{"id":664,"date":"2026-04-04T13:31:40","date_gmt":"2026-04-04T16:31:40","guid":{"rendered":"https:\/\/tatianamendonca.com\/?p=664"},"modified":"2026-04-05T04:03:49","modified_gmt":"2026-04-05T07:03:49","slug":"trump-guerras-e-ameacas-a-expansao-do-uso-da-forca-na-politica-externa-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tatianamendonca.com\/uncategorized\/trump-guerras-e-ameacas-a-expansao-do-uso-da-forca-na-politica-externa-americana\/","title":{"rendered":"Trump, guerras e amea\u00e7as: a expans\u00e3o do uso da for\u00e7a na pol\u00edtica externa americana"},"content":{"rendered":"<?xml encoding=\"utf-8\" ?><h2 data-section-id=\"bxfz8r\" data-start=\"359\" data-end=\"406\"><span role=\"text\">For&ccedil;a, unilateralismo e ruptura normativa<\/span><\/h2>\n<p data-start=\"408\" data-end=\"888\">A pol&iacute;tica externa conduzida por <span class=\"hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline\"><span class=\"whitespace-normal\">Donald Trump<\/span><\/span> ao longo de seus dois mandatos representa uma inflex&atilde;o profunda na ordem internacional contempor&acirc;nea. Mais do que uma estrat&eacute;gia assertiva, trata-se de uma reconfigura&ccedil;&atilde;o do uso da for&ccedil;a que tensiona diretamente os limites estabelecidos pelo direito internacional ap&oacute;s 1945. Em vez de tratar a for&ccedil;a como exce&ccedil;&atilde;o regulada, a pr&aacute;tica observada aponta para sua normaliza&ccedil;&atilde;o como instrumento recorrente de poder.<\/p>\n<p data-start=\"890\" data-end=\"1305\">O sistema internacional moderno se ancora na <span class=\"hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline\"><span class=\"whitespace-normal\">Carta das Na&ccedil;&otilde;es Unidas<\/span><\/span>, cujo Artigo 2(4) pro&iacute;be o uso da for&ccedil;a contra outros Estados, salvo em duas hip&oacute;teses:<strong> autoriza&ccedil;&atilde;o do Conselho de Seguran&ccedil;a ou leg&iacute;tima defesa em resposta a um ataque armado<\/strong>, conforme o Artigo 51. A pol&iacute;tica externa de Trump frequentemente contorna esses limites, reinterpretando-os de forma expansiva ou simplesmente ignorando-os.<\/p>\n<p data-start=\"1307\" data-end=\"1392\">Texto completo da Carta da ONU:<br data-start=\"1338\" data-end=\"1341\"><a class=\"decorated-link\" href=\"https:\/\/www.un.org\/en\/about-us\/un-charter\/full-text?utm_source=chatgpt.com\" target=\"_new\" rel=\"noopener nofollow\" data-start=\"1341\" data-end=\"1392\">https:\/\/www.un.org\/en\/about-us\/un-charter\/full-text<\/a><\/p>\n<h2 data-section-id=\"17brhmr\" data-start=\"1399\" data-end=\"1456\"><span role=\"text\"><strong data-start=\"1402\" data-end=\"1456\">S&iacute;ria: o precedente da interven&ccedil;&atilde;o sem autoriza&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/span><\/h2>\n<p data-start=\"1458\" data-end=\"1747\">Os bombardeios norte-americanos na S&iacute;ria em 2017 e 2018 foram apresentados como resposta ao uso de armas qu&iacute;micas. Ainda que o uso dessas armas seja proibido internacionalmente, a resposta militar americana n&atilde;o teve autoriza&ccedil;&atilde;o do Conselho de Seguran&ccedil;a nem se enquadrou em leg&iacute;tima defesa.<\/p>\n<p data-start=\"1749\" data-end=\"1941\">A <span class=\"hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline\"><span class=\"whitespace-normal\">Organiza&ccedil;&atilde;o para a Proibi&ccedil;&atilde;o de Armas Qu&iacute;micas<\/span><\/span> confirmou o uso de agentes qu&iacute;micos em Douma em 2018, com dezenas de civis mortos, mas isso n&atilde;o confere automaticamente base legal para a&ccedil;&atilde;o unilateral.