O nacionalismo de Trump mudou o sistema global?

Analistas de relações internacionais divergem: para uns, a diplomacia "America First" de Trump rompe décadas de liderança multilateral dos EUA; para outros, apenas acelera uma transição rumo à multipolaridade que já estava em curso. Veja os dois lados do debate.

Por Tatiana Mendonça — Munique, Alemanha

15 de setembro de 2026 às 08:55h

Poucas questões dividem tanto analistas de relações internacionais quanto o real alcance do impacto de Donald Trump sobre a arquitetura da ordem internacional liderada pelos Estados Unidos desde 1945. Para uns, o chamado “nacionalismo America First” representa uma ruptura histórica com décadas de liderança multilateral americana; para outros, trata-se de uma aceleração — não uma criação — de tendências de desgaste que já vinham corroendo essa ordem havia anos, independentemente de quem ocupasse a Casa Branca.

O diagnóstico da ruptura

Defensores da tese de ruptura apontam para uma série de medidas concretas do segundo governo Trump, iniciado em janeiro de 2025: a imposição de tarifas comerciais amplas contra parceiros históricos, incluindo aliados como México, Canadá e países da União Europeia; questionamentos públicos recorrentes sobre o valor da Otan e da proteção militar americana a aliados que, na visão do presidente, “não pagam sua parte”; e uma disposição declarada de agir unilateralmente mesmo em questões que tradicionalmente envolveriam consulta multilateral — como a operação militar direta que capturou o então presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro de 2026, sem autorização explícita do Conselho de Segurança da ONU.

Para cientistas políticos alinhados a essa leitura, como os que se inspiram na tradição liberal institucionalista de relações internacionais, esse padrão de comportamento mina a credibilidade dos compromissos americanos de longo prazo, incentivando aliados a buscar autonomia estratégica própria — movimento já visível na aceleração do rearmamento europeu liderado por Alemanha e França, e na diversificação de parcerias comerciais e de segurança por parte de países como Índia, Japão e Coreia do Sul, que hoje cultivam simultaneamente laços mais próximos com Washington e hedge estratégico com outras potências, incluindo a China.

O contra-argumento: continuidade sob nova retórica

Analistas da tradição realista de relações internacionais, por outro lado, argumentam que o comportamento transacional de Trump é menos uma anomalia radical e mais uma manifestação mais explícita de dinâmicas de poder que sempre estiveram presentes na política externa americana — apenas menos disfarçadas por retórica multilateral tradicional. Segundo essa leitura, presidentes democratas e republicanos anteriores também usaram instituições multilaterais de forma seletiva quando convinha aos interesses nacionais americanos, e o “declínio” da ordem liberal internacional já vinha sendo diagnosticado por acadêmicos havia mais de uma década, associado a fatores estruturais como a ascensão econômica da China, o fracasso de intervenções militares no Iraque e Afeganistão, e o descontentamento doméstico crescente com os custos da globalização em economias ocidentais.

Nessa visão, o BRICS ampliado, a Nova Rota da Seda chinesa e a crescente autonomia diplomática de potências médias como Brasil, Índia e África do Sul já sinalizavam uma transição estrutural em direção a um sistema internacional mais multipolar antes mesmo do retorno de Trump ao poder — processo que ele teria acelerado, mas não originado.

O que os dados mostram

Empiricamente, alguns indicadores sustentam parcialmente ambas as leituras. Dados do SIPRI mostram aumento expressivo nas importações de armas por países europeus desde 2022, tendência que se intensificou ainda mais sob a atual administração americana, sugerindo que aliados europeus estão, de fato, reduzindo sua dependência estratégica direta dos EUA. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos seguem sendo, disparadamente, o maior exportador de armas do mundo e o principal fiador de segurança em negociações de conflitos ativos, como a guerra na Ucrânia e o cessar-fogo em Gaza — evidenciando que, apesar da retórica nacionalista, a capacidade de projeção de poder americana permanece central para a resolução de crises internacionais.

Organismos multilaterais também não colapsaram: a ONU, o G20 e o FMI seguem funcionando, ainda que sob tensão crescente e questionamentos frequentes sobre sua legitimidade e eficácia. O que parece ter mudado de forma mais perceptível é o grau de previsibilidade da política externa americana — um fator que a literatura de relações internacionais associa diretamente à capacidade de um hegemon sustentar a confiança de seus aliados ao longo do tempo.

Uma questão em aberto

Se o nacionalismo de Trump representa uma inflexão definitiva ou apenas um capítulo turbulento dentro de uma trajetória mais longa de transição para um mundo multipolar é uma pergunta que, para a maioria dos especialistas, só poderá ser respondida com mais distância histórica. O que já parece consensual entre observadores de diferentes correntes teóricas é que a confiança automática de décadas passadas na liderança multilateral americana não pode mais ser dada como certa por seus aliados tradicionais — independentemente de quem ocupe a Casa Branca nos próximos ciclos eleitorais.

Referências

SIPRI. Trends in International Arms Transfers 2025. Estocolmo, mar. 2026. Disponível em: https://www.sipri.org/. Acesso em: 14 set. 2026.

IKENBERRY, G. John. A Liberal International Order in Crisis. Ethics & International Affairs, v. 32, n. 1, 2018.

MEARSHEIMER, John J. The Great Delusion: Liberal Dreams and International Realities. New Haven: Yale University Press, 2018.

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