Dia Internacional da Menina — Quando nascer menina ainda significa estudar menos, casar cedo e obedecer mais

Em 11 de outubro, o Dia Internacional da Menina chama atenção para desigualdades que começam cedo. Em 2026, o Afeganistão continua sendo o único país do mundo em que meninas e mulheres estão proibidas, por política nacional, de frequentar o ensino secundário e superior. Em outros lugares, casamento infantil, pobreza, violência, insegurança e normas de […]

Por Tatiana Mendonça — Munique, Alemanha

11 de outubro de 2026 às 01:13h

Six friends sitting on a wall by the ocean

Em 11 de outubro, o Dia Internacional da Menina chama atenção para desigualdades que começam cedo. Em 2026, o Afeganistão continua sendo o único país do mundo em que meninas e mulheres estão proibidas, por política nacional, de frequentar o ensino secundário e superior. Em outros lugares, casamento infantil, pobreza, violência, insegurança e normas de gênero produzem resultado semelhante por caminhos menos explícitos: interrompem a escola e reduzem a autonomia antes mesmo da vida adulta. Histórias como as de Malala Yousafzai, Muzoon Almellehan e das meninas sequestradas em Chibok mostram que, para muitas garotas, estudar ainda pode ser um ato de resistência.

Como surgiu o Dia Internacional da Menina

A Assembleia Geral das Nações Unidas criou oficialmente o Dia Internacional da Menina em 19 de dezembro de 2011, por meio da Resolução 66/170. A primeira celebração ocorreu em 11 de outubro de 2012. O objetivo era reconhecer especificamente os direitos das meninas e tornar visíveis desafios que nem sempre aparecem quando mulheres e crianças são tratadas como grupos homogêneos.

A data parte de uma constatação simples: idade e gênero podem produzir vulnerabilidades simultâneas. Uma menina pode ter menos poder para decidir sobre sua educação, casamento, sexualidade, trabalho ou mobilidade justamente porque é criança e porque é menina.

Afeganistão: exclusão por decreto

O caso mais extremo está hoje no Afeganistão.

Depois que o Talibã retomou o poder em agosto de 2021, meninas foram progressivamente excluídas da educação após o sexto ano e mulheres foram impedidas de frequentar universidades. Em janeiro de 2026, UNESCO e UNICEF estimavam que 2,2 milhões de adolescentes já estavam privadas do ensino secundário. O país permanece o único do mundo em que o ensino secundário e superior é formalmente proibido para meninas e mulheres.

A exclusão não afeta apenas as alunas de hoje. O UNICEF estima que, se as restrições continuarem, o Afeganistão poderá perder até 20 mil professoras e 5.400 profissionais de saúde mulheres até 2030, agravando também o acesso de outras mulheres e meninas a serviços essenciais.

Em setembro de 2025, a diretora-executiva do UNICEF, Catherine Russell, alertou que mais de 2,2 milhões de meninas já teriam sido excluídas da educação até o final daquele ano.

Não é consequência indireta da guerra. É uma política de exclusão baseada no gênero.

Malala: quando ir à escola se tornou motivo para ser baleada

A história de Malala Yousafzai tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da luta pela educação de meninas.

 

 

Nascida no Vale do Swat, no Paquistão, Malala começou ainda adolescente a defender publicamente o direito das meninas de estudar num contexto em que grupos talibãs atacavam escolas e restringiam a educação feminina. Em outubro de 2012, aos 15 anos, foi baleada dentro do ônibus escolar por causa de seu ativismo. Sobreviveu e continuou sua campanha. Em 2014, tornou-se a pessoa mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz.

Em seu discurso nas Nações Unidas, em 2013, afirmou:

“One child, one teacher, one pen and one book can change the world.”
— “Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo.”

A frase ganhou força justamente porque Malala havia sido atacada por defender aquilo que deveria ser banal: o direito de uma menina frequentar uma escola.

Em 2026, ela voltou à ONU para pedir que o tratamento imposto às mulheres e meninas afegãs pelo Talibã fosse reconhecido como uma forma de “apartheid de gênero”.

Muzoon: educação no exílio

A história da síria Muzoon Almellehan mostra outra dimensão do problema.

 

 

Ela fugiu da guerra na Síria com sua família em 2013 e viveu em campos de refugiados na Jordânia. Ali, percebeu que algumas famílias retiravam as filhas da escola e consideravam casá-las ainda adolescentes. Muzoon começou então a visitar famílias e defender pessoalmente que as meninas permanecessem estudando.

Mais tarde, tornou-se a primeira pessoa com status de refugiada nomeada Embaixadora da Boa Vontade do UNICEF.

Ela resumiu sua experiência assim:

“Education gave me the strength to carry on.”
— “A educação me deu forças para continuar.”

No caso de meninas refugiadas, a escola pode representar muito mais do que aprendizagem: pode significar estabilidade, proteção, perspectiva profissional e uma alternativa ao casamento precoce.

Chibok: sequestradas por estarem na escola

Em abril de 2014, a educação feminina tornou-se alvo de violência em escala mundialmente conhecida quando o grupo Boko Haram sequestrou 276 estudantes da Government Girls Secondary School de Chibok, no nordeste da Nigéria.

O caso gerou a campanha internacional #BringBackOurGirls, mas não foi um episódio isolado. Escolas, professores e estudantes foram repetidamente atacados pelo grupo, que rejeitava determinadas formas de educação secular e utilizava sequestros, violência sexual e recrutamento infantil como parte de sua estratégia.

