Teoria crítica, Estado, guerra e democracia hoje

Conceitos como "razão instrumental" e "crise de legitimação", cunhados pela Escola de Frankfurt há décadas, continuam centrais para analisar guerras contemporâneas, o retrocesso democrático e a fragmentação da esfera pública nas redes sociais.

Por Tatiana Mendonça — Munique, Alemanha

15 de setembro de 2026 às 08:56h

A Escola de Frankfurt, tradição de pensamento crítico fundada no Instituto de Pesquisa Social da Alemanha nos anos 1920, nunca pretendeu ser apenas um exercício filosófico abstrato — seus fundadores, exilados pelo nazismo, buscavam entender como sociedades supostamente civilizadas haviam se tornado capazes de produzir totalitarismo e genocídio industrializado. Um século depois, boa parte do vocabulário conceitual que essa tradição criou continua central para analisar a relação entre Estado, guerra e democracia em um mundo que enfrenta seus próprios sinais de erosão democrática.

O conceito de razão instrumental e a guerra contemporânea

Um dos legados mais duradouros da primeira geração frankfurtiana, especialmente de Theodor Adorno e Max Horkheimer, é a crítica à “razão instrumental” — a lógica que reduz toda ação humana ao cálculo eficiente de meios para atingir fins, sem questionar a legitimidade moral desses fins. Aplicado à guerra contemporânea, esse conceito ajuda a explicar como conflitos armados modernos passam a ser conduzidos e justificados publicamente por métricas técnicas — precisão de mísseis, taxas de baixas “aceitáveis”, eficiência logística — que deslocam o debate moral sobre a legitimidade da própria guerra para um debate meramente técnico sobre sua execução mais ou menos eficiente.

A guerra na Ucrânia e o conflito em Gaza, por exemplo, são frequentemente discutidos publicamente em termos de “capacidade militar”, “cadeias de suprimento de armamento” e “eficácia de sistemas de defesa” — enquadramento que, segundo a crítica frankfurtiana, tende a naturalizar a violência organizada como problema técnico-administrativo, obscurecendo questões mais fundamentais sobre justiça, responsabilidade e sofrimento humano.

Legitimação e crise do Estado democrático

Jürgen Habermas, expoente da segunda geração da escola, desenvolveu extensamente o conceito de “crise de legitimação” — a ideia de que Estados capitalistas democráticos enfrentam tensão estrutural permanente entre as exigências de acumulação econômica e as exigências de legitimação democrática perante os cidadãos. Quando um governo prioriza sistematicamente interesses econômicos concentrados em detrimento de demandas populares amplas, a legitimidade do próprio sistema democrático é corroída, mesmo que suas instituições formais — eleições, parlamentos, tribunais — permaneçam tecnicamente intactas.

Esse diagnóstico ressoa diretamente com o debate contemporâneo sobre “retrocesso democrático”: cientistas políticos como Steven Levitsky e Daniel Ziblatt documentam como líderes eleitos democraticamente corroem gradualmente normas institucionais sem realizar golpes formais — processo que a teoria crítica frankfurtiana ajudaria a explicar não apenas como manobra política individual, mas como sintoma de uma crise mais profunda de legitimação do capitalismo democrático liberal diante de desigualdade crescente e estagnação econômica para amplas parcelas da população.

A esfera pública e a fragmentação digital

O conceito habermasiano de “esfera pública” — o espaço social onde cidadãos livres debatem racionalmente assuntos de interesse comum, formando opinião pública informada — tornou-se referência obrigatória para analisar os efeitos das redes sociais sobre a democracia contemporânea. Pesquisadores contemporâneos argumentam que algoritmos de recomendação, ao priorizar engajamento emocional sobre deliberação racional, fragmentam a esfera pública em câmaras de eco isoladas, minando precisamente a capacidade de debate público compartilhado que Habermas considerava pré-condição para legitimidade democrática genuína.

Um legado que segue em disputa

Nem todos os herdeiros da teoria crítica concordam sobre suas aplicações contemporâneas mais adequadas. Enquanto alguns pesquisadores aplicam esses conceitos para criticar intervenções militares ocidentais como manifestações de razão instrumental imperialista, outros os utilizam para analisar autoritarismos não ocidentais, evidenciando que a tradição frankfurtiana continua sendo terreno fértil de disputa interpretativa — talvez porque, desde sua origem, nunca pretendeu oferecer respostas definitivas, mas sim ferramentas permanentes de questionamento crítico do presente.

Referências

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

HABERMAS, Jürgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública. Rio de Janeiro: Editora Unesp, 2014.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

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