O mundo continua produzindo alimentos em escala suficiente para sustentar bilhões de pessoas, mas isso não significa que todos conseguem comer adequadamente. Em 2025, cerca de 645 milhões de pessoas enfrentaram fome, enquanto aproximadamente 2,7 bilhões não conseguiam pagar uma dieta saudável. A diferença entre produzir alimento e garantir alimentação revela o centro do problema: a fome contemporânea está ligada a renda, guerra, desigualdade, inflação, acesso à terra, infraestrutura e capacidade política de fazer comida chegar a quem precisa.
Como surgiu o Dia Mundial da Alimentação
O Dia Mundial da Alimentação é celebrado em 16 de outubro porque essa foi a data de fundação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em 1945. A celebração foi instituída pela Conferência da FAO em 1979 e passou a ser observada internacionalmente a partir de 1981, tornando-se uma das campanhas mais difundidas do sistema das Nações Unidas.
Ao longo das décadas, o foco da data se ampliou. Não se trata apenas de aumentar a produção agrícola, mas de garantir segurança alimentar, nutrição adequada e acesso permanente aos alimentos. Essa mudança acompanha a consolidação do direito humano à alimentação adequada, reconhecido pelo direito internacional e incorporado ao trabalho da FAO.
A fome caiu, mas continua gigantesca
O relatório The State of Food Security and Nutrition in the World 2026 (SOFI) estima que 645 milhões de pessoas enfrentaram fome em 2025, cerca de 14 milhões a menos que no ano anterior. Foi o terceiro ano consecutivo de melhora global. Ainda assim, a redução não ocorreu de maneira uniforme, e regiões marcadas por conflito, fragilidade institucional e choques econômicos continuam apresentando deterioração.
O indicador mais revelador talvez seja outro: cerca de 2,7 bilhões de pessoas não tinham condições econômicas de pagar por uma dieta saudável. Isso mostra que segurança alimentar não pode ser medida apenas pela quantidade de calorias disponíveis. Uma pessoa pode consumir o mínimo necessário para sobreviver e, ao mesmo tempo, não ter acesso regular a frutas, legumes, proteínas e outros alimentos necessários a uma alimentação adequada.
Por isso, a fome é também um problema de renda. Quando alimentos existem no mercado, mas parte da população não consegue comprá-los, o obstáculo deixa de ser apenas agrícola e passa a ser distributivo. Inflação, salários baixos, desemprego, ausência de proteção social e concentração de renda podem reduzir drasticamente o que uma família consegue colocar à mesa.
Pobreza, conflito e fome se reforçam
Os países mais vulneráveis à fome também costumam concentrar pobreza extrema, fragilidade institucional e conflitos armados. O Banco Mundial estima que, até 2030, a maior parte das pessoas em extrema pobreza viverá em economias frágeis e afetadas por conflito; em muitos desses países, a insegurança alimentar aguda já atinge proporções muito superiores à média mundial.
A relação é circular. Conflitos destroem plantações, interrompem rotas comerciais, aumentam preços, deslocam agricultores e dificultam o funcionamento dos mercados. Ao mesmo tempo, pobreza e insegurança alimentar podem ampliar instabilidade social, deslocamentos e dependência de ajuda humanitária. O Banco Mundial alertou em 2025 que conflitos e instabilidade estão aumentando a pobreza extrema mais rapidamente justamente nos países já mais vulneráveis e agravando a fome aguda.
Isso ajuda a entender por que simplesmente produzir mais comida não resolve o problema. Uma colheita abundante pouco significa para uma população cercada por guerra, sem renda ou sem acesso às rotas pelas quais os alimentos circulam.
Quando a fome vira arma
Em conflitos armados, a fome pode deixar de ser apenas consequência da guerra e se transformar em instrumento militar. O Direito Internacional Humanitário proíbe expressamente o uso da fome da população civil como método de guerra. A Regra 53 do direito internacional humanitário costumeiro compilado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha estabelece que “o uso da fome da população civil como método de guerra é proibido”.
Essa proteção também se estende aos bens indispensáveis à sobrevivência. O artigo 54 do Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra proíbe atacar, destruir, remover ou inutilizar alimentos, áreas agrícolas, rebanhos, instalações de água e outros recursos essenciais quando o objetivo for privar civis de meios de subsistência.
O bloqueio deliberado da ajuda humanitária pode igualmente integrar esse quadro. O CICV destaca que impedir assistência destinada a civis em necessidade pode constituir violação da proibição de utilizar a fome como método de guerra.
Conflitos como Gaza, Sudão, Iêmen e Síria mostraram nos últimos anos como o acesso a alimentos pode ser condicionado por bloqueios, cercos, destruição de infraestrutura e restrições à ajuda. A existência de fome em uma guerra não prova automaticamente intenção criminosa, mas quando alimentos ou assistência são deliberadamente privados da população civil, a questão deixa de ser apenas humanitária e passa também a ser jurídica.
