Dia Internacional para a Eliminação Total das Armas Nucleares — Segurança baseada na ameaça de destruição

Dia Internacional para a Eliminação Total das Armas Nucleares — Segurança baseada na ameaça de destruição Mais de oito décadas depois de Hiroshima e Nagasaki, as armas nucleares continuam ocupando um lugar central nas estratégias de segurança das grandes potências. Seus defensores argumentam que elas impedem guerras ao tornar o custo de uma agressão intolerável. […]

Por Tatiana Mendonça — Munique, Alemanha

26 de setembro de 2026 às 01:01h

A large cloud of smoke is billowing out of the sky

Dia Internacional para a Eliminação Total das Armas Nucleares — Segurança baseada na ameaça de destruição

Mais de oito décadas depois de Hiroshima e Nagasaki, as armas nucleares continuam ocupando um lugar central nas estratégias de segurança das grandes potências. Seus defensores argumentam que elas impedem guerras ao tornar o custo de uma agressão intolerável. Seus críticos apontam a contradição fundamental desse raciocínio: preservar a paz por meio da capacidade permanente de destruir cidades, populações e, em determinadas circunstâncias, ameaçar a própria sobrevivência humana. A guerra entre Israel e Irã em 2025 — seguida da participação militar direta dos Estados Unidos contra instalações nucleares iranianas — mostrou como essa desigualdade nuclear continua moldando a política internacional.

Nove países concentram o poder nuclear

Atualmente, nove Estados são considerados possuidores de armas nucleares: Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel.

Segundo o SIPRI Yearbook 2026, esses países possuíam, em janeiro de 2026, aproximadamente 12.187 ogivas nucleares. Cerca de 9.745 estavam em estoques militares potencialmente disponíveis para utilização, e aproximadamente 4.012 encontravam-se implantadas em mísseis ou aeronaves. Estados Unidos e Rússia continuavam concentrando juntos aproximadamente 83% das ogivas armazenadas operacionalmente.

Há, entretanto, diferenças jurídicas importantes entre esses nove países.

O Tratado sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) reconhece como Estados possuidores de armas nucleares apenas aqueles que haviam fabricado ou testado um dispositivo nuclear antes de 1º de janeiro de 1967: Estados Unidos, União Soviética — hoje Rússia —, Reino Unido, França e China.

Índia, Paquistão e Israel desenvolveram seus arsenais fora do tratado. A Coreia do Norte aderiu ao TNP em 1985, mas anunciou sua retirada em 2003 e posteriormente realizou testes nucleares.

Essa estrutura criou uma desigualdade que acompanha o regime de não proliferação desde sua origem: alguns Estados podem manter arsenais enquanto a grande maioria assume a obrigação de nunca adquiri-los.

Estados Unidos: a maior potência nuclear ao lado da Rússia

Os Estados Unidos não apenas possuem armas nucleares como mantêm uma das duas maiores forças nucleares do planeta. Washington continua investindo na modernização de ogivas, mísseis balísticos intercontinentais, submarinos nucleares e bombardeiros estratégicos.

Estados Unidos e Rússia concentram a grande maioria das armas nucleares existentes. O SIPRI observa também que ambos continuam programas extensos de modernização e que a tendência de redução global dos arsenais registrada desde o final da Guerra Fria pode estar se revertendo.

Esse processo ocorre justamente quando mecanismos de controle de armamentos estão enfraquecidos e quando algumas lideranças políticas voltam a apresentar armas nucleares como garantias indispensáveis de sobrevivência nacional.

O problema é que a lógica funciona em duas direções: se possuir uma arma nuclear protege um Estado de ataques externos, outros governos podem concluir que também necessitam dessas armas.

É nesse ponto que a dissuasão pode produzir o efeito oposto àquele que promete evitar.

Israel e a política da “ambiguidade nuclear”

O caso israelense é particularmente relevante para compreender as tensões do regime nuclear internacional.

Israel nunca confirmou oficialmente possuir armas nucleares, mas também nunca negou explicitamente. Essa posição é tradicionalmente chamada de política de ambiguidade ou opacidade nuclear.

O país não é parte do Tratado de Não Proliferação Nuclear. Organizações especializadas como o SIPRI o classificam, entretanto, entre os nove Estados nuclearmente armados. O instituto estima há anos que Israel dispõe de dezenas de ogivas e mantém capacidades de lançamento por diferentes plataformas.

