{"id":1622,"date":"2026-04-14T12:00:00","date_gmt":"2026-04-14T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/tatianamendonca.com\/?p=31"},"modified":"2026-09-15T08:56:30","modified_gmt":"2026-09-15T11:56:30","slug":"direito-a-cidade-como-conceito-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tatianamendonca.com\/temas\/migracao-sociedade\/direito-a-cidade-como-conceito-global\/","title":{"rendered":"Direito \u00e0 cidade como conceito global"},"content":{"rendered":"<?xml encoding=\"utf-8\" ?><p>O conceito de &ldquo;direito &agrave; cidade&rdquo;, cunhado pelo fil&oacute;sofo franc&ecirc;s Henri Lefebvre em 1968, nasceu como cr&iacute;tica radical &agrave; forma como o capitalismo urbano organiza o espa&ccedil;o das cidades em fun&ccedil;&atilde;o da valoriza&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria e da especula&ccedil;&atilde;o, em detrimento das necessidades cotidianas de quem efetivamente as habita. Mais de meio s&eacute;culo depois, a ideia deixou os c&iacute;rculos acad&ecirc;micos de esquerda para se tornar refer&ecirc;ncia formal em documentos de pol&iacute;tica urbana adotados por governos e organismos internacionais ao redor do mundo.<\/p>\n<p><strong>De conceito filos&oacute;fico a agenda internacional<\/strong><\/p>\n<p>Para Lefebvre, o direito &agrave; cidade n&atilde;o se resume ao acesso individual a servi&ccedil;os urbanos &mdash; moradia, transporte, saneamento &mdash;, mas envolve o direito coletivo de participar ativamente das decis&otilde;es que moldam o espa&ccedil;o urbano, contrapondo-se &agrave; l&oacute;gica de que cidades devem ser planejadas prioritariamente para maximizar valor imobili&aacute;rio e atrair investimento privado, mesmo quando isso desloca popula&ccedil;&otilde;es de baixa renda para periferias distantes dos centros de emprego e servi&ccedil;os &mdash; fen&ocirc;meno conhecido como gentrifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A trajet&oacute;ria do conceito rumo &agrave; institucionaliza&ccedil;&atilde;o internacional passou por um marco relevante em n&iacute;vel nacional: o Brasil aprovou, em 2001, o Estatuto da Cidade, considerado pioneiro mundial ao incorporar explicitamente a &ldquo;fun&ccedil;&atilde;o social da propriedade urbana&rdquo; como princ&iacute;pio jur&iacute;dico vinculante, permitindo que munic&iacute;pios usem instrumentos como IPTU progressivo e desapropria&ccedil;&atilde;o para combater a especula&ccedil;&atilde;o com terrenos ociosos em &aacute;reas urbanas centrais &mdash; modelo posteriormente estudado e replicado, com adapta&ccedil;&otilde;es, por outros pa&iacute;ses latino-americanos.<\/p>\n<p><strong>A Nova Agenda Urbana da ONU<\/strong><\/p>\n<p>Em n&iacute;vel global, o marco mais significativo veio em 2016, quando a ONU-Habitat, ag&ecirc;ncia da ONU dedicada a assentamentos humanos, adotou formalmente a Nova Agenda Urbana durante a Confer&ecirc;ncia Habitat III, em Quito, Equador &mdash; documento que incorpora explicitamente princ&iacute;pios do direito &agrave; cidade, comprometendo governos signat&aacute;rios a promover cidades mais inclusivas, seguras, resilientes e sustent&aacute;veis, com participa&ccedil;&atilde;o social ampliada nos processos de planejamento urbano. Embora sem for&ccedil;a jur&iacute;dica vinculante direta, o documento passou a orientar pol&iacute;ticas p&uacute;blicas urbanas e financiamento de organismos multilaterais como o Banco Mundial em projetos de desenvolvimento urbano ao redor do mundo.<\/p>\n<p><strong>Por que isso importa geopoliticamente<\/strong><\/p>\n<p>A relev&acirc;ncia internacional crescente do tema est&aacute; diretamente ligada a uma transforma&ccedil;&atilde;o demogr&aacute;fica hist&oacute;rica: pela primeira vez na hist&oacute;ria humana, mais da metade da popula&ccedil;&atilde;o mundial vive em &aacute;reas urbanas, propor&ccedil;&atilde;o que a ONU projeta ultrapassar dois ter&ccedil;os at&eacute; meados do s&eacute;culo. Esse processo de urbaniza&ccedil;&atilde;o acelerada &eacute; particularmente intenso em pa&iacute;ses do Sul Global &mdash; &Aacute;frica subsaariana e sul da &Aacute;sia registram as taxas mais r&aacute;pidas de crescimento urbano do planeta &mdash;, muitas vezes sem infraestrutura ou planejamento adequados para absorver esse crescimento, resultando na expans&atilde;o de assentamentos informais prec&aacute;rios em cidades como Lagos, Nair&oacute;bi, Mumbai e Karachi.<\/p>\n<p>Movimentos sociais urbanos em diferentes continentes hoje invocam explicitamente a linguagem do direito &agrave; cidade em suas mobiliza&ccedil;&otilde;es &mdash; desde protestos contra aumento de tarifas de transporte p&uacute;blico no Brasil at&eacute; movimentos por moradia acess&iacute;vel em cidades europeias e americanas atingidas por crises de especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria, evidenciando como um conceito filos&oacute;fico de 1968 se tornou vocabul&aacute;rio pol&iacute;tico compartilhado globalmente por movimentos com contextos e demandas muito distintas entre si.<\/p>\n<p><strong>Refer&ecirc;ncias<\/strong><\/p>\n<p>LEFEBVRE, Henri. O Direito &agrave; Cidade. S&atilde;o Paulo: Centauro, 2001.<\/p>\n<p>ONU-HABITAT. Nova Agenda Urbana. Quito, 2016. Dispon&iacute;vel em: https:\/\/habitat3.org\/the-new-urban-agenda\/. Acesso em: 14 set. 2026.<\/p>\n<p>BRASIL. Lei n&ordm; 10.257, de 10 de julho de 2001 (Estatuto da Cidade). Dispon&iacute;vel em: https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/leis_2001\/l10257.htm. Acesso em: 14 set. 2026.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do conceito filos\u00f3fico de Henri Lefebvre em 1968 ao Estatuto da Cidade brasileiro de 2001 e \u00e0 Nova Agenda Urbana da ONU em 2016, o &#8220;direito \u00e0 cidade&#8221; se consolidou como refer\u00eancia global de pol\u00edtica urbana em meio \u00e0 urbaniza\u00e7\u00e3o acelerada do planeta.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"give_campaign_id":0,"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"initial","rop_publish_now_accounts":{"facebook_1005035685341291_1168996842959697":""},"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","ngg_post_thumbnail":0,"wpai_generated_summary":"","_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"wpai_meta_description":"","footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[6],"tags":[1040,716,13],"class_list":["post-1622","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-migracao-sociedade","tag-direito-a-cidade","tag-global","tag-migracao","et-doesnt-have-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1622","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1622"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1622\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4951,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1622\/revisions\/4951"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1622"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1622"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1622"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}