A pobreza extrema caiu de forma histórica desde 1990, mas esse progresso perdeu velocidade e se tornou muito mais desigual. Com a atualização das linhas internacionais do Banco Mundial, cerca de uma em cada dez pessoas ainda vivia em pobreza extrema em meados da década de 2020. O desafio atual já não é apenas fazer economias crescerem, mas entender quem se beneficia desse crescimento, quem permanece vulnerável e por que milhões continuam sem acesso a renda, moradia, saúde, educação e proteção social mesmo em um mundo muito mais rico do que há três décadas.
Como surgiu o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza
O Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza é celebrado em 17 de outubro. Sua origem está ligada ao padre francês Joseph Wresinski, fundador do movimento ATD Quarto Mundo, que havia vivido a pobreza na própria infância e passou a denunciar sua relação direta com exclusão social e violação de direitos humanos. Em 17 de outubro de 1987, dezenas de milhares de pessoas se reuniram no Trocadéro, em Paris, para afirmar que a pobreza extrema não deveria ser tratada como fatalidade. A ONU reconheceu posteriormente a importância dessa mobilização e instituiu oficialmente a data em 1992.
Wresinski insistia em uma ideia que permanece atual: pobreza não é apenas insuficiência de dinheiro, mas perda de capacidade de participar plenamente da sociedade. Essa visão influenciou a abordagem posterior das Nações Unidas, que passou a tratar pobreza extrema também como questão de dignidade e direitos humanos.
A pobreza diminuiu
Nas últimas décadas, houve uma queda extraordinária da pobreza extrema global. Segundo o Banco Mundial, o número de pessoas vivendo abaixo da linha internacional de extrema pobreza caiu de cerca de 2,3 bilhões em 1990 para algo em torno de 830 milhões em 2025. Ainda assim, a trajetória recente é muito menos favorável do que a das décadas anteriores.
Em junho de 2025, o Banco Mundial atualizou sua linha internacional de pobreza extrema de US$ 2,15 para US$ 3,00 por pessoa ao dia, em valores ajustados pela paridade do poder de compra de 2021. A mudança não significa que as pessoas ficaram subitamente mais pobres; ela reflete a atualização metodológica das comparações internacionais.
Com a nova metodologia, o Banco Mundial estimou que aproximadamente 9,9% da população mundial viveria em extrema pobreza em 2025. Uma atualização posterior colocou a estimativa em cerca de 10,1%, mostrando também como os números podem variar quando novas pesquisas domiciliares e revisões de dados são incorporadas.
O problema mais preocupante é a desaceleração. O relatório Poverty, Prosperity, and Planet 2024 advertiu que a redução da pobreza global havia praticamente estagnado e que, sob a trajetória então projetada, cerca de 622 milhões de pessoas ainda viveriam em extrema pobreza em 2030.
Pobreza depende da régua usada
Não existe uma única medida capaz de resumir toda a pobreza mundial. O Banco Mundial utiliza diferentes linhas internacionais porque o significado de privação econômica muda conforme o nível de renda de uma sociedade.
Desde a revisão de 2025, a linha de US$ 3,00 por dia é utilizada como referência para extrema pobreza em países de baixa renda. Há ainda linhas de US$ 4,20 para economias de renda média-baixa e US$ 8,30 para países de renda média-alta.
Isso ajuda a explicar por que alguém pode tecnicamente não estar em “extrema pobreza” e ainda viver em situação muito precária. Uma renda ligeiramente acima de US$ 3 por dia não garante moradia adequada, saneamento, medicamentos, transporte ou segurança econômica.
Também significa que rankings de “países mais pobres do mundo” devem ser lidos com cautela. Guerras, deslocamentos e ausência de pesquisas domiciliares confiáveis tornam os dados especialmente frágeis em países como Sudão do Sul, República Centro-Africana ou República Democrática do Congo. Em muitos dos contextos mais pobres, justamente onde medir a pobreza é mais importante, obter dados consistentes é também mais difícil.