Em 2026, o SIPRI continuava incluindo Israel explicitamente entre os nove Estados nuclearmente armados do mundo.

A diferença em relação ao Irã é fundamental.

O Irã não é classificado como Estado possuidor de armas nucleares. É parte do TNP e, portanto, assumiu juridicamente a obrigação de não desenvolver ou adquirir armas nucleares.

Ao mesmo tempo, seu programa nuclear tornou-se um dos principais focos de preocupação internacional devido ao enriquecimento de urânio em níveis muito superiores aos normalmente necessários para produção comercial de energia e às dificuldades da Agência Internacional de Energia Atômica — AIEA — para verificar integralmente determinadas atividades.

Antes da guerra de junho de 2025, a AIEA havia verificado mais de 400 quilos de urânio altamente enriquecido no país. Posteriormente, a Agência afirmou que permaneciam questões não resolvidas relacionadas a material e atividades nucleares não declaradas e que, sem cooperação adicional do governo iraniano, não poderia garantir que o programa fosse exclusivamente pacífico.

Isso, porém, não equivale a afirmar que o Irã possuía uma arma nuclear.

A guerra Israel–Irã e a assimetria nuclear

A guerra de junho de 2025 transformou essa discussão teórica em um exemplo concreto da relação entre armas nucleares, segurança e desigualdade internacional.

Em 13 de junho de 2025, Israel iniciou uma operação militar contra o Irã que incluiu ataques a instalações nucleares iranianas. A Agência Internacional de Energia Atômica confirmou ataques, entre outros locais, à instalação de enriquecimento de Natanz.

Os ataques e contra-ataques prosseguiram durante vários dias.

Em 22 de junho, os Estados Unidos entraram diretamente na operação militar e bombardearam três instalações nucleares iranianas: Fordow, Natanz e Esfahan. A AIEA confirmou os ataques e registrou danos significativos.

O episódio produziu uma situação politicamente singular: dois países considerados nuclearmente armados — Estados Unidos e Israel — atacaram instalações nucleares de um Estado que não é considerado possuidor de armas nucleares e que permanece formalmente submetido ao regime de salvaguardas do TNP.

A questão não elimina as controvérsias em torno do programa nuclear iraniano. Em junho de 2025, o Conselho de Governadores da AIEA havia considerado que o Irã não estava cumprindo plenamente determinadas obrigações de salvaguardas. Posteriormente, a Agência afirmou que não podia assegurar o caráter exclusivamente pacífico do programa enquanto questões pendentes não fossem resolvidas.

Mas o episódio expôs outro problema: como convencer Estados a permanecerem não nucleares se observarem que países dotados de armas nucleares possuem maior capacidade de dissuadir ataques externos?

Essa pergunta está no centro do debate contemporâneo sobre proliferação.

Atacar instalações nucleares também cria novos riscos

Existe ainda uma dimensão frequentemente esquecida.

Instalações nucleares não precisam conter bombas para representarem enorme risco durante uma guerra. Ataques contra reatores, instalações de enriquecimento ou locais onde materiais radioativos estão armazenados podem provocar contaminação, comprometer sistemas de segurança e dificultar o trabalho dos inspetores internacionais.

Durante os ataques de junho de 2025, o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, reiterou que instalações nucleares não deveriam ser atacadas devido aos potenciais impactos sobre populações e meio ambiente.

A Agência recordou resoluções segundo as quais ataques contra instalações nucleares dedicadas a fins pacíficos entram em conflito com princípios da Carta das Nações Unidas, do Direito Internacional e do próprio Estatuto da AIEA.

Além do risco físico imediato, existe uma consequência política.

Depois dos ataques de 2025, as atividades de verificação da AIEA no Irã foram severamente prejudicadas. O governo iraniano suspendeu parte da cooperação com a Agência, e o acesso dos inspetores tornou-se mais difícil.

Assim surge outro paradoxo: uma operação militar destinada oficialmente a impedir a proliferação pode, ao mesmo tempo, reduzir a capacidade internacional de verificar o programa que pretende controlar.

Do TNP ao Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares

O sistema internacional tentou enfrentar essa contradição por dois caminhos diferentes.

O primeiro é o Tratado de Não Proliferação Nuclear, em vigor desde 1970.

