O povo curdo: o maior povo sem Estado

Divididos entre Turquia, Iraque, Irã e Síria desde o colapso do Império Otomano, os curdos somam entre 30 e 45 milhões de pessoas — o maior povo do mundo sem Estado próprio, e um caso emblemático da tensão entre autodeterminação e integridade territorial no direito internacional.

Por Tatiana Mendonça — Munique, Alemanha

15 de setembro de 2026 às 08:55h

Com uma população estimada entre 30 e 45 milhões de pessoas, os curdos são amplamente reconhecidos como o maior povo do mundo sem um Estado próprio — maior até do que a população de dezenas de países soberanos reconhecidos pela ONU. Distribuídos principalmente por quatro países — Turquia, Iraque, Irã e Síria —, os curdos compartilham língua, cultura e identidade histórica comuns, mas vivem divididos por fronteiras traçadas no início do século 20 sem considerar suas aspirações nacionais.

A origem dessa fragmentação remonta ao colapso do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial. O Tratado de Sèvres, assinado em 1920, chegou a prever a criação de um Curdistão independente. Três anos depois, porém, o Tratado de Lausanne — negociado após a vitória do movimento nacionalista turco liderado por Mustafa Kemal Atatürk — anulou essa promessa, redesenhando as fronteiras da região sem qualquer Estado curdo e dividindo o povo entre a nova Turquia republicana, o Iraque e a Síria sob mandato britânico e francês, além do território que já pertencia à Pérsia (atual Irã).

Desde então, os curdos enfrentaram décadas de repressão em diferentes graus em cada um dos quatro países. Na Turquia, onde vive o maior contingente curdo do mundo, o uso público da língua curda chegou a ser proibido por décadas, e o conflito armado entre o Estado turco e o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), organização classificada como terrorista por Ancara, Estados Unidos e União Europeia, já matou dezenas de milhares de pessoas desde 1984. No Iraque, o regime de Saddam Hussein promoveu, nos anos 1980, a campanha genocida conhecida como Al-Anfal, que incluiu o uso de armas químicas contra civis curdos na cidade de Halabja, em 1988, matando milhares de pessoas em poucas horas.

A trajetória curda também inclui capítulos de relativo avanço político. No norte do Iraque, os curdos conquistaram autonomia de fato a partir de 1991, quando uma zona de exclusão aérea protegida pelos Estados Unidos e aliados, após a Guerra do Golfo, permitiu a formação do que hoje é a Região Autônoma do Curdistão iraquiano — território com governo, parlamento e forças de segurança próprios (os peshmerga), embora formalmente parte do Iraque. Na Síria, durante a guerra civil iniciada em 2011, milícias curdas lideradas pelas Unidades de Proteção do Povo (YPG) tornaram-se protagonistas centrais na luta contra o Estado Islâmico, recebendo apoio militar direto dos Estados Unidos — aliança que gerou fortes tensões com a Turquia, que considera o YPG uma extensão do PKK.

Do ponto de vista da teoria das relações internacionais, o caso curdo ilustra a tensão clássica entre o princípio da autodeterminação dos povos, consagrado na Carta da ONU, e o princípio da integridade territorial dos Estados existentes — dois pilares do direito internacional que frequentemente entram em conflito direto. Nenhuma potência ocidental relevante apoiou formalmente a criação de um Estado curdo independente, mesmo quando milícias curdas serviram como aliadas estratégicas fundamentais, como no combate ao Estado Islâmico — evidenciando como considerações geopolíticas de curto prazo tendem a prevalecer sobre princípios normativos na prática da diplomacia internacional.

Um referendo de independência realizado pelo Curdistão iraquiano em 2017, com resultado esmagadoramente favorável à separação, não resultou em reconhecimento internacional e foi seguido por retaliação militar e econômica do governo central iraquiano, que retomou território disputado na região de Kirkuk — episódio que reforçou, para lideranças curdas, os limites práticos da busca por soberania plena em um sistema internacional estruturado para preservar fronteiras existentes.

Referências

WIKIPEDIA. Curdos. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Curdos. Acesso em: 14 set. 2026.

WIKIPEDIA. Treaty of Sèvres. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Treaty_of_S%C3%A8vres. Acesso em: 14 set. 2026.

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