{"id":1886,"date":"2026-08-14T17:42:06","date_gmt":"2026-08-14T20:42:06","guid":{"rendered":"https:\/\/tatianamendonca.com\/?p=1886"},"modified":"2026-09-13T22:26:07","modified_gmt":"2026-09-14T01:26:07","slug":"deus-voto-e-poder-o-que-acontece-quando-religiao-e-politica-deixam-de-ter-fronteiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tatianamendonca.com\/temas\/geopolitica-diplomacia\/deus-voto-e-poder-o-que-acontece-quando-religiao-e-politica-deixam-de-ter-fronteiras\/","title":{"rendered":"Deus, voto e poder: o que acontece quando religi\u00e3o e pol\u00edtica deixam de ter fronteiras?"},"content":{"rendered":"<?xml encoding=\"utf-8\" ?><h1>Deus, voto e poder: o que acontece quando religi&atilde;o e pol&iacute;tica deixam de ter fronteiras?<\/h1>\n<p><em>O Brasil &eacute; constitucionalmente um Estado laico, mas religi&atilde;o nunca esteve fora da pol&iacute;tica. Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, por&eacute;m, o crescimento das igrejas evang&eacute;licas, a organiza&ccedil;&atilde;o de bancadas religiosas e a aproxima&ccedil;&atilde;o de importantes lideran&ccedil;as crist&atilde;s com projetos pol&iacute;ticos conservadores deram nova dimens&atilde;o a essa rela&ccedil;&atilde;o. O problema democr&aacute;tico n&atilde;o come&ccedil;a quando uma pessoa religiosa entra na pol&iacute;tica. Come&ccedil;a quando f&eacute;, identidade nacional e poder de Estado passam a se confundir &mdash; e uma interpreta&ccedil;&atilde;o religiosa pretende tornar-se regra para toda a sociedade.<\/em><\/p>\n<h2>Estado laico n&atilde;o significa Estado contra a religi&atilde;o<\/h2>\n<p>Existe uma confus&atilde;o frequente quando se discute laicidade.<\/p>\n<p>Defender um Estado laico n&atilde;o significa defender uma sociedade sem religi&atilde;o.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m n&atilde;o significa impedir padres, pastores, rabinos, ialorix&aacute;s, im&atilde;s ou qualquer pessoa religiosa de se manifestarem politicamente.<\/p>\n<p>Liberdade religiosa &eacute; justamente um dos direitos que a laicidade pretende proteger.<\/p>\n<p>A Constitui&ccedil;&atilde;o brasileira estabelece no artigo 5&ordm; a <strong>inviolabilidade da liberdade de consci&ecirc;ncia e de cren&ccedil;a<\/strong>, garantindo o livre exerc&iacute;cio dos cultos religiosos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o artigo 19 pro&iacute;be Uni&atilde;o, estados e munic&iacute;pios de estabelecer ou subvencionar igrejas, criar rela&ccedil;&otilde;es de depend&ecirc;ncia ou alian&ccedil;a com elas ou dificultar seu funcionamento.<\/p>\n<p>Em outras palavras:<\/p>\n<p><strong>a Constitui&ccedil;&atilde;o protege a religi&atilde;o justamente porque impede que uma religi&atilde;o se transforme em religi&atilde;o do Estado.<\/strong><\/p>\n<p>Fonte: Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de 1988<br>\n<a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/constituicao.htm\" rel=\"nofollow\">https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/constituicao.htm<\/a><\/p>\n<p>Essa separa&ccedil;&atilde;o tem uma hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>Durante o Imp&eacute;rio, o Brasil n&atilde;o era laico. O artigo 5&ordm; da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1824 declarava:<\/p>\n<blockquote><p>&ldquo;A Religi&atilde;o Catholica Apostolica Romana continuar&aacute; a ser a Religi&atilde;o do Imperio.