A intensificação das sanções norte-americanas contra o Irã, o impasse político em Gaza, a crescente tensão entre Israel e Turquia na Síria e a escalada de ataques contra infraestrutura econômica na guerra entre Rússia e Ucrânia revelam um cenário internacional em que a diplomacia continua ativa, mas disputa espaço com coerção, pressões econômicas e força militar. Entre negociações que avançam lentamente e governos que ainda acreditam poder melhorar sua posição antes de fazer concessões, cresce também o desafio para potências médias como o Brasil: preservar autonomia estratégica e defender o multilateralismo em uma ordem internacional cada vez mais fragmentada.
Irã e Estados Unidos: a diplomacia continua, mas sob coerção
A relação entre Estados Unidos e Irã voltou a combinar sanções, ameaças e negociações indiretas.
Washington prepara uma nova ofensiva econômica contra Teerã. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou que o governo pretende aplicar medidas ainda mais severas contra o país. A estratégia busca aumentar a pressão sobre a economia iraniana e também atingir parceiros comerciais que ajudam Teerã a contornar as restrições. O Irã considera as medidas ilegítimas e acusa Washington de utilizar coerção econômica extraterritorial.
Scott Bessent, secretário do Tesouro dos Estados Unidos:
“The toughest sanctions in history.”
Em português: “As sanções mais duras da história.”
O conflito tem uma dimensão que ultrapassa amplamente a relação bilateral: o Estreito de Hormuz. Antes da atual crise, aproximadamente um quinto dos fluxos mundiais de petróleo e gás natural liquefeito passava pela região. O tráfego marítimo caiu drasticamente após ataques contra embarcações e restrições iranianas à navegação.
O Iraque, altamente dependente da exportação de petróleo, precisou negociar diretamente com Teerã para obter permissão para que alguns de seus navios atravessassem o estreito.
Isso demonstra uma característica clássica das Relações Internacionais: Estados militarmente inferiores podem possuir instrumentos capazes de produzir custos significativos para potências mais fortes quando controlam recursos, rotas comerciais ou pontos geográficos estratégicos.
A Turquia também tenta ocupar espaço diplomático. O presidente Recep Tayyip Erdoğan pediu a Donald Trump que priorizasse negociações com Teerã e ofereceu apoio turco a uma saída diplomática.
A questão central não é apenas se Washington e Teerã estão dispostos a conversar. É saber quando os dois lados passarão a considerar um acordo mais vantajoso do que a continuação da pressão.
Gaza: negociação existe, mas a ordem das concessões bloqueia o acordo
Em Gaza, há vários mediadores, mas permanece uma divergência fundamental entre Israel e Hamas sobre quem deve agir primeiro.
O plano atualmente discutido prevê o desarmamento do Hamas, retirada progressiva das forças israelenses, reconstrução de Gaza e transferência da administração para uma estrutura palestina que não seja controlada pelo grupo.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, mantém a posição de que Israel não fará uma retirada significativa enquanto o Hamas não estiver completamente desarmado.
Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel:
“Israel does not accept the 15-point document.”
Em português: “Israel não aceita o documento de 15 pontos.”
Netanyahu acrescentou que não deveria haver retirada antes de um desarmamento completo, incluindo armas pesadas e leves.
O Hamas, por outro lado, afirma aceitar uma rota de desmilitarização, mas condiciona sua implementação ao fim dos ataques israelenses e à retirada das forças de Israel.
O impasse é, portanto, também um problema de sequenciamento: Israel quer desarmamento antes da retirada; o Hamas quer garantias de retirada e cessação dos ataques antes de concluir o desarmamento.
Essa diferença ajuda a explicar por que um cessar-fogo não equivale automaticamente a um processo de paz.
O documento United Nations Guidance for Effective Mediation, elaborado pelas Nações Unidas, identifica consentimento, imparcialidade, inclusão, respeito ao direito internacional, coordenação entre mediadores e qualidade dos acordos como elementos fundamentais para uma mediação eficaz.
Mas um mediador pode propor compromissos sem possuir capacidade suficiente para obrigar as partes a executá-los.
Ben-Gvir e a radicalização do debate político israelense
As negociações sobre Gaza também enfrentam pressões vindas da própria política doméstica israelense.
O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, líder do partido de extrema direita Otzma Yehudit, criticou a redução dos ataques israelenses em Gaza e defendeu uma política muito mais agressiva.
Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel:
“Taking down 30 to 40 every night.”
Em português: “Eliminar de 30 a 40 todas as noites.”
Ben-Gvir acrescentou:
Itamar Ben-Gvir:
“They’re not even people.”
Em português: “Eles nem sequer são pessoas.”
As declarações foram feitas durante uma conversa com o ex-refém Rom Braslavski. Ben-Gvir também voltou a defender a saída de palestinos de Gaza e o reassentamento israelense do território.