<\/p>\n<blockquote>\n<p data-start=\"2060\" data-end=\"2361\">A jurista <span class=\"hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline\"><span class=\"whitespace-normal\">Mary Ellen O&rsquo;Connell<\/span><\/span> argumenta que o direito internacional n&atilde;o permite o uso da for&ccedil;a como puni&ccedil;&atilde;o ou dissuas&atilde;o. Nesse sentido, a justificativa moral apresentada por Trump entra em choque com a estrutura jur&iacute;dica vigente, refor&ccedil;ando um precedente de interven&ccedil;&atilde;o sem mandato.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2 data-section-id=\"mgpd9e\" data-start=\"2368\" data-end=\"2429\"><span role=\"text\"><strong data-start=\"2371\" data-end=\"2429\">Ir&atilde;: da leg&iacute;tima defesa controversa &agrave; escalada militar<\/strong><\/span><\/h2>\n<p data-start=\"2431\" data-end=\"2706\">O assassinato do general <span class=\"hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline\"><span class=\"whitespace-normal\">Qasem Soleimani<\/span><\/span>, em 2020, foi justificado pelos Estados Unidos como leg&iacute;tima defesa preventiva. No entanto, essa interpreta&ccedil;&atilde;o &eacute; amplamente contestada, pois o direito internacional exige a exist&ecirc;ncia de amea&ccedil;a iminente concreta.<\/p>\n<blockquote>\n<p data-start=\"2708\" data-end=\"2859\">A relatora da ONU <span class=\"hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline\"><span class=\"whitespace-normal\">Agn&egrave;s Callamard<\/span><\/span> afirmou que a opera&ccedil;&atilde;o foi ilegal e violou tanto a soberania do Iraque quanto o direito &agrave; vida.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p data-start=\"2977\" data-end=\"3239\">Entre 2025 e 2026, a escalada evoluiu para ataques diretos contra o Ir&atilde;, com impactos significativos sobre civis. Tais a&ccedil;&otilde;es levantam preocupa&ccedil;&otilde;es sob as <span class=\"hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline\"><span class=\"whitespace-normal\">Conven&ccedil;&otilde;es de Genebra<\/span><\/span>, especialmente quanto aos princ&iacute;pios de distin&ccedil;&atilde;o e proporcionalidade.<\/p>\n<p data-start=\"3241\" data-end=\"3353\">Conven&ccedil;&otilde;es de Genebra (texto oficial):<br data-start=\"3279\" data-end=\"3282\"><a class=\"decorated-link cursor-pointer\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"3282\" data-end=\"3353\">https:\/\/www.icrc.org\/en\/doc\/assets\/files\/publications\/icrc-002-0173.pdf<\/a><\/p>\n<p data-start=\"3355\" data-end=\"3531\">Al&eacute;m disso, a instabilidade no Estreito de Ormuz coloca em risco a liberdade de navega&ccedil;&atilde;o e a seguran&ccedil;a energ&eacute;tica global, ampliando os efeitos do conflito para al&eacute;m da regi&atilde;o.<\/p>\n<h2 data-section-id=\"1wd82hn\" data-start=\"3538\" data-end=\"3597\"><span role=\"text\"><strong data-start=\"3541\" data-end=\"3597\">I&ecirc;men: prote&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica e viola&ccedil;&otilde;es humanit&aacute;rias<\/strong><\/span><\/h2>\n<p data-start=\"3599\" data-end=\"3886\">A interven&ccedil;&atilde;o americana no I&ecirc;men, sob o argumento de proteger rotas mar&iacute;timas, n&atilde;o elimina as obriga&ccedil;&otilde;es legais impostas pelo direito internacional humanit&aacute;rio. Ataques com alto n&uacute;mero de v&iacute;timas civis levantam d&uacute;vidas sobre o cumprimento dos princ&iacute;pios de proporcionalidade e precau&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p data-start=\"3888\" data-end=\"4046\">Segundo dados de organiza&ccedil;&otilde;es internacionais, o conflito no I&ecirc;men j&aacute; resultou em centenas de milhares de mortes diretas e indiretas ao longo da &uacute;ltima d&eacute;cada.