O mundo ficou mais rico, mas os ganhos não foram distribuídos igualmente
Crescimento econômico importa. Países que aumentam produtividade, emprego e renda conseguem reduzir pobreza mais rapidamente quando esse crescimento alcança parcelas amplas da população. O problema é que aumento do PIB, sozinho, não determina como os benefícios serão distribuídos.
O próprio Banco Mundial passou a dar maior atenção à ideia de prosperidade compartilhada, reconhecendo que o crescimento médio pode esconder diferenças profundas entre grupos sociais. Em 2023, a instituição introduziu novas medidas, entre elas o Global Prosperity Gap, justamente para avaliar o quanto as rendas precisam crescer para que a população se aproxime de um padrão mínimo de prosperidade.
Quando crescimento econômico vem acompanhado de empregos formais, salários mais altos, tributação eficiente e investimento em serviços públicos, ele pode reduzir pobreza de maneira expressiva. Quando os ganhos se concentram no topo ou em setores pouco conectados ao restante da economia, é possível ter expansão do PIB convivendo com moradia precária, insegurança alimentar e trabalho informal.
A questão central, portanto, não é simplesmente se uma economia cresce, mas como os ganhos desse crescimento são distribuídos.
Pobreza também é falta de poder
A abordagem de direitos humanos amplia ainda mais essa discussão. Os Princípios Orientadores da ONU sobre Extrema Pobreza e Direitos Humanos, adotados em 2012, definem pobreza como uma condição caracterizada pela privação persistente de recursos, capacidades, escolhas, segurança e poder necessários para desfrutar de um padrão adequado de vida e de outros direitos.
Essa formulação é importante porque evita reduzir pobreza a uma falha individual. Uma pessoa pode trabalhar e continuar pobre porque recebe salário insuficiente; pode ter alguma renda e continuar sem acesso a transporte, moradia segura ou atendimento médico; pode viver formalmente acima da linha de pobreza e ainda estar a uma doença ou demissão de perder tudo.
O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos sintetiza esse princípio de forma contundente:
“Human dignity is at the very foundation of human rights.”
— “A dignidade humana está na própria base dos direitos humanos.”
A pobreza extrema, nessa perspectiva, não é apenas um problema estatístico. Ela limita autonomia, participação política e capacidade real de escolha.
Amartya Sen: pobreza como privação de capacidades
A abordagem contemporânea da pobreza também deve muito ao economista e filósofo Amartya Sen, vencedor do Prêmio Nobel de Economia. Sen argumentou que desenvolvimento não deveria ser medido apenas por renda, mas pelas capacidades reais que as pessoas possuem para viver a vida que valorizam.
Isso significa que duas pessoas com a mesma renda podem enfrentar condições muito diferentes. Uma pessoa com deficiência pode precisar de mais recursos para alcançar o mesmo grau de mobilidade; alguém em uma região sem hospitais ou escolas possui menos oportunidades mesmo que sua renda seja semelhante à de outra pessoa em uma área com serviços públicos robustos.
Essa abordagem influenciou profundamente o desenvolvimento humano e políticas internacionais porque deslocou o foco de “quanto alguém ganha” para “o que alguém efetivamente consegue fazer e ser”.
Desigualdade não é um detalhe secundário
A concentração de renda e patrimônio também influencia a velocidade com que o crescimento econômico reduz pobreza. Quando uma parcela pequena da população captura grande parte dos ganhos, o mesmo crescimento do PIB produz menos redução da pobreza do que ocorreria em uma economia com distribuição mais equilibrada.
Por isso, políticas como tributação progressiva, salário mínimo, negociação coletiva, educação pública, saúde universal e proteção social não são apenas instrumentos de redistribuição posterior. Elas influenciam diretamente a maneira como o crescimento econômico é transformado em condições de vida.
O relatório do Banco Mundial sobre pobreza e prosperidade chama atenção justamente para a necessidade de combinar crescimento com redução das desigualdades e proteção contra choques econômicos e climáticos.
Dívida e desigualdade entre países
A pobreza também é condicionada pela estrutura econômica internacional. Países de baixa renda frequentemente pagam juros mais altos, dependem da exportação de poucas commodities e possuem menor capacidade de arrecadação.