&rdquo;<\/p><\/blockquote>\n<p>Outras religi&otilde;es podiam existir, mas seus cultos enfrentavam limita&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Fonte: Constitui&ccedil;&atilde;o Pol&iacute;tica do Imp&eacute;rio do Brasil, 1824<br>\n<a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/constituicao24.htm\" rel=\"nofollow\">https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/constituicao24.htm<\/a><\/p>\n<p>A ruptura veio com a Rep&uacute;blica.<\/p>\n<p>O Decreto n&ordm; 119-A, de 7 de janeiro de 1890, proibiu a interven&ccedil;&atilde;o estatal em mat&eacute;ria religiosa, extinguiu o padroado e estabeleceu liberdade de culto.<\/p>\n<p>Fonte: Decreto n&ordm; 119-A\/1890<br>\n<a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/CCIVIL_03\/decreto\/1851-1899\/D119-A.htm\" rel=\"nofollow\">https:\/\/www.planalto.gov.br\/CCIVIL_03\/decreto\/1851-1899\/D119-A.htm<\/a><\/p>\n<p>Portanto, a discuss&atilde;o contempor&acirc;nea n&atilde;o &eacute; se religi&atilde;o tem direito a existir no espa&ccedil;o p&uacute;blico.<\/p>\n<p>A pergunta &eacute; outra:<\/p>\n<p><strong>uma maioria religiosa pode utilizar seu poder eleitoral para transformar sua interpreta&ccedil;&atilde;o da f&eacute; em obriga&ccedil;&atilde;o para todos?<\/strong><\/p>\n<h2>O Brasil mudou de religi&atilde;o &mdash; rapidamente<\/h2>\n<p>Poucas transforma&ccedil;&otilde;es sociais brasileiras das &uacute;ltimas d&eacute;cadas foram t&atilde;o profundas quanto a mudan&ccedil;a do mapa religioso.<\/p>\n<p>O Censo 2022 mostrou que <strong>56,7% dos brasileiros com 10 anos ou mais se declaravam cat&oacute;licos e 26,9% evang&eacute;licos<\/strong>.<\/p>\n<p>Durante boa parte do s&eacute;culo XX, mais de 90% da popula&ccedil;&atilde;o brasileira se declarava cat&oacute;lica.<\/p>\n<p>O pa&iacute;s continua tendo uma enorme popula&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica, mas aquela hegemonia religiosa praticamente desapareceu.<\/p>\n<p>Fonte: IBGE &mdash; Censo 2022, religi&otilde;es<br>\n<a href=\"https:\/\/educa.ibge.gov.br\/jovens\/materias-especiais\/22703-censo-2022-numero-de-catolicos-no-brasil-em-queda.html\" rel=\"nofollow\">https:\/\/educa.ibge.gov.br\/jovens\/materias-especiais\/22703-censo-2022-numero-de-catolicos-no-brasil-em-queda.html<\/a><\/p>\n<p>Essa transforma&ccedil;&atilde;o n&atilde;o aconteceu simplesmente porque milh&otilde;es de brasileiros &ldquo;se tornaram conservadores&rdquo;.<\/p>\n<p>Pesquisadores identificam v&aacute;rios fatores: urbaniza&ccedil;&atilde;o, crescimento das periferias, aus&ecirc;ncia ou fragilidade de servi&ccedil;os p&uacute;blicos, redes comunit&aacute;rias das igrejas, capacidade de adapta&ccedil;&atilde;o dos cultos, r&aacute;dio e televis&atilde;o, assist&ecirc;ncia social, organiza&ccedil;&atilde;o descentralizada e proximidade cotidiana entre pastores e fi&eacute;is.<\/p>\n<p>Claudia Zilla, da Stiftung Wissenschaft und Politik, destaca justamente a presen&ccedil;a das igrejas evang&eacute;licas em espa&ccedil;os onde institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas muitas vezes s&atilde;o fr&aacute;geis: periferias, comunidades pobres e pris&otilde;es.