realizar batidas em locais de trabalho e prisões arbitrárias de mulheres por supostas violações de código de vestimenta.

Paralelamente à repressão de gênero, o país enfrenta uma das maiores crises humanitárias do planeta: a ONU estima que 21,9 milhões de pessoas precisarão de assistência humanitária no Afeganistão em 2026, quase 40% da população. A situação se complica ainda mais pelo fluxo de retorno forçado de refugiados afegãos expulsos de países vizinhos: quase 5,9 milhões de pessoas já retornaram ao país desde 2023, com outros 2,8 milhões esperados neste ano, retornando a comunidades já fragilizadas e sem capacidade de absorver esse contingente.

Do ponto de vista das relações internacionais, o caso afegão pós-retirada ilustra um dilema recorrente da política externa ocidental contemporânea: nenhuma grande potência reconheceu formalmente o governo talibã, mas isso não impediu que países vizinhos, como o Catar, mantivessem canais diplomáticos abertos com Cabul desde os primeiros dias do novo regime. Esse isolamento diplomático parcial não se traduziu em pressão efetiva sobre políticas internas do grupo, evidenciando os limites das ferramentas tradicionais de diplomacia coercitiva diante de regimes que priorizam legitimidade religiosa interna sobre reconhecimento internacional.

Analistas de segurança internacional também apontam que a saída americana deixou um vácuo que outros atores regionais — China, Rússia, Paquistão e Irã — têm ocupado de formas distintas, buscando garantir interesses econômicos e de segurança de fronteira sem, no entanto, oferecer investimento substancial na reconstrução do país. O Afeganistão segue, assim, como um caso emblemático de “Estado isolado, mas não ignorado”: afastado das instituições financeiras internacionais tradicionais, mas relevante o suficiente geopoliticamente para manter a atenção de potências regionais.

Grande parte do ativismo internacional em defesa das mulheres afegãs tem sido criticada por observadores locais por seu caráter intermitente — picos de atenção em datas simbólicas, como o aniversário da retirada ou o Dia Internacional da Mulher, seguidos de longos períodos de silêncio diante da deterioração contínua da situação no terreno.

Referências

ONU NEWS. ONU aponta crise humanitária e opressão de mulheres no Afeganistão. jun. 2026. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2026/06/1853391. Acesso em: 14 set. 2026.

HUMAN RIGHTS WATCH. Afeganistão: os ataques do Talibã aos direitos humanos se agravam após cinco anos. ago. 2026. Disponível em: https://www.hrw.org/pt/news/2026/08/03/afghanistan-taliban-assault-on-rights-deepens-5-years-on. Acesso em: 14 set. 2026.

GP1. Entenda o que está acontecendo com as mulheres no Afeganistão sob o regime do Talibã. jul. 2026. Disponível em: https://www.gp1.com.br/internacional/noticia/2026/7/9/entenda-o-que-esta-acontecendo-com-as-mulheres-no-afeganistao-sob-o-regime-do-taliba-626951.html. Acesso em: 14 set. 2026.

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