O acordo criou três grandes compromissos: impedir a disseminação de armas nucleares, garantir o direito ao uso pacífico da tecnologia nuclear e promover negociações em direção ao desarmamento.

O problema está justamente nesse último elemento.

Mais de meio século depois, armas nucleares continuam fazendo parte central das doutrinas militares dos Estados que as possuem. Em vez de desaparecerem, vários arsenais estão sendo modernizados.

O segundo caminho surgiu com o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPAN), que entrou em vigor em 2021.

Para seus Estados-partes, o tratado proíbe desenvolver, testar, produzir, adquirir, possuir, armazenar, utilizar ou ameaçar utilizar armas nucleares.

Nenhum dos nove Estados nuclearmente armados aderiu ao tratado.

Esse fato ilustra o principal limite do instrumento: ele estabelece uma norma jurídica clara contra armas nucleares, mas os Estados cuja participação seria decisiva permanecem fora dele.

Dissuasão ou privilégio?

Os defensores da dissuasão nuclear argumentam que a existência desses arsenais pode impedir guerras entre grandes potências porque nenhum governo racional aceitaria correr o risco de destruição nuclear.

A lógica da destruição mútua assegurada teve influência profunda durante a Guerra Fria e continua presente nas estratégias militares contemporâneas.

Mas o sistema também produz uma hierarquia evidente.

Alguns países afirmam que suas próprias armas nucleares são necessárias para sua segurança enquanto exigem que outros permaneçam permanentemente sem elas.

O Oriente Médio exemplifica essa contradição de maneira particularmente clara.

Israel é considerado um Estado nuclearmente armado, permanece fora do TNP e mantém seu arsenal sob uma política de ambiguidade. O Irã é parte do TNP, não é considerado possuidor de armas nucleares e tem suas instalações declaradas sujeitas a salvaguardas internacionais — ainda que tenha acumulado importantes problemas de cumprimento e transparência junto à AIEA.

Quando instalações iranianas foram atacadas em 2025 por Israel e posteriormente pelos Estados Unidos, esse desequilíbrio tornou-se ainda mais visível.

A discussão, portanto, vai além de perguntar se determinado governo deve ou não possuir uma bomba.

A questão estrutural é outra: é possível manter indefinidamente um sistema internacional no qual alguns Estados apresentam armas nucleares como indispensáveis à própria sobrevivência enquanto tentam convencer todos os demais de que sua segurança será maior sem elas?

O Dia Internacional para a Eliminação Total das Armas Nucleares, celebrado em 26 de setembro, existe precisamente para recolocar essa contradição no centro do debate internacional.

Enquanto a segurança continuar sendo associada à capacidade de causar destruição em escala incomparável, o desarmamento permanecerá não apenas uma questão técnica ou jurídica, mas sobretudo um problema de poder e confiança entre Estados.

 

Referências

Nações Unidas — International Day for the Total Elimination of Nuclear Weapons
https://www.un.org/en/observances/nuclear-weapons-elimination-day

Nações Unidas — Treaty on the Non-Proliferation of Nuclear Weapons (NPT)
https://www.un.org/disarmament/wmd/nuclear/npt/

UNODA — Treaty on the Prohibition of Nuclear Weapons
https://disarmament.unoda.org/wmd/nuclear/tpnw/

SIPRI — SIPRI Yearbook 2026 / World Nuclear Forces
https://www.sipri.org/yearbook/2026

SIPRI — Increasing focus on nuclear weapons amid heightened escalation risks, 8 June 2026
https://www.sipri.org/media/press-release/2026/increasing-focus-nuclear-weapons-amid-heightened-escalation-risks-new-sipri-yearbook-out-now

SIPRI — Israel: World Nuclear Forces
https://www.sipri.org/research/armaments-and-disarmament/nuclear-weapons/world-nuclear-forces/israel

AIEA — Statement on the Situation in Iran, 13 June 2025
https://www.iaea.org/newscenter/statements/statement-on-the-situation-in-iran-13-june-2025

AIEA — Update on Developments in Iran, 22 June 2025
https://www.iaea.org/newscenter/pressreleases/update-on-developments-in-iran-5

AIEA — NPT Safeguards Agreement with the Islamic Republic of Iran, novembro de 2025
https://www.iaea.org/sites/default/files/gov2025-65.pdf

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