<\/p>\n<p>Em muitos desses lugares, uma igreja n&atilde;o oferece apenas culto.<\/p>\n<p>Pode oferecer rede social, ajuda material, pertencimento, aconselhamento, apoio emocional e at&eacute; acesso a pessoas capazes de resolver problemas cotidianos.<\/p>\n<p>Isso ajuda a compreender por que a expans&atilde;o evang&eacute;lica &eacute; muito mais do que um fen&ocirc;meno teol&oacute;gico.<\/p>\n<p>Ela tamb&eacute;m altera a estrutura social e, inevitavelmente, a pol&iacute;tica.<\/p>\n<h2>Quando fi&eacute;is se tornam um eleitorado organizado<\/h2>\n<p>Uma coisa &eacute; uma popula&ccedil;&atilde;o ser religiosa.<\/p>\n<p>Outra &eacute; essa popula&ccedil;&atilde;o ser organizada politicamente em torno de sua identidade religiosa.<\/p>\n<p>Durante boa parte do s&eacute;culo XX, muitos grupos evang&eacute;licos brasileiros mantinham certa dist&acirc;ncia da pol&iacute;tica institucional.<\/p>\n<p>Isso mudou.<\/p>\n<p>Igrejas perceberam que n&uacute;meros podiam ser convertidos em votos; votos, em cadeiras parlamentares; cadeiras, em influ&ecirc;ncia sobre legisla&ccedil;&atilde;o, or&ccedil;amento p&uacute;blico, comunica&ccedil;&atilde;o e pol&iacute;ticas educacionais.<\/p>\n<p>A chamada <strong>bancada evang&eacute;lica<\/strong> &eacute; express&atilde;o dessa transforma&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ela n&atilde;o representa todos os evang&eacute;licos nem constitui um bloco completamente homog&ecirc;neo. Existem diferen&ccedil;as denominacionais, ideol&oacute;gicas, partid&aacute;rias e regionais importantes.<\/p>\n<p>Mas sua exist&ecirc;ncia mostra que a identidade religiosa passou a funcionar tamb&eacute;m como categoria de mobiliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>O fen&ocirc;meno produz uma mudan&ccedil;a importante.<\/p>\n<p>Um pastor deixa de ser apenas uma autoridade espiritual quando consegue orientar centenas, milhares ou milh&otilde;es de eleitores.<\/p>\n<p>E uma igreja deixa de ser apenas uma institui&ccedil;&atilde;o religiosa quando consegue negociar apoio pol&iacute;tico, eleger representantes e interferir sistematicamente na elabora&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas.<\/p>\n<p>Isso &eacute; permitido em uma democracia.<\/p>\n<p>A quest&atilde;o come&ccedil;a quando surge uma expectativa de que representantes eleitos devam governar <strong>n&atilde;o segundo direitos v&aacute;lidos para todos os cidad&atilde;os, mas segundo a doutrina religiosa de um grupo espec&iacute;fico<\/strong>.<\/p>\n<h2>A Guerra Fria tamb&eacute;m passou pelas igrejas<\/h2>\n<p>Existe ainda uma dimens&atilde;o hist&oacute;rica internacional que n&atilde;o deve ser ignorada, embora ela n&atilde;o explique sozinha a transforma&ccedil;&atilde;o religiosa brasileira.<\/p>\n<p>Documentos desclassificados mostram que, durante a Guerra Fria, os Estados Unidos tratavam movimentos religiosos latino-americanos como fen&ocirc;menos politicamente relevantes.