A história da diplomacia brasileira: entre prestígio e pragmatismo

Do Barão do Rio Branco ao protagonismo no BRICS, a diplomacia brasileira construiu uma tradição de pragmatismo e multilateralismo que hoje enfrenta o teste de navegar entre potências cada vez mais polarizadas.

Por Tatiana Mendonça — Munique, Alemanha

15 de setembro de 2026 às 08:55h

Poucos países construíram uma tradição diplomática tão elogiada internacionalmente quanto o Brasil, cuja política externa é frequentemente citada como modelo de profissionalismo e continuidade institucional — mesmo em meio a bruscas mudanças de governo. O Itamaraty, como é conhecido o Ministério das Relações Exteriores brasileiro, cultiva desde o século 19 uma cultura diplomática que combina prestígio simbólico com pragmatismo calculado diante das grandes potências.

O marco fundador dessa tradição remonta ao Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, que entre o fim do século 19 e o início do 20 resolveu, majoritariamente por meios pacíficos e arbitragem internacional, praticamente todas as disputas de fronteira do Brasil com seus vizinhos sul-americanos — um feito que consolidou o país como potência territorial estável sem recorrer a guerras expansionistas, em contraste com boa parte da história de conflitos territoriais na região.

Ao longo do século 20, a diplomacia brasileira desenvolveu o que analistas chamam de “autonomia pela participação”: em vez de se opor frontalmente às potências ocidentais, o Brasil buscou espaço de manobra participando ativamente das instituições multilaterais que elas próprias criaram. O país foi membro fundador da Liga das Nações e, décadas depois, da ONU, chegando a integrar o Conselho de Segurança como membro não permanente mais vezes do que qualquer outro país do mundo — argumento central da candidatura brasileira histórica a um assento permanente na reforma do órgão, ainda não concretizada.

Durante a Guerra Fria, a diplomacia brasileira oscilou entre alinhamento formal com os Estados Unidos — sobretudo durante a ditadura militar (1964-1985) — e tentativas pontuais de diversificação de parcerias, como a Política Externa Independente do início dos anos 1960, que buscou aproximação com países não alinhados e ampliação de relações comerciais além do eixo americano. Com a redemocratização, nos anos 1990 e 2000, essa vocação multilateral se aprofundou: o Brasil tornou-se protagonista de fóruns como o Mercosul, o G20 comercial e, mais tarde, o BRICS, consolidando a chamada diplomacia “Sul-Sul” — cooperação prioritária com outros países em desenvolvimento da África, Ásia e América Latina.

Sob o governo Lula, em seus diferentes mandatos, essa vocação se tornou ainda mais explícita: o Brasil buscou posicionar-se como interlocutor tanto do Norte quanto do Sul Global, mediando negociações climáticas, defendendo reforma das instituições de Bretton Woods e ampliando presença em organismos como a Organização Mundial do Comércio. Esse pragmatismo, porém, também gerou críticas de ambos os espectros políticos internos: para setores mais alinhados ao Ocidente, o Brasil peca por excessiva complacência com regimes autoritários parceiros do BRICS; para setores mais à esquerda, a diplomacia brasileira ainda seria excessivamente cautelosa em rupturas com a ordem liberal internacional.

Cientistas políticos descrevem esse padrão de comportamento como “middle power diplomacy” — a atuação de potências médias que, sem capacidade de impor sua vontade unilateralmente como as grandes potências, buscam maximizar influência através de coalizões, normas internacionais e mediação diplomática. O Brasil compartilha essa característica com países como Índia, África do Sul e Indonésia, todos atualmente parceiros no BRICS ampliado.

Em 2026, com o país buscando reforçar sua posição em meio às tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos e às tensões geopolíticas crescentes entre as grandes potências, a tradição diplomática brasileira enfrenta um novo teste: manter a histórica capacidade de trânsito entre blocos rivais em um mundo cada vez mais polarizado, onde a neutralidade estratégica se torna progressivamente mais difícil de sustentar.

Referências

WIKIPEDIA. Diplomacia do Brasil. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Diplomacia_do_Brasil. Acesso em: 14 set. 2026.

MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. História da diplomacia brasileira. Disponível em: https://www.gov.br/mre/pt-br. Acesso em: 14 set. 2026.

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