<\/p>\n<blockquote>\n<p data-start=\"4149\" data-end=\"4318\">O especialista <span class=\"hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline\"><span class=\"whitespace-normal\">Marco Sass&ograve;li<\/span><\/span> observa que a prote&ccedil;&atilde;o de interesses estrat&eacute;gicos n&atilde;o justifica viola&ccedil;&otilde;es das normas que regem a condu&ccedil;&atilde;o da guerra.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2 data-section-id=\"1ww6z75\" data-start=\"4325\" data-end=\"4392\"><span role=\"text\"><strong data-start=\"4328\" data-end=\"4392\">Gaza: devasta&ccedil;&atilde;o em larga escala e responsabilidade indireta<\/strong><\/span><\/h2>\n<p data-start=\"4394\" data-end=\"4590\">Em Gaza, os Estados Unidos atuam como principal aliado pol&iacute;tico e estrat&eacute;gico de Israel. Embora n&atilde;o sejam formalmente parte do conflito, seu apoio levanta quest&otilde;es sobre responsabilidade indireta.<\/p>\n<p data-start=\"4592\" data-end=\"4708\">Dados recentes indicam dezenas de milhares de mortos palestinos, al&eacute;m de destrui&ccedil;&atilde;o massiva de infraestrutura civil.<\/p>\n<p data-start=\"4710\" data-end=\"4774\">Relat&oacute;rios humanit&aacute;rios da ONU (OCHA):<br data-start=\"4748\" data-end=\"4751\"><a class=\"decorated-link\" href=\"https:\/\/www.ochaopt.org\" target=\"_new\" rel=\"noopener nofollow\" data-start=\"4751\" data-end=\"4774\">https:\/\/www.ochaopt.org<\/a><\/p>\n<p data-start=\"4776\" data-end=\"5020\">O direito internacional reconhece que Estados podem ser responsabilizados por assist&ecirc;ncia a viola&ccedil;&otilde;es quando h&aacute; apoio material e conhecimento do contexto. Nesse caso, a posi&ccedil;&atilde;o americana refor&ccedil;a uma aplica&ccedil;&atilde;o seletiva das normas internacionais.<\/p>\n<h2 data-section-id=\"14viwhx\" data-start=\"5027\" data-end=\"5080\"><span role=\"text\"><strong data-start=\"5030\" data-end=\"5080\">L&iacute;bano: escalada regional e falha de conten&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/span><\/h2>\n<p data-start=\"5082\" data-end=\"5323\">O conflito no sul do L&iacute;bano, envolvendo Israel e o Hezbollah, resultou em milhares de mortos e deslocamentos massivos. A atua&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos como mediador convive com seu apoio estrat&eacute;gico a Israel, criando uma contradi&ccedil;&atilde;o estrutural.<\/p>\n<p data-start=\"5395\" data-end=\"5521\">Ataques contra for&ccedil;as de paz da ONU tamb&eacute;m foram registrados, o que pode configurar viola&ccedil;&otilde;es graves do direito internacional.<\/p>\n<h2 data-section-id=\"wsf8a5\" data-start=\"5528\" data-end=\"5586\"><span role=\"text\"><strong data-start=\"5531\" data-end=\"5586\">Ucr&acirc;nia: instrumentaliza&ccedil;&atilde;o de um conflito em curso<\/strong><\/span><\/h2>\n<p data-start=\"5588\" data-end=\"5827\">Na guerra da <span class=\"hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline\"><span class=\"whitespace-normal\">Ucr&acirc;nia<\/span><\/span>, a pol&iacute;tica americana oscilou entre apoio militar e press&atilde;o por negocia&ccedil;&otilde;es. Essa ambiguidade sugere uma abordagem instrumental, na qual o conflito &eacute; utilizado como ferramenta estrat&eacute;gica.<\/p>\n<p data-start=\"5829\" data-end=\"5910\">Dados da ONU indicam milhares de civis mortos e feridos desde o in&iacute;cio da guerra.<\/p>\n<p data-start=\"6007\" data-end=\"6151\">Ainda que o apoio militar n&atilde;o seja ilegal, sua manipula&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica levanta quest&otilde;es sobre responsabilidade indireta na prolonga&ccedil;&atilde;o do conflito.