<\/p>\n<p>Um relat&oacute;rio secreto produzido em 1986 pela <strong>Directorate of Intelligence da CIA<\/strong>, <em>Liberation Theology: Religion, Reform, and Revolution<\/em>, analisou a Teologia da Liberta&ccedil;&atilde;o, as Comunidades Eclesiais de Base e suas consequ&ecirc;ncias pol&iacute;ticas em pa&iacute;ses como Brasil, Nicar&aacute;gua, Guatemala, El Salvador e Chile.<\/p>\n<p>O pr&oacute;prio documento avaliava o movimento tamb&eacute;m segundo suas implica&ccedil;&otilde;es para os interesses norte-americanos.<\/p>\n<p><strong>CIA &mdash; <em>Liberation Theology: Religion, Reform, and Revolution<\/em><\/strong><br>\n<a href=\"https:\/\/www.cia.gov\/readingroom\/docs\/CIA-RDP97R00694R000600050001-9.pdf\" rel=\"nofollow\">https:\/\/www.cia.gov\/readingroom\/docs\/CIA-RDP97R00694R000600050001-9.pdf<\/a><\/p>\n<p>A expans&atilde;o de miss&otilde;es protestantes norte-americanas e sua rela&ccedil;&atilde;o com o anticomunismo tamb&eacute;m faz parte dessa hist&oacute;ria. Isso n&atilde;o significa que a transforma&ccedil;&atilde;o religiosa do Brasil possa ser reduzida a uma opera&ccedil;&atilde;o estrangeira.<\/p>\n<p>Significa, por&eacute;m, que <strong>religi&atilde;o tamb&eacute;m participou das disputas ideol&oacute;gicas da Guerra Fria<\/strong>.<\/p>\n<p>Essa rela&ccedil;&atilde;o entre intelig&ecirc;ncia norte-americana, miss&otilde;es religiosas, Teologia da Liberta&ccedil;&atilde;o e transforma&ccedil;&atilde;o do campo religioso latino-americano merece uma investiga&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria e ser&aacute; tratada separadamente.<\/p>\n<p>Aqui importa principalmente observar o resultado brasileiro: diferentes interpreta&ccedil;&otilde;es do cristianismo passaram a disputar n&atilde;o apenas fi&eacute;is, mas tamb&eacute;m projetos de sociedade.<\/p>\n<h2>A disputa acontece dentro do pr&oacute;prio cristianismo<\/h2>\n<p>A rela&ccedil;&atilde;o entre religi&atilde;o e pol&iacute;tica n&atilde;o pode ser resumida a &ldquo;crist&atilde;os contra esquerda&rdquo;.<\/p>\n<p>A pr&oacute;pria hist&oacute;ria crist&atilde; demonstra isso.<\/p>\n<p>A Teologia da Liberta&ccedil;&atilde;o colocou pobreza, desigualdade, explora&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e autoritarismo no centro da reflex&atilde;o religiosa latino-americana.<\/p>\n<p>No Brasil, Comunidades Eclesiais de Base mobilizaram milh&otilde;es de pessoas.<\/p>\n<p>Religiosos como <strong>Dom H&eacute;lder C&acirc;mara, Dom Paulo Evaristo Arns, Leonardo Boff e Frei Betto<\/strong> associaram diferentes vertentes do cristianismo a direitos humanos, justi&ccedil;a social e combate &agrave; pobreza.<\/p>\n<p>Em outros contextos, <strong>Martin Luther King Jr.<\/strong>, pastor batista, utilizou sua f&eacute; como fundamento da luta contra a segrega&ccedil;&atilde;o racial nos Estados Unidos.<\/p>\n<p><strong>Desmond Tutu<\/strong>, arcebispo anglicano, foi uma das principais vozes contra o apartheid na &Aacute;frica do Sul.<\/p>\n<p>Igrejas negras foram fundamentais no movimento pelos direitos civis norte-americano.<\/p>\n<p>Portanto, n&atilde;o existe uma consequ&ecirc;ncia pol&iacute;tica inevit&aacute;vel da f&eacute; crist&atilde;.<\/p>\n<p>Existe uma disputa sobre <strong>como interpretar essa f&eacute;<\/strong>.<\/p>\n<h2>Do anticomunismo ao bolsonarismo<\/h2>\n<p>No Brasil contempor&acirc;neo, entretanto, parte importante do evangelicalismo institucional aproximou-se da direita.