Antissemitismo é uma forma histórica de preconceito contra judeus que existia muitos séculos antes da criação do Estado de Israel. Pode assumir a forma de teorias conspiratórias, negação do Holocausto, vandalismo contra sinagogas, discriminação, violência ou responsabilização coletiva de judeus pelas decisões de um governo. Desde 7 de outubro de 2023, porém, um problema antigo passou a conviver com outro desafio: como combater um aumento real e documentado de incidentes antissemitas sem transformar toda crítica à ocupação, ao genocídio em Gaza ou ao governo israelense em hostilidade contra judeus. Precisão conceitual não enfraquece o combate ao antissemitismo. É condição para que ele seja levado a sério.
Por que falar disso em 7 de outubro?
Na Alemanha, as Bildungs- und Aktionswochen gegen Antisemitismus — Semanas Educativas e de Ação contra o Antissemitismo não constituem um “dia internacional” oficial. São uma campanha anual da sociedade civil organizada pela Amadeu Antonio Stiftung, em cooperação com outras instituições dedicadas à educação contra o antissemitismo. Em 2026, a 23ª edição acontece entre 6 de outubro e 9 de novembro, com foco especial no antissemitismo nas universidades.
A escolha desse período é carregada de memória. O 9 de novembro remete aos pogroms de novembro de 1938, quando sinagogas, estabelecimentos e residências judaicas foram destruídos em toda a Alemanha nazista. Nos últimos anos, o calendário da campanha também passou a incluir o período em torno de 7 de outubro, data do ataque do Hamas e de outros grupos armados contra Israel em 2023.
A campanha tem raízes anteriores à guerra atual. A Amadeu Antonio Stiftung já organizava semanas nacionais contra o antissemitismo nos anos 2000; em 2008, por exemplo, cerca de 160 iniciativas civis participaram com aproximadamente 250 eventos.
Antissemitismo mudou de linguagem, mas não desapareceu
O antijudaísmo europeu possui história muito mais antiga do que o próprio termo “antissemitismo”. Durante séculos, judeus foram acusados de crimes religiosos imaginários, expulsos de territórios, impedidos de exercer profissões, segregados e vítimas de pogroms.
No século XIX, antigos preconceitos religiosos passaram a ser revestidos também de linguagem racial, nacionalista e pseudocientífica. Judeus passaram a ser retratados não apenas como seguidores de outra religião, mas como uma suposta “raça” estrangeira e perigosa, incapaz de pertencer plenamente às sociedades europeias. A UNESCO descreve essa passagem do antijudaísmo religioso para formas nacionalistas, raciais e conspiratórias como parte fundamental da história moderna do antissemitismo.
O nazismo levou essa construção à consequência mais extrema. Seis milhões de judeus foram assassinados durante o Holocausto pela Alemanha nazista, seus aliados e colaboradores. Negar ou minimizar esse crime permanece, segundo UNESCO e IHRA, uma das manifestações contemporâneas mais evidentes do antissemitismo.
O filósofo britânico Brian Klug, estudioso do antissemitismo, propõe uma definição deliberadamente simples:
“Hostility towards Jews as Jews.”
— “Hostilidade contra judeus enquanto judeus.”
A Jerusalem Declaration on Antisemitism, elaborada por pesquisadores de antissemitismo, Holocausto, história judaica e Oriente Médio, formula ideia semelhante:
“Antisemitism is discrimination, prejudice, hostility or violence against Jews as Jews.”
— “Antissemitismo é discriminação, preconceito, hostilidade ou violência contra judeus enquanto judeus.”
Essa formulação ajuda justamente a separar duas perguntas diferentes: o alvo é uma pessoa ou instituição por ser judaica, ou uma política de um Estado está sendo criticada?
Os números na Alemanha mostram que o problema é real
O debate conceitual não deve obscurecer a experiência concreta de pessoas judias.
O relatório nacional da Bundesverband RIAS, rede especializada na documentação de incidentes antissemitas na Alemanha, registrou 8.725 ocorrências em 2025 — quase 24 por dia. O número permaneceu praticamente no mesmo nível excepcionalmente alto de 2024, quando foram registrados 8.713 casos. Entre 2020 e 2022, a média anual era inferior a 2.500.
Em 2025, a RIAS documentou quatro episódios de violência extrema, 178 agressões e 257 ameaças. Também registrou 825 incidentes dirigidos diretamente contra judeus ou israelenses. Os casos online subiram de 1.996 em 2024 para 2.314 em 2025.
O problema difícil: quando Israel entra na definição
É precisamente nesse ponto que a discussão se torna mais complexa.
A International Holocaust Remembrance Alliance (IHRA) adotou em 2016 uma definição de trabalho de antissemitismo amplamente utilizada por governos, universidades e instituições públicas. Ela menciona exemplos relacionados a Israel, inclusive quando o Estado israelense é apresentado como uma representação coletiva de todos os judeus.
Mas a própria definição contém uma ressalva que às vezes desaparece no debate:
“Criticism of Israel similar to that leveled against any other country cannot be regarded as antisemitic.”