<\/p>\n<h2 data-section-id=\"1qsqfmb\" data-start=\"6158\" data-end=\"6220\"><span role=\"text\"><strong data-start=\"6161\" data-end=\"6220\">Venezuela: interven&ccedil;&atilde;o, petr&oacute;leo e ruptura da soberania<\/strong><\/span><\/h2>\n<p data-start=\"6222\" data-end=\"6454\">O caso da Venezuela representa uma das manifesta&ccedil;&otilde;es mais diretas de ruptura com o direito internacional. A captura de Nicol&aacute;s Maduro por for&ccedil;as americanas, sem autoriza&ccedil;&atilde;o da ONU, constitui viola&ccedil;&atilde;o clara do princ&iacute;pio de soberania.<\/p>\n<p data-start=\"6456\" data-end=\"6667\">Trump justificou a a&ccedil;&atilde;o como combate ao narcotr&aacute;fico e restaura&ccedil;&atilde;o da democracia. No entanto, declara&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas sobre controle e explora&ccedil;&atilde;o do petr&oacute;leo venezuelano indicam motiva&ccedil;&otilde;es estrat&eacute;gicas mais amplas.<\/p>\n<h2 data-section-id=\"17onby8\" data-start=\"6963\" data-end=\"7020\"><span role=\"text\"><strong data-start=\"6966\" data-end=\"7020\">Cuba: coer&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e condena&ccedil;&atilde;o internacional<\/strong><\/span><\/h2>\n<p data-start=\"7022\" data-end=\"7217\">A pol&iacute;tica para Cuba refor&ccedil;a o uso de san&ccedil;&otilde;es como instrumento de press&atilde;o. O embargo econ&ocirc;mico, intensificado durante o governo Trump, tem sido amplamente condenado pela comunidade internacional.<\/p>\n<p data-start=\"7219\" data-end=\"7336\">Em vota&ccedil;&otilde;es recorrentes, a Assembleia Geral da ONU exige o fim do embargo, com apoio esmagador da maioria dos pa&iacute;ses.<\/p>\n<p data-start=\"7406\" data-end=\"7574\">Embora n&atilde;o envolva guerra direta, o impacto humanit&aacute;rio das san&ccedil;&otilde;es levanta quest&otilde;es sobre sua compatibilidade com os direitos humanos e o princ&iacute;pio da n&atilde;o interven&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h2 data-section-id=\"1vbe7ie\" data-start=\"7581\" data-end=\"7639\"><span role=\"text\"><strong data-start=\"7584\" data-end=\"7639\">Conclus&atilde;o: o enfraquecimento da ordem internacional<\/strong><\/span><\/h2>\n<p data-start=\"7641\" data-end=\"7830\">O padr&atilde;o que emerge desses casos &eacute; consistente: a substitui&ccedil;&atilde;o progressiva do multilateralismo por a&ccedil;&otilde;es unilaterais, a flexibiliza&ccedil;&atilde;o das normas jur&iacute;dicas e a normaliza&ccedil;&atilde;o do uso da for&ccedil;a.<\/p>\n<p data-start=\"7832\" data-end=\"8082\">A pol&iacute;tica externa de Trump n&atilde;o apenas desafia regras espec&iacute;ficas, mas contribui para a eros&atilde;o do pr&oacute;prio sistema internacional baseado em normas. Quando grandes pot&ecirc;ncias passam a agir fora desses limites, o efeito n&atilde;o &eacute; apenas local, mas sist&ecirc;mico.<\/p>\n<p data-start=\"8084\" data-end=\"8377\">A quest&atilde;o central, portanto, ultrapassa o debate pol&iacute;tico imediato: trata-se de saber se a ordem internacional constru&iacute;da ap&oacute;s 1945 ainda &eacute; capaz de restringir o uso da for&ccedil;a &mdash; ou se est&aacute; sendo gradualmente substitu&iacute;da por um modelo mais inst&aacute;vel, baseado na primazia do poder sobre o direito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>For&ccedil;a, unilateralismo e ruptura normativa A pol&iacute;tica externa conduzida por Donald Trump ao longo de seus dois mandatos representa uma inflex&atilde;o profunda na ordem internacional contempor&acirc;nea. 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