<\/p>\n<p>Jair Bolsonaro conseguiu construir uma rela&ccedil;&atilde;o particularmente forte com lideran&ccedil;as evang&eacute;licas conservadoras.<\/p>\n<p>Seu pr&oacute;prio slogan eleitoral condensava religi&atilde;o, nacionalismo e pol&iacute;tica:<\/p>\n<p><strong>&ldquo;Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p>Em 2018, estudos estimam que cerca de <strong>70% dos eleitores evang&eacute;licos votaram em Bolsonaro<\/strong>, enquanto o apoio entre cat&oacute;licos foi consideravelmente menor.<\/p>\n<p>Fonte acad&ecirc;mica:<\/p>\n<p>Ole Jakob L&oslash;land &mdash; <em>The Political Conditions and Theological Foundations of the New Christian Right in Brazil<\/em><br>\n<a href=\"https:\/\/iberoamericana.se\/en\/articles\/10.16993\/iberoamericana.495\" rel=\"nofollow\">https:\/\/iberoamericana.se\/en\/articles\/10.16993\/iberoamericana.495<\/a><\/p>\n<p>Em 2022, essa rela&ccedil;&atilde;o permaneceu.<\/p>\n<p>&Agrave;s v&eacute;speras do segundo turno, diferentes institutos de pesquisa registravam <strong>mais de 60% de apoio a Bolsonaro entre evang&eacute;licos<\/strong>.<\/p>\n<p>Fonte:<\/p>\n<p>Reuters &mdash; <em>Bolsonaro shores up evangelical support in tight Brazil election<\/em><br>\n<a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/americas\/bolsonaro-shores-up-evangelical-support-tight-brazil-election-2022-10-27\/\" rel=\"nofollow\">https:\/\/www.reuters.com\/world\/americas\/bolsonaro-shores-up-evangelical-support-tight-brazil-election-2022-10-27\/<\/a><\/p>\n<p>Mas existe uma distin&ccedil;&atilde;o indispens&aacute;vel:<\/p>\n<p><strong>evang&eacute;licos n&atilde;o s&atilde;o sin&ocirc;nimo de bolsonaristas.<\/strong><\/p>\n<p>Milh&otilde;es votaram em Lula.<\/p>\n<p>Existem pastores progressistas, comunidades evang&eacute;licas comprometidas com direitos humanos e movimentos como Evang&eacute;licos pelo Estado de Direito.<\/p>\n<p>O evangelicalismo brasileiro &eacute; profundamente fragmentado.<\/p>\n<p>Transformar aproximadamente um quarto da popula&ccedil;&atilde;o brasileira em um &uacute;nico bloco ideol&oacute;gico seria intelectualmente errado e politicamente perigoso.<\/p>\n<h2>Por que parte do evangelicalismo se aproximou da direita?<\/h2>\n<p>N&atilde;o existe uma &uacute;nica explica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Uma delas &eacute; moral.<\/strong><\/p>\n<p>Aborto, sexualidade, direitos LGBTQIA+, educa&ccedil;&atilde;o sexual e modelos familiares tornaram-se elementos centrais da mobiliza&ccedil;&atilde;o conservadora.<\/p>\n<p><strong>Outra &eacute; institucional.<\/strong><\/p>\n<p>Igrejas descobriram que votos podem ser transformados em representa&ccedil;&atilde;o parlamentar, influ&ecirc;ncia regulat&oacute;ria e acesso a meios de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Existe tamb&eacute;m uma dimens&atilde;o econ&ocirc;mica.<\/p>\n<p>Determinadas correntes neopentecostais incorporaram elementos da chamada <strong>Teologia da Prosperidade<\/strong>, que associa f&eacute;, sucesso individual e prosperidade material.<\/p>\n<p>H&aacute; ainda a tradi&ccedil;&atilde;o anticomunista, presente em diferentes setores crist&atilde;os desde a Guerra Fria.