Dia Internacional das Pessoas Idosas — Quem cuidará das sociedades que envelhecem?
Viver mais é uma das grandes conquistas das sociedades contemporâneas. Mas a longevidade também expõe um desafio que governos, famílias e economias ainda não resolveram: como garantir uma velhice digna quando cresce o número de idosos, diminui proporcionalmente a população em idade de trabalhar e milhões de pessoas chegam à aposentadoria com poucos recursos? Do Japão à Alemanha, da Coreia do Sul ao sul da Europa, o envelhecimento já está transformando sistemas previdenciários, mercados de trabalho e estruturas familiares. A pergunta sobre o futuro, porém, não é apenas quem pagará as aposentadorias. É também quem cuidará de quem envelhece — e como essas pessoas serão tratadas quando precisarem de ajuda.
O mundo está ficando mais velho
O envelhecimento populacional não é uma projeção distante. Ele já está acontecendo.
Segundo as Nações Unidas, até meados da década de 2030 haverá aproximadamente 265 milhões de pessoas com 80 anos ou mais no mundo, número superior ao de crianças com menos de um ano. No final da década de 2070, a população mundial com 65 anos ou mais deverá alcançar cerca de 2,2 bilhões de pessoas.
Em várias sociedades desenvolvidas, mais de um quinto dos habitantes já passou dos 65 anos. Japão permanece entre os casos mais extremos, enquanto Itália, Portugal, Alemanha, Grécia, Espanha, Finlândia e outros países europeus apresentam estruturas populacionais cada vez mais envelhecidas. Canadá, França e Suécia também já tinham mais de 20% de suas populações nessa faixa etária em 2024.
Não se trata apenas de viver mais. A combinação entre maior expectativa de vida e taxas de natalidade persistentemente baixas significa que há proporcionalmente menos jovens entrando na força de trabalho.
Na média dos países da OCDE, existiam cerca de 33 pessoas com 65 anos ou mais para cada 100 pessoas entre 20 e 64 anos em 2025. Em 2050, essa proporção deverá chegar a aproximadamente 52 para cada 100.
Em países como Itália, Japão, Coreia do Sul, Polônia e Espanha, a transformação será ainda mais profunda. A OCDE estima que a população em idade de trabalhar deverá diminuir mais de 30% nas próximas quatro décadas em vários desses países.
O que uma sociedade envelhecida significa para a economia
Durante grande parte do século XX, sistemas de previdência social foram construídos em sociedades com muitos trabalhadores e proporcionalmente menos aposentados.
Essa relação está mudando.
Quando aumenta o número de aposentados enquanto diminui a população economicamente ativa, Estados precisam decidir como financiar o sistema: elevar contribuições, aumentar impostos, reduzir benefícios, incentivar aposentadorias mais tardias, aumentar a produtividade ou combinar diferentes estratégias.
Ao mesmo tempo, os gastos com saúde e cuidados de longa duração tendem a crescer.
Isso não significa que idosos sejam simplesmente um “peso econômico”. Pessoas mais velhas continuam consumindo, trabalhando, cuidando de familiares, realizando trabalho voluntário, transmitindo conhecimento e contribuindo socialmente de inúmeras maneiras.
O problema é estrutural: uma economia organizada para uma pirâmide demográfica jovem precisa adaptar-se a uma pirâmide que está se invertendo.
A OCDE calcula que a relação entre pessoas idosas e pessoas em idade ativa continuará crescendo de maneira significativa nas próximas décadas. Em 2060, ela poderá superar 75 idosos para cada 100 pessoas em idade de trabalhar em países como Itália, Japão, Polônia, Espanha e Coreia do Sul.
A Coreia do Sul oferece um dos exemplos mais extremos. Atualmente ainda não possui a estrutura etária mais envelhecida da OCDE, mas seu envelhecimento ocorre em velocidade extraordinária. A organização projeta que poderá passar de cerca de 29 pessoas acima de 65 anos por 100 pessoas em idade ativa em 2024 para 122 em 2084.
O desafio econômico do século XXI poderá ser, portanto, menos “como sustentar uma população que cresce” e cada vez mais como organizar sociedades em que uma parcela enorme da população já passou da idade tradicional de aposentadoria.
Envelhecer em um país rico não significa escapar da pobreza
A Alemanha oferece um exemplo importante.
Em 2025, 19,5% das pessoas com 65 anos ou mais estavam em risco de pobreza, segundo o instituto federal de estatística Destatis. Entre pessoas com mais de 75 anos, a proporção era de 19,1%. Para uma pessoa vivendo sozinha, o limiar de risco de pobreza correspondia a uma renda líquida de 1.445 euros mensais.