É importante diferenciar sua posição da política institucional como um todo. Ben-Gvir é ministro e integra uma coalizão de governo, mas não comanda as Forças Armadas israelenses e não possui autoridade para ordenar ataques militares em Gaza. Suas posições também não representam toda a sociedade israelense.
Ao mesmo tempo, não podem ser tratadas como irrelevantes. Como ministro da Segurança Nacional, Ben-Gvir exerce influência sobre a polícia e o sistema penitenciário e participa de uma coalizão cuja sobrevivência política afeta diretamente as decisões de Netanyahu.
Sob o Direito Internacional Humanitário, declarações que tratem uma população inteira como alvo legítimo merecem atenção particular. O princípio da distinção exige que combatentes e civis sejam diferenciados; a condição de pertencer a determinado povo, território ou grupo político não transforma automaticamente uma pessoa em alvo militar.
Israel e Turquia: a Síria abre uma nova frente de disputa
A relação entre Israel e Turquia também se deteriorou.
Israel atacou a base aérea síria de Abu al-Duhur, afirmando possuir informações de que forças turcas poderiam ser instaladas no local. A Turquia negou que estivesse preparando esse tipo de deslocamento militar e afirmou que sua cooperação com Damasco estava limitada principalmente a treinamento e intercâmbio de experiência.
O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, acusou Ancara de ampliar perigosamente sua presença regional.
Israel Katz, ministro da Defesa de Israel:
“Dangerous adventures in Syria.”
Em português: “Aventuras perigosas na Síria.”
O governo turco respondeu acusando Israel de realizar ataques “reckless” — “imprudentes” — e de violar a soberania territorial síria.
Aqui existem duas narrativas distintas.
Israel argumenta que uma presença militar turca próxima de áreas consideradas sensíveis pode alterar sua segurança estratégica. A Turquia afirma que Israel não possui direito de atacar território sírio com base em uma possível presença futura de forças turcas.
A Síria, por sua vez, negou que houvesse acordo para instalar uma base turca permanente.
Os Estados Unidos tentaram evitar uma escalada. O enviado especial norte-americano para a Síria, Tom Barrack, classificou o ataque israelense como:
Tom Barrack, enviado especial dos Estados Unidos para a Síria:
“An unnecessary escalation.”
Em português: “Uma escalada desnecessária.”
Washington agora tenta criar um mecanismo de comunicação entre Israel, Turquia e Síria para evitar confrontos provocados por erros de cálculo.
O episódio é especialmente relevante porque a Turquia é membro da OTAN e uma potência militar regional. Uma escalada direta com Israel colocaria Washington diante de interesses de segurança conflitantes entre dois de seus principais parceiros na região.
Ucrânia e Rússia: infraestrutura econômica torna-se alvo estratégico
Na guerra entre Rússia e Ucrânia, o combate está cada vez mais voltado para a capacidade econômica do adversário.
A Ucrânia ampliou ataques com drones contra refinarias, depósitos e instalações logísticas russas. Kyiv afirma que esses alvos sustentam financeiramente e materialmente o esforço de guerra de Moscou.
A Rússia respondeu com ataques contra infraestrutura econômica ucraniana, incluindo instalações ligadas à exportação de grãos pelo Mar Negro.
O presidente russo Vladimir Putin respondeu às operações ucranianas com uma advertência.
Vladimir Putin, presidente da Federação Russa:
“It opened this Pandora’s box itself.”
Em português: “Ela própria abriu essa caixa de Pandora.”
Putin afirmou ainda que Moscou pretende responder contra setores considerados particularmente sensíveis da economia ucraniana.
A Rússia sustenta que pode compensar eventuais perdas de exportações agrícolas ucranianas e evitar escassez internacional de alimentos. Kyiv, entretanto, afirma que os ataques russos procuram destruir sua capacidade econômica e prejudicar uma das principais fontes de receita do país.
A dimensão internacional é evidente. Ataques contra portos e exportação de cereais podem atingir países que não participam diretamente da guerra, sobretudo economias importadoras da África e do Oriente Médio.
A guerra entre Rússia e Ucrânia é, portanto, simultaneamente uma guerra territorial, econômica, energética e alimentar.
Quando os adversários realmente ficam dispostos a negociar?
O cientista político I. William Zartman, professor da Johns Hopkins University e importante pesquisador de negociação internacional, desenvolveu uma abordagem útil para interpretar situações desse tipo.
Seu conceito de “mutually hurting stalemate”, ou “impasse mutuamente doloroso”, descreve uma situação em que os adversários concluem que não conseguem vencer a um custo aceitável e que continuar o confronto será cada vez mais prejudicial.
Zartman escreve que um:
I. William Zartman, Johns Hopkins University:
“mutually hurting stalemate is a necessary but insufficient condition.”
Em português: “um impasse mutuamente doloroso é uma condição necessária, mas insuficiente.”
O pesquisador ressalta que o fator determinante é a percepção das partes.
Uma guerra pode ser objetivamente devastadora e continuar porque os dirigentes ainda acreditam que mais algumas semanas ou meses de pressão poderão melhorar suas condições.
