Perfil: Rosario Murillo

Da poeta guerrilheira a copresidente da Nicarágua Desde fevereiro de 2025, a nicaraguense Rosario Murillo governa oficialmente ao lado do marido, Daniel Ortega, como copresidente da República — primeira mulher a ocupar o posto em um arranjo de poder inédito no continente americano, criado por emenda constitucional aprovada em Manágua. Murillo entrou para a política ainda […]

Por Tatiana Mendonça — Munique, Alemanha

12 de setembro de 2026 às 23:22h

Rosario Murillo

Rosario Murillo Foto (c) Office of the President, Republic of China (Taiwan) | Government Website Open Information Announcement

Da poeta guerrilheira a copresidente da Nicarágua

Desde fevereiro de 2025, a nicaraguense Rosario Murillo governa oficialmente ao lado do marido, Daniel Ortega, como copresidente da República — primeira mulher a ocupar o posto em um arranjo de poder inédito no continente americano, criado por emenda constitucional aprovada em Manágua.

Rosario Murillo 28202529 28cropped29

Rosario Murillo (c) State Duma of the Russian Federation

Murillo entrou para a política ainda nos anos 1970, no movimento sandinista que combateu a ditadura de Anastasio Somoza, e assumiu funções públicas a partir de 1985 como parlamentar. Depois de décadas como primeira-dama e porta-voz do governo, tornou-se vice-presidente em 2017 e, oito anos depois, copresidente — com poderes equivalentes aos do marido sobre o Executivo, incluindo Forças Armadas e Judiciário, segundo reportagem da Forbes Brasil.

O avanço institucional de Murillo é lido por analistas internacionais como sintoma de personalismo político, categoria central na literatura sobre regimes autoritários (Linz, 2000): o poder concentra-se não em instituições, mas em uma família que comanda diretamente o aparelho estatal.

Organismos de direitos humanos têm responsabilizado diretamente o casal pela deterioração institucional do país. Jan-Michael Simon, do Grupo de Especialistas em Direitos Humanos da ONU sobre a Nicarágua, afirmou que repressão e corrupção institucional tornaram-se o método de governo da família Ortega-Murillo. Já o Parlamento Europeu, em resolução de fevereiro de 2025, condenou formalmente a perseguição a opositores, líderes religiosos e defensores de direitos humanos sob o que classificou como “regime Ortega-Murillo”.

Sob a perspectiva de gênero na ciência política, o caso levanta uma questão espinhosa: a ascensão de Murillo ocorre não por meio de mecanismos de representação, mas pela via da hereditariedade política — o que a distancia de conquistas históricas de mulheres em cargos executivos na América Latina.

Referências:

FORBES BRASIL. Ortega diz que Nicarágua não realizará mais eleições. 20 jul. 2026. Disponível em: https://forbes.com.br/geral/2026/07/ortega-diz-que-nicaragua-nao-realizara-mais-eleicoes/. Acesso em: 13 set. 2026.

LINZ, Juan J. Totalitarian and Authoritarian Regimes. Boulder: Lynne Rienner, 2000.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. ONU: peritos revelam financiamento corrupto da repressão e rede de espionagem contra exilados na Nicarágua. Genebra: OHCHR, 10 mar. 2026. Disponível em: https://www.ohchr.org/en/press-releases/2026/03/nicaragua-un-experts-uncover-corrupt-financing-repression-and-spy-network. Acesso em: 13 set. 2026.

PARLAMENTO EUROPEU. Resolução sobre a repressão do regime Ortega-Murillo na Nicarágua. Bruxelas, 13 fev. 2025. Disponível em: https://oeil.europarl.europa.eu/oeil/en/procedure-document-summary/pdf?id=1804231. Acesso em: 13 set. 2026.

0 comentários

Enviar um comentário

Share This