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Dia Internacional da Caridade: quando ajudar salva vidas — e quando a solidariedade precisa virar direito

por 5 de setembro de 2026Desenvolvimento Global0 Comentários

O Dia Internacional da Caridade, celebrado em 5 de setembro, costuma ser associado à generosidade individual. Mas, em um mundo no qual a ajuda internacional sofreu em 2025 a maior queda anual já registrada e os países em desenvolvimento enfrentam um déficit de cerca de US$ 4 trilhões por ano para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a discussão precisa ir além da doação. Caridade pode salvar vidas em uma emergência; não pode substituir políticas públicas, direitos sociais nem responsabilidades internacionais.

Por que 5 de setembro

A Assembleia Geral da ONU instituiu o Dia Internacional da Caridade em 2012, escolhendo a data da morte de Madre Teresa de Calcutá, ocorrida em 5 de setembro de 1997. Nascida Agnes Gonxha Bojaxhiu, em 1910, ela fundou as Missionárias da Caridade em Calcutá em 1950 e dedicou décadas ao atendimento de pessoas pobres, doentes, órfãs e em situação terminal. Em 1979, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por esse trabalho.

Ao receber o prêmio, Madre Teresa insistiu que a pobreza não deveria transformar pessoas em objetos de pena:

“They don’t need our pity and sympathy, they need our understanding love. They need our respect.”
— “Elas não precisam de nossa piedade e simpatia; precisam de nosso amor compreensivo. Precisam de nosso respeito.”

A frase ajuda a distinguir caridade de paternalismo. A pessoa ajudada continua sendo sujeito de dignidade e direitos, não cenário para a virtude de quem doa.

A caridade pode chegar onde o Estado não chega

Em guerras, terremotos, deslocamentos forçados ou colapsos econômicos, esperar por reformas estruturais não alimenta uma criança nem fornece antibióticos a alguém ferido. Organizações humanitárias, associações locais, instituições religiosas, fundações e voluntários desempenham papel essencial justamente porque conseguem mobilizar recursos rapidamente.

Madre Teresa resumiu essa dimensão cotidiana da solidariedade em sua palestra do Nobel:

“It is not how much we do, but how much love we put in the action that we do.”
— “Não importa apenas quanto fazemos, mas quanto amor colocamos naquilo que fazemos.”

O problema começa quando a emergência se transforma em modelo permanente. Uma cesta de alimentos pode evitar fome hoje, mas não substitui direito à alimentação. Um abrigo temporário protege alguém do frio, mas não substitui política habitacional. Uma campanha para comprar medicamentos pode salvar uma vida, mas não resolve um sistema de saúde que depende da capacidade de pacientes despertarem compaixão pública.

A diferença central é simples: caridade depende da vontade de alguém; direito cria obrigação.

2026: menos ajuda justamente quando as necessidades aumentam

Essa distinção tornou-se particularmente relevante porque o sistema internacional de desenvolvimento atravessa uma forte retração. Dados preliminares da OCDE mostram que a Assistência Oficial ao Desenvolvimento caiu 23,1% em termos reais em 2025, para US$ 174,3 bilhões, a maior contração anual já registrada. Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido, Japão e França responderam pela maior parte da redução, e os Estados Unidos, sozinhos, por aproximadamente três quartos dela.

A projeção para 2026 também é negativa: a OCDE estima nova redução de aproximadamente 6,9%, levando a ajuda líquida a cerca de US$ 152 bilhões. Países menos desenvolvidos e a África Subsaariana estão entre os grupos que podem sofrer proporcionalmente mais, enquanto o financiamento internacional para saúde poderá ficar até 63% abaixo do pico registrado em 2022.

O contraste com outras prioridades globais é significativo. Em julho de 2026, a vice-secretária-geral da ONU, Amina Mohammed, lembrou que os gastos militares mundiais haviam atingido cerca de US$ 2,9 trilhões, enquanto o déficit anual de financiamento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável permanecia em torno de US$ 4 trilhões.

Esses números mostram o limite de imaginar que bilionários, campanhas beneficentes ou grandes fundações possam preencher sozinhos o espaço deixado por Estados.

Filantropia pode inovar — mas também concentra poder

A filantropia internacional cresceu muito em saúde, educação, pesquisa científica, clima e direitos humanos. Grandes fundações conseguem financiar projetos experimentais, assumir riscos que governos evitam e apoiar organizações que trabalham em contextos politicamente difíceis.

Mas há uma questão democrática inevitável: quem decide quais problemas merecem dinheiro?

O relatório mais recente da OCDE sobre filantropia internacional mostra que, entre 2020 e 2023, apenas 11% dos fluxos filantrópicos internacionais foram canalizados diretamente para organizações locais; aproximadamente 89% passaram por instituições internacionais, ONGs de países doadores, redes ou organismos multilaterais. Comunidades locais participavam mais frequentemente da execução dos projetos do que de sua concepção ou avaliação.

Há também déficit de transparência: enquanto 78% das fundações pesquisadas divulgavam informações gerais de governança, apenas 28% publicavam avaliações detalhadas de projetos e 17% informações sobre desempenho e impacto das doações.

A filantropia pode, portanto, redistribuir recursos sem necessariamente redistribuir poder. Quando pessoas que recebem ajuda têm pouca influência sobre prioridades, orçamento ou avaliação, solidariedade pode se aproximar de paternalismo.

É por isso que especialistas em desenvolvimento vêm defendendo o conceito de locally led development, no qual comunidades locais participam não apenas como executoras, mas da definição, desenho, implementação e avaliação das políticas que afetam suas próprias vidas. A OCDE define essa abordagem como transferência efetiva de agência aos atores locais.