Esse princípio ajuda a compreender tanto Ucrânia quanto Gaza e Irã.
Em todos esses casos, a diplomacia existe. O problema é que pelo menos alguns dos atores ainda consideram a coerção uma alternativa potencialmente mais vantajosa.
Brasil: autonomia estratégica entre Washington, Pequim e o Sul Global
Para o Brasil, essas crises não são distantes.
O governo brasileiro mantém uma tradição diplomática baseada em solução pacífica de controvérsias, multilateralismo e busca por autonomia nas relações com as grandes potências.
Na questão palestina, o Brasil reconhece oficialmente o Estado da Palestina desde 2010 e mantém apoio à solução de dois Estados: Israel e Palestina coexistindo em paz e segurança, com um Estado palestino independente e viável nas fronteiras de 1967 e Jerusalém Oriental como sua capital.
Ao mesmo tempo, documentos oficiais brasileiros também defendem a libertação de reféns israelenses e a cessação permanente das hostilidades.
A posição brasileira apresenta, portanto, críticas especialmente fortes à ocupação e às operações israelenses contra palestinos, mas não implica apoio às ações armadas do Hamas.
Em março de 2026, Brasil, Colômbia e México reiteraram que disputas entre Estados devem ser resolvidas pela diplomacia e pediram cessar-fogo imediato no Oriente Médio para permitir negociação política.
A autonomia brasileira também aparece em outra área fundamental da competição internacional: tecnologia.
O governo anunciou aproximadamente R$ 2,3 bilhões para ampliar a infraestrutura nacional de inteligência artificial. Parte dos projetos envolve empresas chinesas, como Huawei e iFlytek; outra parte deverá utilizar tecnologia da norte-americana Nvidia. O objetivo declarado é evitar dependência excessiva de uma única potência tecnológica.
Simultaneamente, Brasília enfrenta uma disputa comercial com Washington. Lula e Donald Trump conversaram diretamente sobre tarifas de 25% impostas pelos Estados Unidos a determinadas importações brasileiras, e os dois governos decidiram continuar negociando.
A política externa brasileira encontra-se, assim, diante de um dilema típico das potências médias: cooperar com Estados Unidos, China, União Europeia, BRICS e outros países do Sul Global sem transformar relações estratégicas em alinhamento automático.
Conclusão
Os conflitos atuais mostram que a crise da diplomacia internacional não está necessariamente na ausência de negociação, mas na dificuldade de transformar negociação em limite efetivo ao uso da força. Israel pode reivindicar preocupações legítimas de segurança, assim como civis israelenses têm direito à proteção contra ataques e sequestros; isso não elimina as obrigações de distinguir civis de combatentes, evitar punições coletivas e respeitar as regras da ocupação e da guerra. Da mesma forma, violações cometidas pelo Hamas não anulam os direitos da população palestina, assim como a invasão russa da Ucrânia não torna irrelevante a proteção de civis russos ou as regras aplicáveis às operações ucranianas. Na tensão entre Israel e Turquia, preocupações estratégicas também não substituem a necessidade de respeitar a soberania territorial síria e evitar escaladas preventivas sem base jurídica suficiente. À luz da Carta das Nações Unidas, do Direito Internacional Humanitário e dos Direitos Humanos, segurança não pode significar autorização ilimitada para a força. É nesse ponto que uma perspectiva progressista e baseada em direitos se diferencia de um simples alinhamento político: o padrão jurídico deve valer para aliados e adversários, para Estados poderosos e grupos armados, e sobretudo para as populações civis que continuam pagando o maior preço pela incapacidade dos governos de transformar diplomacia em paz.
Referências
ZARTMAN, I. William. Mediation: Ripeness and its Challenges in the Middle East. International Negotiation, v. 20, n. 3, 2015.
Artigo acadêmico — Brill
UNITED NATIONS. United Nations Guidance for Effective Mediation. New York, 2012.
Documento das Nações Unidas
ASSOCIATED PRESS. Israel’s Ben-Gvir advocates killing “30 to 40” people in Gaza nightly while speaking to ex-hostage. 16 ago. 2026.
Associated Press — Ben-Gvir e Gaza
REUTERS. Iran condemns US plans to announce new sanctions. 22 ago. 2026.
Reuters — Estados Unidos e Irã
REUTERS. Putin says Ukraine opened “Pandora’s box” with strikes on economic targets. 22 ago. 2026.
Reuters — Rússia e Ucrânia
REUTERS. Israel and Turkey step up warnings over Syria after airbase bombing. 20 ago. 2026.
Reuters — Israel, Turquia e Síria
REUTERS. Brazil launches AI supercomputer push, splits projects between Chinese, US firms. 20 ago. 2026.
Reuters — Brasil, China e Estados Unidos
BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Anúncio do reconhecimento pela França do Estado da Palestina.
Itamaraty — posição brasileira sobre Palestina











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