Anos depois, dezenas das meninas de Chibok ainda permaneciam desaparecidas.

A história evidenciou algo que discursos sobre educação às vezes escondem: em determinados contextos, ser uma menina dentro de uma sala de aula já pode ser interpretado como desafio a uma ordem política ou religiosa.

Casamento infantil também tira meninas da escola

A exclusão da educação nem sempre exige homens armados ou decretos governamentais.

O casamento infantil continua interrompendo a infância de milhões de meninas.

O UNICEF estima que aproximadamente 640 milhões de mulheres e meninas vivas hoje foram casadas antes dos 18 anos. Quase metade vive no Sul da Ásia, cerca de 20% na África Subsaariana e outras milhões na América Latina, no Oriente Médio, no Leste Asiático e em outras regiões.

O casamento precoce está associado ao abandono escolar, gravidez na adolescência, maior dependência econômica e risco de violência doméstica. Os comitês da ONU responsáveis pela Convenção sobre os Direitos da Criança e pela CEDAW classificam o casamento infantil como uma prática nociva e uma violação de direitos.

Educação e casamento estão diretamente ligados. Estudos do Banco Mundial mostram que manter meninas na escola reduz o risco de casamento precoce; na direção inversa, o casamento infantil reduz fortemente a probabilidade de concluir os estudos.

Não é um problema de uma religião

Também seria um erro transformar casamento infantil ou exclusão educacional feminina em característica de uma única religião ou região.

A prática existe em sociedades de diferentes tradições religiosas e culturais. Pode ser justificada por costume, religião, honra familiar ou segurança, mas também pode ser impulsionada por pobreza, falta de escolas, guerras, deslocamento e ausência de proteção social.

O elemento comum não é uma religião específica.

É a desigualdade de poder que permite que outras pessoas decidam o futuro de uma menina antes que ela tenha condições reais de decidir por si mesma.

Em algumas famílias, o casamento precoce é inclusive apresentado como forma de “proteção” econômica ou física. Isso mostra por que apenas proibir a prática por lei pode não ser suficiente: é preciso oferecer alternativas reais — escola acessível, transporte seguro, apoio financeiro às famílias e perspectivas profissionais.

O direito internacional é claro

A Convenção sobre os Direitos da Criança, de 1989, reconhece direitos à educação, desenvolvimento, proteção contra violência e consideração prioritária do melhor interesse da criança.

A Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW) exige que Estados eliminem discriminação na educação, no casamento e na vida familiar.

Os comitês que monitoram as duas convenções tratam casamento infantil e forçado como práticas nocivas relacionadas à desigualdade de gênero e defendem 18 anos como referência mínima para casamento.

Em conflitos armados, escolas e estudantes também possuem proteção no âmbito do Direito Internacional Humanitário, e ataques deliberados contra civis ou bens civis podem constituir crimes de guerra dependendo das circunstâncias.

Uma menina na escola ganha mais do que um diploma

O impacto da educação feminina não termina no rendimento escolar.

Estudos do Banco Mundial associam maior escolaridade de meninas a maior renda futura, maior autonomia, menor incidência de casamento e maternidade precoces e melhores indicadores de saúde e desenvolvimento para a geração seguinte.

A educação também oferece algo mais difícil de medir: tempo para escolher.

Tempo antes de um casamento.

Tempo antes de uma gravidez.

Tempo para aprender, criar relações fora da família, conhecer outras possibilidades e construir independência econômica.

É por isso que regimes e estruturas sociais interessados em controlar mulheres frequentemente tentam controlar primeiro a educação das meninas.

O problema não termina na porta da escola

Construir escolas é indispensável, mas não basta.

Uma menina pode estar matriculada e ainda abandonar os estudos porque não existe transporte seguro, porque sofre assédio no caminho, porque precisa cuidar de irmãos, porque a família não consegue pagar materiais ou porque será casada antes de terminar a adolescência.

Políticas eficazes precisam combinar educação, proteção social, segurança, saúde, combate à violência e prevenção do casamento infantil.

Essa abordagem é mais difícil do que simplesmente aumentar matrículas, mas é a diferença entre colocar uma menina dentro de uma escola e permitir que ela realmente permaneça ali.

O direito de imaginar o próprio futuro

Malala no Paquistão, Muzoon no exílio sírio, as meninas sequestradas em Chibok e as milhões de adolescentes excluídas das escolas no Afeganistão vivem histórias muito diferentes.

O que as conecta não é cultura, religião ou nacionalidade.

É a disputa sobre quem decide o futuro de uma menina.

O Dia Internacional da Menina deveria ser menos uma celebração abstrata de “empoderamento” e mais uma pergunta concreta: ela pode estudar? Pode recusar um casamento? Pode escolher uma profissão? É ouvida quando decisões sobre sua vida são tomadas?

Uma menina não deveria receber um destino pronto antes de ter liberdade para escolher o próprio.

 

Referências

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https://digitallibrary.un.org/record/724510
Acesso em: 15 ago. 2026.

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https://www.unicef.org/afghanistan/press-releases/unesco-and-unicef-urge-action-protect-right-education-afghanistan
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https://malala.org/malalas-story
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YOUSAFZAI, Malala. Nobel Peace Prize acceptance speech. Oslo, 10 dez. 2014. Disponível em:
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https://documents1.worldbank.org/curated/en/303871542653562970/pdf/132201-BRI-P168381-PUBLIC-11-20-18-WorldBank-AfricaSynthesis-Brief-v4.pdf
Acesso em: 15 ago. 2026.

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