Religião, voluntariado e redes que sustentam comunidades

A caridade tem raízes antigas em tradições religiosas. Cristianismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo, budismo e muitas outras tradições desenvolveram práticas de doação, hospitalidade e cuidado comunitário. Essas redes continuam relevantes em sociedades contemporâneas, especialmente onde serviços públicos são insuficientes ou onde migrantes e pessoas vulneráveis confiam mais em instituições comunitárias do que na burocracia estatal.

O mesmo vale para o voluntariado secular. Pessoas que trabalham gratuitamente em cozinhas comunitárias, organizações de refugiados, associações de bairro, alfabetização, proteção ambiental ou defesa de direitos oferecem algo que não aparece facilmente em balanços financeiros: tempo, conhecimento, vínculos sociais e confiança.

Isso não significa que Estados possam transferir suas responsabilidades para voluntários. Uma sociedade que depende permanentemente da boa vontade de cidadãos para garantir necessidades básicas revela também uma falha institucional.

Quando caridade vira espetáculo

Existe ainda uma dimensão mais desconfortável. Doações podem se transformar em marketing empresarial, campanha de reputação ou conteúdo para redes sociais. Empresas que pagam salários precários podem financiar ações contra a pobreza; governos podem cortar programas sociais e simultaneamente elogiar organizações beneficentes por preencherem o vazio.

A crítica não significa que a ajuda deixe de ser útil. Significa perguntar se ela enfrenta ou apenas administra as causas do problema.

No plano internacional, a pergunta é ainda mais forte porque a distribuição contemporânea da riqueza não pode ser separada de colonialismo, escravidão, extração de recursos, desigualdade comercial, evasão tributária e sistemas financeiros nos quais países pobres frequentemente pagam juros muito mais altos do que economias ricas.

Em 2026, a ONU estimava que cerca de 3 bilhões de pessoas viviam em países cujos governos gastavam mais com juros da dívida do que com saúde e educação somadas.

Nesse contexto, apresentar toda transferência de recursos do Norte Global para o Sul como simples “generosidade” esconde relações históricas e econômicas muito mais complexas.

Da compaixão à justiça

A importância da caridade não precisa ser negada para que seus limites sejam reconhecidos. Em uma emergência, ela pode significar a diferença entre vida e morte. Madre Teresa dizia que o serviço aos pobres deveria partir do reconhecimento de sua dignidade, não da superioridade moral de quem ajuda. Ao receber o Nobel, afirmou:

“I accept the prize in the name of the poor.”
— “Aceito o prêmio em nome dos pobres.”

Mas dignidade exige algo além de compaixão. Exige instituições capazes de garantir alimentação, saúde, moradia, educação e proteção independentemente da disposição de um doador.

Por isso, o debate contemporâneo precisa juntar caridade, solidariedade e justiça. A primeira responde à necessidade imediata; a segunda reconhece responsabilidade compartilhada; a terceira transforma essa responsabilidade em direitos, políticas públicas e estruturas econômicas menos desiguais.

Uma doação pode alimentar alguém hoje. Uma boa política pode impedir que essa pessoa dependa da próxima doação amanhã.

Esse talvez seja o significado político mais importante do 5 de setembro: a caridade é indispensável quando alguém está sofrendo, mas seu horizonte mais ambicioso deveria ser construir uma sociedade em que sobreviver não dependa da caridade de ninguém.

 

Referências

MADRE TERESA. Acceptance Speech — Nobel Peace Prize 1979. Oslo: Nobel Prize, 10 dez. 1979. Disponível em:
https://www.nobelprize.org/prizes/peace/1979/teresa/acceptance-speech/
Acesso em: 16 ago. 2026.

MADRE TERESA. Nobel Lecture. Oslo: Nobel Prize, 11 dez. 1979. Disponível em:
https://www.nobelprize.org/prizes/peace/1979/teresa/lecture/
Acesso em: 16 ago. 2026.

NAÇÕES UNIDAS. International Day of Charity. Nova York. Disponível em:
https://www.un.org/en/observances/charity-day
Acesso em: 16 ago. 2026.

NAÇÕES UNIDAS. Financing for Sustainable Development Report 2026: Implementing the Sevilla Commitment. Nova York, 2026. Disponível em:
https://desapublications.un.org/publications/financing-sustainable-development-report-2026
Acesso em: 16 ago. 2026.

NAÇÕES UNIDAS. The Sustainable Development Goals Report 2026. Nova York, 2026. Disponível em:
https://www.un.org/sustainabledevelopment/blog/2026/07/press-release-sdgs-report-2026/
Acesso em: 16 ago. 2026.

OCDE. A historic decline in foreign aid: Preliminary 2025 ODA data. Paris, 9 abr. 2026. Disponível em:
https://www.oecd.org/en/data/insights/data-explainers/2026/04/a-historic-decline-in-foreign-aid-preliminary-2025-oda-data.html
Acesso em: 16 ago. 2026.

OCDE. ODA projections for 2026 and the near-term. Paris, 2026. Disponível em:
https://www.oecd.org/en/publications/oda-projections-for-2026-and-the-near-term_d7c74fa2-en.html
Acesso em: 16 ago. 2026.

OCDE. Private Philanthropy for Development. Third Edition. Paris, 2026. Disponível em:
https://www.oecd.org/en/publications/private-philanthropy-for-development-third-edition_98e676c0-en.html
Acesso em: 16 ago. 2026.

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