Os dados anuais do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI), referência global em monitoramento do comércio de armamentos, funcionam como um raio-X da geopolíticaGeopolítica é o estudo das relações entre espaço, poder e estratégia na organização da política. contemporânea: para onde as armas fluem revela, com mais precisão do que discursos diplomáticos, onde estão as tensões reais do sistema internacionalSistema internacional é o conjunto de atores e relações cuja interação produz efeitos políticos além das fronteiras estatais.. Os números mais recentes, divulgados em março de 2026 e referentes ao período 2021-2025, confirmam um deslocamento histórico no centro de gravidade do comércio bélico mundial: da Ásia de volta para a Europa.
O volume total de armamentos transferidos entre países cresceu 9,2% entre os períodos 2016-2020 e 2021-2025 — o maior aumento desde o quinquênio 2011-2015. Os países europeus mais do que triplicaram suas importações de armas no período, tornando-se a região que mais recebe armamentos do mundo, com 33% de todas as importações globais. A Ucrânia isoladamente recebeu 9,7% de todas as transferências de armas do planeta nesse intervalo — tornando-se o maior importador individual do mundo, resultado direto da guerra travada contra a invasão russa desde 2022. Depois da Ucrânia, Polônia e Reino Unido foram os maiores importadores europeus, movimento explicado pela percepção crescente de ameaça russa entre os membros da OtanA Organização do Tratado do Atlântico Norte, conhecida como OTAN, é uma aliança político-militar baseada em compromissos de defesa coletiva., agravada por incertezas sobre o grau de comprometimento futuro dos Estados Unidos com a defesa de seus aliados europeus.
Do lado dos exportadores, os Estados Unidos seguem isolados na liderança, respondendo por cerca de 40% de todas as exportações globais de armas — quase o dobro do segundo colocado. As exportações americanas cresceram 27% no período, impulsionadas sobretudo por um salto de 217% nas vendas para a Europa. Para o pesquisador sênior do Programa de Transferências de Armas do SIPRI, Pieter Wezeman, essa dinâmica reflete tanto a busca de países importadores por capacidades militares avançadas quanto uma estratégia deliberada americana: usar exportações de armas como instrumento de política externaPolítica externa compreende os objetivos, decisões e instrumentos pelos quais um Estado atua nas relações internacionais. e fortalecimento da própria indústria bélica doméstica.
A França consolidou-se como segunda maior exportadora mundial, com 9,8% do total global, crescimento de 21% no período, vendendo para 63 países — com Índia, Egito e Grécia como principais destinos. Já a Alemanha registrou a ascensão mais notável entre as grandes potências: tornou-se a quarta maior exportadora mundial, ultrapassando a China, com quase um quarto de suas exportações destinadas diretamente ao apoio à Ucrânia. A Rússia, por sua vez, viu sua participação despencar nos últimos anos, reflexo direto da perda de dois de seus principais compradores históricos, Índia e Vietnã, que diversificaram fornecedores — e também da própria demanda interna de armamento gerada pela guerra na UcrâniaGuerra na Ucrânia designa o conflito associado à intervenção russa desde 2014 e à invasão em larga escala iniciada em fevereiro de 2022., que reduz o excedente disponível para exportação.
Fora do eixo europeu, um dado chama atenção para observadores latino-americanos: as importações de armas pela América do Sul cresceram 31% no período, com o Brasil respondendo por 60% de todas as importações da região — crescimento de 150% em relação ao quinquênio anterior, movimento associado à modernização das Forças Armadas brasileiras e ao reequipamento naval e aéreo do país.
Para especialistas em relações internacionais
Relações internacionais designam as interações políticas, econômicas, jurídicas e sociais que atravessam fronteiras e o campo acadêmico que as investiga. More, esses números confirmam uma tese central da literatura sobre segurança internacionalSegurança internacional é o campo dedicado às ameaças, vulnerabilidades e mecanismos de proteção que ultrapassam fronteiras.: fluxos de armamento funcionam como indicador antecipado de alianças estratégicas e percepções de ameaça, frequentemente mais reveladores do que declarações públicas de chefes de EstadoEstado é uma forma de organização política dotada de instituições que exercem autoridade sobre uma população situada em determinado território.. O salto europeu nas importações, por exemplo, documenta de forma quantitativa a reversão histórica de décadas de desmilitarização relativa do continente após o fim da Guerra Fria — uma tendência que só se acelerou com a guerra na UcrâniaGuerra na Ucrânia designa o conflito associado à intervenção russa desde 2014 e à invasão em larga escala iniciada em fevereiro de 2022. e com a crescente autonomia estratégicaAutonomia estratégica é a capacidade de formular e executar decisões relevantes sem dependência externa que inviabilize escolhas fundamentais. que a União EuropeiaA União Europeia é uma estrutura de integração regional que combina instituições supranacionais e cooperação intergovernamental. busca construir diante da imprevisibilidade da política externaPolítica externa compreende os objetivos, decisões e instrumentos pelos quais um Estado atua nas relações internacionais. americana sob o governoGoverno é o conjunto de autoridades e estruturas que dirige a ação política e administrativa de uma comunidade em determinado período. Trump.
Referências
SIPRI. Trends in International Arms Transfers 2025. Estocolmo, mar. 2026. Disponível em: https://www.sipri.org/. Acesso em: 14 set. 2026.
VATICAN NEWS. Fluxo global de armas aumentou quase 10% com disparada da demanda europeia. 9 mar. 2026. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-03/sipri-aumento-fluxo-global-armas-disparada-demanda-europeia.html. Acesso em: 14 set. 2026.
EURONEWS. Alemanha é atualmente o quarto maior exportador de armas do mundo. 10 mar. 2026. Disponível em: https://pt.euronews.com/2026/03/10/alemanha-e-atualmente-o-quarto-maior-exportador-de-armas-do-mundo. Acesso em: 14 set. 2026.









0 comentários