São números particularmente relevantes em um país que possui uma das maiores economias do mundo.

Imagem gerada com IA. Idosa coletando garrafas na Alemanha
Nas cidades alemãs, a pobreza na velhice também possui imagens muito concretas: idosos procurando garrafas e latas retornáveis nas lixeiras ou recolhendo recipientes abandonados para obter o valor do Pfand, o depósito pago na devolução das embalagens.
Não existe uma estatística nacional que permita concluir que todos os idosos que recolhem Pfand fazem isso exclusivamente por pobreza — e seria incorreto presumir isso individualmente. Mas a cena tornou-se parte visível da discussão alemã sobre Altersarmut, a pobreza na velhice.
Ela simboliza uma contradição difícil de ignorar: pessoas podem trabalhar durante décadas e ainda chegar ao fim da vida calculando se conseguem pagar aluguel, alimentação, medicamentos ou aquecimento.
Mulheres enfrentam riscos particularmente elevados.
Na média da OCDE, mulheres idosas apresentam taxas de pobreza significativamente superiores às dos homens, consequência de salários historicamente menores, interrupções profissionais para criação dos filhos ou cuidado de familiares, empregos em tempo parcial e maior expectativa de vida.
A desigualdade acumulada durante a vida profissional reaparece, portanto, na aposentadoria.
Mas dinheiro não é o único problema
Uma sociedade pode garantir uma pensão e ainda assim fracassar com seus idosos.
Solidão, isolamento, negligência e violência fazem parte de uma dimensão muito menos visível do envelhecimento.
A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente uma em cada seis pessoas com 60 anos ou mais sofre alguma forma de abuso no período de um ano em ambientes comunitários. Isso pode significar violência física ou psicológica, exploração financeira, abuso sexual ou negligência.
Abandono nem sempre significa deixar literalmente uma pessoa sozinha.
Pode significar não fornecer cuidados básicos, ignorar necessidades médicas, controlar indevidamente seu dinheiro, limitar sua autonomia ou deixá-la socialmente isolada durante meses ou anos.
E o problema pode ocorrer dentro da própria família, assim como em instituições destinadas justamente a cuidar de pessoas vulneráveis.
Para a OMS, a violência e negligência contra idosos constituem um problema global de saúde pública que provavelmente se tornará ainda mais relevante conforme a população envelhece.
O lugar dos idosos não é igual em todas as culturas
A forma como uma sociedade envelhece também depende da maneira como entende família, independência e responsabilidade entre gerações.
Em muitas sociedades europeias e norte-americanas, existe forte valorização da autonomia individual. Filhos deixam cedo a casa dos pais, pessoas idosas frequentemente vivem sozinhas e serviços profissionais ou instituições assumem parte importante dos cuidados quando surge dependência.
Esse modelo pode preservar independência durante muitos anos. Mas também pode produzir isolamento quando redes familiares e comunitárias desaparecem.
Em diversas sociedades asiáticas, africanas, latino-americanas e do Oriente Médio, famílias multigeracionais desempenham tradicionalmente papel maior.
Em muitos países de maioria muçulmana, por exemplo, a família continua sendo considerada a principal fonte de apoio às pessoas idosas, e residências multigeracionais permanecem importantes para cuidado e inclusão social.
Em países asiáticos como as Filipinas, documentos das próprias Nações Unidas registram a importância histórica atribuída à família como principal sistema de apoio aos idosos, associada a valores de responsabilidade entre gerações.
Em muitas famílias latino-americanas ocorre algo semelhante: avós permanecem integrados à estrutura cotidiana da família e frequentemente não são apenas receptores de cuidado — eles próprios cuidam de netos, sustentam domicílios e exercem papel central na vida familiar. Pesquisas da ONU mostram inclusive que pessoas mais velhas em vários países latino-americanos continuam atuando como chefes de família e responsáveis por outros membros do domicílio.
Mas seria um erro transformar essas diferenças em uma oposição simplista entre culturas que “respeitam” e culturas que “abandonam” idosos.
Famílias multigeracionais também podem esconder sobrecarga, conflitos e violência. E sociedades onde idosos vivem separadamente podem oferecer excelentes redes públicas de assistência, autonomia e participação social.
O essencial não é saber se uma pessoa envelhece na casa dos filhos ou em sua própria residência.
É saber se ela possui autonomia, relações humanas, segurança econômica e cuidado quando precisa.