<\/p>\n<p>E existe uma transforma&ccedil;&atilde;o importante na pr&oacute;pria compreens&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>Algumas correntes passaram da ideia de que crist&atilde;os deveriam afastar-se da pol&iacute;tica para a convic&ccedil;&atilde;o de que precisam ocupar suas institui&ccedil;&otilde;es e influenciar diretamente as leis da sociedade.<\/p>\n<p>&Eacute; nesse ponto que a quest&atilde;o deixa de ser simplesmente eleitoral e passa a envolver a pr&oacute;pria concep&ccedil;&atilde;o de Estado.<\/p>\n<h2>Mas existe uma pol&iacute;tica necessariamente &ldquo;crist&atilde;&rdquo;?<\/h2>\n<p>Aqui surge uma contradi&ccedil;&atilde;o interessante.<\/p>\n<p>A direita crist&atilde; contempor&acirc;nea enfatiza especialmente temas como:<\/p>\n<ul>\n<li>aborto;<\/li>\n<li>sexualidade;<\/li>\n<li>casamento;<\/li>\n<li>autoridade familiar;<\/li>\n<li>ordem;<\/li>\n<li>propriedade;<\/li>\n<li>anticomunismo.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Mas os textos crist&atilde;os tamb&eacute;m dedicam enorme aten&ccedil;&atilde;o a:<\/p>\n<ul>\n<li>pobreza;<\/li>\n<li>riqueza;<\/li>\n<li>estrangeiros;<\/li>\n<li>desigualdade;<\/li>\n<li>d&iacute;vida;<\/li>\n<li>cuidado com os vulner&aacute;veis;<\/li>\n<li>condena&ccedil;&atilde;o da explora&ccedil;&atilde;o;<\/li>\n<li>acolhimento;<\/li>\n<li>miseric&oacute;rdia.<\/li>\n<\/ul>\n<p>No Evangelho de Mateus, Jesus afirma:<\/p>\n<blockquote><p>&ldquo;Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era estrangeiro e me acolhestes.&rdquo;<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Mateus 25:35<\/strong><\/p>\n<p>No Evangelho de Lucas:<\/p>\n<blockquote><p>&ldquo;Vendei os vossos bens e dai esmola.&rdquo;<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Lucas 12:33<\/strong><\/p>\n<p>Nos Atos dos Ap&oacute;stolos, uma das primeiras comunidades crist&atilde;s &eacute; descrita assim:<\/p>\n<blockquote><p>&ldquo;Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum.&rdquo;<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Atos 2:44<\/strong><\/p>\n<p>Existem, ao mesmo tempo, textos b&iacute;blicos utilizados para sustentar posi&ccedil;&otilde;es tradicionais sobre fam&iacute;lia, sexualidade, autoridade e comportamento moral.<\/p>\n<p>A B&iacute;blia, portanto, n&atilde;o cabe confortavelmente no eixo <strong>esquerda-direita<\/strong>, que surgiu muitos s&eacute;culos depois.<\/p>\n<p>Dizer que &ldquo;Jesus era socialista&rdquo; seria historicamente anacr&ocirc;nico.<\/p>\n<p>Mas afirmar que o cristianismo conduz naturalmente ao neoliberalismo, ao nacionalismo de direita ou ao individualismo econ&ocirc;mico &eacute; igualmente dif&iacute;cil de sustentar.<\/p>\n<h2>O paradoxo dos &ldquo;valores crist&atilde;os&rdquo;<\/h2>\n<p>Parte da direita crist&atilde; contempor&acirc;nea &eacute; simultaneamente:<\/p>\n<p><strong>moralmente conservadora e economicamente liberal.<\/strong><\/p>\n<p>Defende fam&iacute;lia e caridade, mas pode apoiar redu&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas sociais.<\/p>\n<p>Defende prote&ccedil;&atilde;o da vida antes do nascimento, mas pode apoiar pol&iacute;ticas de seguran&ccedil;a extremamente violentas.