Bilionários poderiam simplesmente pagar para acabar com a fome?
A enorme concentração de riqueza mundial costuma gerar uma pergunta intuitiva: se algumas fortunas privadas ultrapassam dezenas ou centenas de bilhões de dólares, por que alguém não poderia simplesmente “pagar para acabar com a fome”?
Grandes doações certamente podem salvar milhões de vidas. Recursos privados podem financiar refeições emergenciais, merenda escolar, sistemas de irrigação, transferências de renda, sementes e programas de nutrição. Mas eliminar estruturalmente a fome exige muito mais do que cobrir o orçamento de uma operação humanitária. Nenhum cheque, por maior que seja, encerra sozinho uma guerra, garante acesso à terra, constrói instituições estáveis, cria mercados funcionais ou assegura renda permanente às famílias.
Essa distinção é importante porque separa alívio emergencial de segurança alimentar duradoura. A ajuda humanitária é indispensável quando pessoas estão sem comida hoje, mas políticas de longo prazo precisam enfrentar as estruturas que reproduzem a vulnerabilidade.
O direito à alimentação muda a pergunta
Tratar alimentação como direito humano também muda a forma de pensar o problema. O direito à alimentação adequada não significa que governos devam fornecer gratuitamente todas as refeições de seus habitantes, mas que precisam criar condições para que as pessoas tenham acesso físico e econômico regular a alimentos suficientes, seguros e nutritivos.
Na prática, isso significa que políticas contra a fome precisam olhar simultaneamente para produção, renda, preços, proteção social e desigualdade. Um país pode ser grande exportador agrícola e ainda manter milhões de pessoas em insegurança alimentar se parte da população não tiver renda suficiente para comprar o que é produzido.
A questão central deixa de ser apenas “há comida?” e passa a ser “quem consegue acessá-la, em que condições e com que regularidade?”
Mulheres, terra e poder
A desigualdade de gênero também interfere diretamente na segurança alimentar. Em muitas regiões rurais, mulheres desempenham papel central na produção e comercialização de alimentos, mas possuem menos acesso à propriedade da terra, crédito, tecnologia e assistência técnica.
Essa desigualdade limita a capacidade produtiva e aumenta a vulnerabilidade das famílias. Políticas que ampliam o acesso de mulheres a recursos econômicos e à propriedade rural não são apenas medidas de igualdade de gênero; também podem fortalecer sistemas alimentares e reduzir insegurança.
O mesmo raciocínio vale para pequenos agricultores. Quando a produção está concentrada, agricultores familiares têm pouco acesso a armazenamento, crédito ou mercados e grande parte da colheita pode ser perdida ou vendida sob condições desfavoráveis.
O que funciona melhor
A literatura internacional mostra que não existe uma única política capaz de eliminar a fome, mas há um conjunto relativamente consistente de medidas eficazes. Transferências de renda e proteção social ajudam famílias a comprar alimentos durante crises; merenda escolar melhora nutrição e frequência; apoio à agricultura familiar fortalece renda e produção local; infraestrutura de armazenamento e transporte reduz perdas; e sistemas de alerta antecipado permitem agir antes de secas, conflitos ou altas de preços se transformarem em catástrofes.
Em contextos de guerra, essas políticas precisam ser complementadas por acesso humanitário seguro e proteção efetiva da população civil. Em países pobres altamente endividados, há ainda um problema fiscal: governos que gastam parcela significativa da receita com serviço da dívida dispõem de menos recursos para saúde, agricultura, proteção social e adaptação climática.
Nenhuma dessas medidas é particularmente espetacular, mas justamente por isso costumam ser mais eficazes do que soluções baseadas em uma única grande intervenção.
O problema não é apenas produzir mais
A humanidade ainda precisa aumentar a resiliência e a sustentabilidade de sua produção alimentar diante das mudanças climáticas, mas os dados de 2026 mostram que a fome não pode ser entendida como simples insuficiência de alimentos. Ela persiste porque comida, renda e poder estão distribuídos de maneira desigual.
Um mercado pode estar abastecido enquanto famílias não conseguem comprar. Um país pode exportar alimentos enquanto parte de sua população passa fome. Uma região agrícola pode produzir commodities para o mercado internacional e, ao mesmo tempo, depender de ajuda alimentar.
O desafio do Dia Mundial da Alimentação é justamente tornar visível essa contradição. Se 645 milhões de pessoas ainda passam fome e 2,7 bilhões não conseguem pagar uma dieta saudável, o problema não está apenas no que o mundo produz, mas em quem consegue acessar aquilo que é produzido.
Referências
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