Quando grande parte da receita pública precisa ser direcionada ao serviço da dívida, sobra menos para hospitais, escolas, saneamento, infraestrutura e proteção social. Isso não significa que toda dívida seja necessariamente injusta ou que governos nacionais não tenham responsabilidade sobre suas próprias escolhas fiscais. Significa que a capacidade de combater pobreza também depende das condições em que países conseguem financiar seu desenvolvimento.
Essa discussão ganhou relevância diante do crescimento da dívida pública em economias vulneráveis, levando organismos internacionais a defender mecanismos mais rápidos de reestruturação, financiamento concessional e aumento da capacidade fiscal dos países pobres.
O mesmo vale para evasão e elisão tributária internacional. Quando lucros são deslocados para jurisdições de baixa tributação, países onde a atividade econômica realmente ocorre podem perder receitas que financiariam políticas públicas.
Pobreza, conflito e fragilidade
Outra mudança importante é geográfica. A pobreza extrema está cada vez mais concentrada na África Subsaariana e em países frágeis ou afetados por conflito.
Com as novas linhas de pobreza, o Banco Mundial estimou que cerca de 73% das pessoas extremamente pobres do mundo em 2025 viviam na África Subsaariana.
Essa concentração torna a erradicação da pobreza mais difícil porque as últimas parcelas da população em extrema pobreza estão justamente em lugares onde as instituições são mais frágeis, guerras interrompem atividades econômicas e mudanças climáticas afetam agricultura e infraestrutura.
Por isso, repetir as estratégias que funcionaram em economias estáveis pode não ser suficiente. Reduzir pobreza em Estados frágeis exige também paz, segurança, instituições públicas e capacidade de fornecer serviços básicos.
O que realmente reduz pobreza
Não existe uma política única capaz de erradicar pobreza, mas décadas de experiência internacional mostram uma combinação relativamente consistente de medidas.
Transferências de renda podem impedir que famílias caiam em extrema pobreza durante crises. Educação e saúde universais reduzem despesas que poderiam empurrá-las para a miséria. Salário mínimo, formalização do trabalho e negociação coletiva podem melhorar a participação dos trabalhadores nos ganhos de produtividade. Creches e políticas de emprego para mulheres ampliam renda familiar e autonomia econômica.
Infraestrutura rural, eletrificação, transporte e acesso à internet conectam comunidades a mercados e serviços. Moradia acessível reduz uma das principais despesas familiares, enquanto seguros sociais e sistemas de proteção contra desemprego, doença e desastres climáticos diminuem a probabilidade de famílias retornarem à pobreza depois de terem saído dela.
Nenhuma dessas medidas produz resultados isoladamente. A experiência mais consistente é justamente a combinação entre crescimento econômico, serviços públicos, trabalho decente e proteção social.
A pergunta deixou de ser se sabemos como reduzir pobreza
A humanidade dispõe hoje de riqueza, conhecimento e capacidade tecnológica muito superiores aos existentes quando a pobreza extrema começou a cair rapidamente no final do século XX. O desafio é que a parte mais difícil permanece: transformar recursos econômicos em segurança material e oportunidades para quem está na base da distribuição.
O Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza serve para lembrar que pobreza não deve ser tratada como característica inevitável de determinadas pessoas ou países. Ela resulta de uma combinação de condições econômicas, instituições, guerras, desigualdades e decisões políticas que podem ser modificadas.
Crescimento continua sendo necessário, especialmente em países pobres. Mas crescimento sem distribuição, serviços públicos e proteção contra riscos pode aumentar a riqueza de uma sociedade sem garantir que todos tenham condições mínimas para viver com dignidade. A questão central do século XXI não é apenas quanto uma economia consegue produzir, mas quanto dessa prosperidade se transforma em liberdade real para as pessoas que possuem menos recursos e menos poder.
Referências
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SEN, Amartya. Development as Freedom. Oxford: Oxford University Press, 1999.















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