<\/p>\n<p>Defende a fam&iacute;lia, mas pode rejeitar programas p&uacute;blicos destinados a fam&iacute;lias pobres.<\/p>\n<p>Defende valores crist&atilde;os, mas setores ligados ao nacionalismo religioso podem adotar discursos hostis contra migrantes e refugiados.<\/p>\n<p>N&atilde;o cabe a um Estado democr&aacute;tico decidir quais dessas interpreta&ccedil;&otilde;es s&atilde;o o &ldquo;verdadeiro cristianismo&rdquo;.<\/p>\n<p>Mas &eacute; leg&iacute;timo observar que aquilo que aparece na pol&iacute;tica como <strong>&ldquo;valores crist&atilde;os&rdquo; frequentemente representa uma sele&ccedil;&atilde;o de determinados valores dentro de uma tradi&ccedil;&atilde;o religiosa muito mais ampla e contradit&oacute;ria<\/strong>.<\/p>\n<h2>Quando religi&atilde;o vira identidade nacional<\/h2>\n<p>O fen&ocirc;meno n&atilde;o &eacute; exclusivamente brasileiro.<\/p>\n<p>Em diferentes partes do mundo, religi&atilde;o e nacionalismo voltaram a se aproximar.<\/p>\n<p>Na <strong>&Iacute;ndia<\/strong>, o crescimento do Hindutva fortaleceu uma concep&ccedil;&atilde;o de identidade nacional profundamente relacionada ao hindu&iacute;smo.<\/p>\n<p>Na <strong>R&uacute;ssia<\/strong>, a Igreja Ortodoxa tornou-se importante parceira simb&oacute;lica do nacionalismo promovido pelo Estado.<\/p>\n<p>Em <strong>Israel<\/strong>, a rela&ccedil;&atilde;o entre identidade judaica, nacionalidade, religi&atilde;o e Estado produz debates jur&iacute;dicos e pol&iacute;ticos permanentes.<\/p>\n<p>No <strong>Ir&atilde;<\/strong>, institui&ccedil;&otilde;es religiosas exercem poder constitucional direto dentro da Rep&uacute;blica Isl&acirc;mica.<\/p>\n<p>Nos <strong>Estados Unidos<\/strong>, embora n&atilde;o exista religi&atilde;o oficial, o chamado <strong>Christian Nationalism<\/strong> tornou-se uma corrente importante da pol&iacute;tica conservadora.<\/p>\n<p>O Pew Research Center identificou diferentes graus de nacionalismo religioso em dezenas de pa&iacute;ses.<\/p>\n<p>Fonte:<\/p>\n<p>Pew Research Center &mdash; <em>Religious Nationalism Around the World<\/em><br>\n<a href=\"https:\/\/www.pewresearch.org\/global\/2025\/01\/28\/comparing-levels-of-religious-nationalism-around-the-world\/\" rel=\"nofollow\">https:\/\/www.pewresearch.org\/global\/2025\/01\/28\/comparing-levels-of-religious-nationalism-around-the-world\/<\/a><\/p>\n<p>Esses sistemas s&atilde;o muito diferentes entre si e n&atilde;o devem ser tratados como equivalentes.<\/p>\n<p>O que eles demonstram &eacute; outra coisa:<\/p>\n<p><strong>quando identidade religiosa e pertencimento nacional come&ccedil;am a se fundir, minorias religiosas e pessoas sem religi&atilde;o podem deixar de ser vistas apenas como cidad&atilde;os diferentes e passar a ser percebidas como menos pertencentes &agrave; pr&oacute;pria na&ccedil;&atilde;o.<\/strong><\/p>\n<h2>O problema n&atilde;o &eacute; ter f&eacute;. &Eacute; criar cidad&atilde;os de primeira e segunda classe<\/h2>\n<p>Essa talvez seja a distin&ccedil;&atilde;o mais importante.<\/p>\n<p>Uma democracia pode ter pol&iacute;ticos profundamente religiosos.<\/p>\n<p>Eles t&ecirc;m direito de orientar suas decis&otilde;es por valores morais e religiosos.