— “Críticas a Israel semelhantes às dirigidas a qualquer outro país não podem ser consideradas antissemitas.”
Isso significa que criticar o primeiro-ministro israelense, denunciar assentamentos, questionar a ocupação, discutir crimes de guerra, defender um Estado palestino ou contestar determinada operação militar não é automaticamente antissemitismo.
Ao mesmo tempo, críticas a Israel podem tornar-se antissemitas quando passam a responsabilizar judeus coletivamente, reciclar estereótipos conspiratórios, exigir que cidadãos judeus respondam pelas decisões do governo israelense ou atacar instituições judaicas locais em “retaliação” pelo que ocorre no Oriente Médio. Essa distinção é central tanto na IHRA quanto em definições alternativas.
Por que surgiu a Jerusalem Declaration
A aplicação da definição da IHRA gerou controvérsias em universidades, organizações culturais e movimentos de direitos humanos. Parte dos pesquisadores argumentou que alguns dos exemplos relacionados a Israel poderiam ser utilizados de maneira ampla demais e acabar confundindo posições políticas — inclusive antissionistas — com preconceito contra judeus.
Em 2021, mais de 200 acadêmicos e especialistas lançaram a Jerusalem Declaration on Antisemitism (JDA). Seu objetivo declarado foi justamente oferecer critérios mais detalhados para determinar quando críticas a Israel ou ao sionismo atravessam a linha do antissemitismo e quando não atravessam.
A JDA considera, por exemplo, antissemita responsabilizar coletivamente os judeus pela conduta de Israel ou exigir que judeus condenem Israel simplesmente porque são judeus. Ao mesmo tempo, afirma que criticar ou se opor ao sionismo como forma de nacionalismo, defender diferentes soluções constitucionais para israelenses e palestinos ou apresentar críticas baseadas em evidências à conduta de Israel não são, por si só, antissemitas.
A existência dessas duas referências mostra algo importante: não há apenas uma disputa entre “quem combate antissemitismo” e “quem não combate”. Há também uma discussão legítima entre especialistas sobre como defini-lo com precisão, sobretudo quando Israel e Palestina entram no debate.
“Antissemitismo relacionado a Israel” não significa “qualquer crítica a Israel”
A própria estatística alemã precisa ser lida com essa cautela.
A RIAS classificou 68% dos incidentes antissemitas documentados em 2025 como casos de israelbezogener Antisemitismus, ou “antissemitismo relacionado a Israel”. Em manifestações nas quais a organização identificou conteúdo antissemita, essa proporção chegou a 89%.
O dado é relevante, mas não significa que 68% de todas as críticas públicas a Israel tenham sido antissemitas. A RIAS registra incidentes que primeiro foram considerados antissemitas segundo sua metodologia e depois os classifica por forma e contexto. A categoria descreve casos em que Israel foi utilizado como veículo de uma representação antissemita; não transforma automaticamente protestos contra Israel em antissemitismo.
Essa diferença metodológica é essencial para evitar que uma estatística real seja interpretada de maneira errada.
O mesmo relatório mostra, aliás, que o antissemitismo não pertence a um único campo político. Em 2025, a RIAS registrou 807 incidentes com contexto de extrema direita, recorde nessa categoria. Outros casos foram associados a ativismo anti-Israel, meios anti-imperialistas de esquerda, islamismo ou não puderam ser classificados ideologicamente.
Combater o antissemitismo exige justamente não escolher apenas a variante que confirma a preferência política de cada lado.
Gaza tornou essa precisão ainda mais necessária
O genocídio em Gaza produziu um ambiente no qual duas realidades graves coexistem.
De um lado, judeus fora de Israel passaram a enfrentar aumento documentado de ameaças e ataques após 7 de outubro. Ninguém em Berlim, Paris, Londres, Nova York ou São Paulo pode ser responsabilizado pelas decisões tomadas pelo gabinete israelense simplesmente por ser judeu.
De outro, a conduta do próprio Estado israelense em Gaza tornou-se objeto de acusações extremamente graves por juristas, organismos internacionais e organizações de direitos humanos. Em julho de 2025, a organização israelense B’Tselem publicou o relatório Our Genocide, no qual concluiu que Israel estaria cometendo genocídio contra os palestinos de Gaza. Essa é a conclusão jurídica e política da organização — sua existência demonstra que críticas severas a Israel também partem da própria sociedade israelense.
Essa distinção importa. Se uma organização israelense formada por judeus e palestinos pode acusar o próprio governo de crimes internacionais, é logicamente impossível presumir que a gravidade de uma crítica, sozinha, determine se ela é antissemita.
O critério precisa estar em como os judeus são representados, quais generalizações são feitas e quais direitos são negados — não simplesmente em quanto a crítica incomoda um governo.
Francesca Albanese e os limites entre crítica, responsabilização e silenciamento
A controvérsia em torno da relatora especial das Nações Unidas para os Territórios Palestinos Ocupados, Francesca Albanese, mostra como esse debate se tornou politicamente explosivo.