Quando viver sozinho se transforma em solidão
Esse será um dos grandes desafios das próximas décadas.
Cada vez mais pessoas chegarão aos 80 ou 90 anos, muitas delas depois da morte do companheiro ou da companheira. Famílias serão menores, filhos poderão viver longe e vizinhanças terão menos relações comunitárias duradouras.
A OMS considera solidão e isolamento social fatores importantes de risco para a saúde mental das pessoas idosas.
Isso obriga governos a pensar além de hospitais e aposentadorias.
Centros comunitários, moradias adequadas, transporte acessível, espaços públicos, visitas domiciliares, programas intergeracionais e mecanismos de identificação de pessoas isoladas podem ser tão importantes para uma velhice digna quanto políticas de renda.
Quem cuidará?
A pergunta do título possui, portanto, várias respostas.
Parte do cuidado continuará sendo realizada pelas famílias. Outra parte dependerá de profissionais, serviços públicos, instituições e redes comunitárias.
Mas nenhuma dessas estruturas funcionará automaticamente.
Com famílias menores e mais pessoas vivendo até idades muito avançadas, simplesmente presumir que “os filhos cuidarão dos pais” poderá ser cada vez menos realista.
Ao mesmo tempo, transferir toda responsabilidade às instituições também não resolve o problema.
O cuidado exige dinheiro, profissionais, tempo e relações humanas.
É exatamente por isso que o envelhecimento precisa deixar de ser tratado como uma questão privada de cada família.
Proteger direitos também significa proteger a velhice
Há ainda uma transformação importante acontecendo no Direito Internacional.
Durante décadas, crianças, mulheres e pessoas com deficiência conquistaram instrumentos internacionais específicos de proteção de direitos. Pessoas idosas, apesar de sua crescente presença demográfica, permaneceram sem uma convenção global equivalente.
Em 2026, as Nações Unidas deram um novo passo nesse debate com os trabalhos de um grupo intergovernamental encarregado de elaborar um instrumento internacional juridicamente vinculante sobre os direitos das pessoas idosas.
A discussão envolve autonomia, proteção contra discriminação por idade, acesso à saúde, proteção social, cuidado de longa duração e combate à violência e negligência.
A ideia central parece simples: envelhecer não reduz a condição de uma pessoa como sujeito de direitos.
Uma sociedade também é julgada pela forma como trata quem envelheceu
O Dia Internacional das Pessoas Idosas, celebrado em 1º de outubro, deveria servir menos para homenagens simbólicas e mais para uma pergunta política.
Como queremos envelhecer?
O debate demográfico costuma ser apresentado em números: taxas de natalidade, idade de aposentadoria, proporção entre trabalhadores e pensionistas, gastos com saúde.
Todos são importantes.
Mas por trás deles existem pessoas.
O futuro das sociedades envelhecidas não será determinado apenas pela capacidade de financiar aposentadorias. Será determinado também pela decisão de considerar a velhice parte integrante da vida social — e não um período em que alguém deixa de ser economicamente útil e lentamente desaparece da esfera pública.
Uma sociedade preparada para envelhecer é aquela em que chegar aos 80 ou 90 anos não significa necessariamente tornar-se pobre, invisível, dependente ou sozinho.
O verdadeiro desafio não é apenas viver mais.
É garantir que os anos conquistados pela longevidade continuem sendo anos de vida com dignidade.
Referências
- ONU — International Day of Older Persons
https://www.un.org/en/observances/older-persons-day - ONU — Ageing
https://www.un.org/en/global-issues/ageing - ONU — World Population Prospects 2024
https://population.un.org/wpp/ - ONU — World Social Report 2023: Leaving No One Behind in an Ageing World
https://www.un.org/development/desa/dspd/world-social-report/2023-2.html - OCDE — Pensions at a Glance 2025
https://www.oecd.org/en/publications/pensions-at-a-glance-2025_e40274c1-en.html - OCDE — Ageing
https://www.oecd.org/en/topics/ageing.html - OCDE — Employment Outlook 2025
https://www.oecd.org/en/publications/oecd-employment-outlook-2025_194a947b-en.html - Destatis — Armutsgefährdung älterer Menschen
https://www.destatis.de/DE/Themen/Querschnitt/Demografischer-Wandel/Aeltere-Menschen/armutsgefaehrdung.html - OMS — Abuse of older people
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/abuse-of-older-people - OMS — Ageing and health
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/ageing-and-health - OMS — Mental health of older adults
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-of-older-adults













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