Albanese tornou-se uma das críticas mais duras da atuação israelense em Gaza e defendeu a conclusão de que haveria fundamentos para caracterizar genocídio. Suas posições e algumas de suas formulações também foram fortemente contestadas por Israel, Estados Unidos e organizações judaicas.
Em julho de 2025, os Estados Unidos impuseram sanções contra ela. O alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu que fossem imediatamente revertidas.
A injustiça contra palestinos não torna judeus responsáveis
Há uma fronteira que deveria ser particularmente simples.
Se uma sinagoga na Alemanha é atacada porque o exército israelense bombardeou Gaza, isso é antissemitismo.
Se um estudante judeu é obrigado a explicar ou condenar as decisões de Benjamin Netanyahu apenas para poder participar de um espaço político, isso é responsabilização coletiva.
Um palestino que denuncia a morte de sua família não está automaticamente praticando antissemitismo.
Uma organização que documenta assentamentos na Cisjordânia não está atacando judeus enquanto judeus.
Uma manifestação que pede cessar-fogo, sanções, reconhecimento da Palestina ou responsabilização por possíveis crimes internacionais não se torna antissemita apenas porque Israel é o Estado criticado.
A Jerusalem Declaration foi criada em grande medida para tornar essa fronteira mais inteligível. A própria IHRA, frequentemente apresentada como mais abrangente, também afirma expressamente que crítica a Israel comparável à dirigida a outros Estados não constitui antissemitismo.
Judeus também discordam entre si
Outro erro frequente é falar dos “judeus” como se constituíssem um ator político único.
Comunidades judaicas incluem religiosos e seculares, conservadores e progressistas, sionistas de diferentes correntes, antissionistas e pessoas para quem Israel ocupa pouco ou muito espaço em sua identidade.
Existem judeus que apoiam o governo israelense, judeus que participam de manifestações contra ele e judeus que rejeitam toda tentativa de transformar sua identidade religiosa ou cultural numa posição obrigatória sobre o Oriente Médio.
Associar automaticamente judaísmo a uma decisão do Estado de Israel reproduz, portanto, exatamente a lógica coletivizante que o combate ao antissemitismo deveria rejeitar.
O mesmo vale para israelenses: Estado, governo e população não são sinônimos. Um governo eleito pode ser criticado por seus próprios cidadãos, substituído em eleições e responsabilizado judicialmente.
Precisão não relativiza o antissemitismo — fortalece o conceito
Existe uma tentação, em períodos de polarização, de ampliar conceitos até que abarquem tudo aquilo de que um campo político discorda.
Isso pode ser contraprodutivo. Se “antissemitismo” passar a significar qualquer crítica severa a Israel, o termo perde capacidade de distinguir um debate político de uma ameaça contra judeus. E quando um conceito perde precisão, pessoas que realmente sofrem preconceito podem acabar pagando o preço.
O inverso também é verdadeiro. Usar a causa palestina para relativizar conspirações sobre judeus, negar o Holocausto, atacar sinagogas ou responsabilizar coletivamente pessoas judaicas transforma solidariedade a palestinos em justificativa para outro preconceito.
É possível condenar os massacres de 7 de outubro, combater o antissemitismo, proteger sinagogas e pessoas judias — e, ao mesmo tempo, defender direitos palestinos, investigar crimes cometidos em Gaza e criticar um governo israelense.
Na realidade, uma perspectiva coerente de direitos humanos exige exatamente isso.
Judaísmo é uma religião e uma tradição plural. Judeus são pessoas e comunidades diversas. Israel é um Estado. O governo israelense é uma autoridade política. E palestinos são um povo com os mesmos direitos humanos fundamentais.
Manter essas categorias separadas não é um exercício acadêmico. É uma das formas mais importantes de impedir que críticas a um governo sejam transformadas em ódio contra um povo — e que o combate legítimo ao ódio seja transformado em instrumento para impedir críticas a um governo.
Referências
AMADEU ANTONIO STIFTUNG. Die Bildungs- und Aktionswochen gegen Antisemitismus 2026. Berlim, 2026. Disponível em:
https://www.amadeu-antonio-stiftung.de/antisemitismus/bildungs-und-aktionswochen-gegen-antisemitismus-2026/
Acesso em: 15 ago. 2026.
AMADEU ANTONIO STIFTUNG. Bildungs- und Aktionswochen gegen Antisemitismus. Berlim. Disponível em:
https://www.amadeu-antonio-stiftung.de/projekte/aktionswochen-gegen-antisemitismus/
Acesso em: 15 ago. 2026.
B’TSELEM. Our Genocide. Jerusalém, jul. 2025. Disponível em:
https://www.btselem.org/publications/202507_our_genocide
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https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/0031322032000087973
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https://www.ohchr.org/en/press-releases/2025/07/comment-un-high-commissioner-human-rights-volker-turk-us-sanctions-against
Acesso em: 15 ago. 2026.






















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