<\/p>\n<p>Movimentos religiosos participaram de algumas das grandes lutas por direitos humanos da hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>O problema surge quando um projeto pol&iacute;tico afirma, expl&iacute;cita ou implicitamente:<\/p>\n<p><strong>&ldquo;Nossa religi&atilde;o define quem pertence verdadeiramente &agrave; na&ccedil;&atilde;o.&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p>Nesse momento, quem segue outra religi&atilde;o &mdash; ou nenhuma &mdash; deixa de ser simplesmente algu&eacute;m com outra convic&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Pode passar a ser tratado como amea&ccedil;a moral, cultural ou pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>E democracias se tornam vulner&aacute;veis quando elei&ccedil;&otilde;es deixam de ser disputas sobre pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e passam a ser apresentadas como guerras entre <strong>Deus e seus inimigos<\/strong>.<\/p>\n<p>Discordar de um advers&aacute;rio pol&iacute;tico &eacute; uma coisa.<\/p>\n<p>Acreditar que ele representa o mal absoluto &eacute; outra.<\/p>\n<p>No primeiro caso, compromisso e altern&acirc;ncia de poder s&atilde;o poss&iacute;veis.<\/p>\n<p>No segundo, derrotar o advers&aacute;rio pode come&ccedil;ar a parecer uma miss&atilde;o religiosa.<\/p>\n<h2>O verdadeiro debate &eacute; sobre poder<\/h2>\n<p>Perguntar se religi&atilde;o deve entrar na pol&iacute;tica talvez seja a pergunta errada.<\/p>\n<p>Ela sempre entrou.<\/p>\n<p>A escravid&atilde;o foi defendida e combatida com argumentos religiosos.<\/p>\n<p>Ditaduras tiveram religiosos entre seus apoiadores e entre seus opositores.<\/p>\n<p>Movimentos conservadores usam religi&atilde;o.<\/p>\n<p>Movimentos progressistas tamb&eacute;m possuem tradi&ccedil;&otilde;es religiosas.<\/p>\n<p>A quest&atilde;o democr&aacute;tica come&ccedil;a em outro lugar:<\/p>\n<p><strong>quanto poder uma institui&ccedil;&atilde;o religiosa pode exercer sobre um Estado que pertence tamb&eacute;m a quem n&atilde;o compartilha daquela f&eacute;?<\/strong><\/p>\n<p>O problema surge quando uma religi&atilde;o conquista acesso privilegiado ao Estado e apresenta sua doutrina particular como vontade universal da sociedade.<\/p>\n<p>A laicidade n&atilde;o existe para proteger ateus dos religiosos.<\/p>\n<p>Existe para proteger todos de todos.<\/p>\n<p>Protege evang&eacute;licos se um governo cat&oacute;lico tentar impor sua doutrina.<\/p>\n<p>Protege cat&oacute;licos se evang&eacute;licos se tornarem maioria.<\/p>\n<p>Protege mu&ccedil;ulmanos, judeus, religi&otilde;es de matriz africana, espiritualidades ind&iacute;genas e outras cren&ccedil;as minorit&aacute;rias.<\/p>\n<p>E protege tamb&eacute;m quem n&atilde;o acredita em Deus.<\/p>\n<p>Em um Brasil cada vez mais religiosamente plural, o Estado laico n&atilde;o &eacute; inimigo da f&eacute;.<\/p>\n<p>&Eacute; justamente a garantia de que <strong>nenhuma f&eacute; precisar&aacute; pedir autoriza&ccedil;&atilde;o a outra para existir<\/strong>.<\/p>\n<p>Talvez essa seja a diferen&ccedil;a fundamental entre religi&atilde;o e poder estatal:<\/p>\n<p><strong>a f&eacute; pode convencer. O Estado pode obrigar.<\/strong><\/p>\n<p>Quando os dois deixam de ter fronteiras, liberdade religiosa pode deixar de funcionar como direito de todos &mdash; e transformar-se em poder de alguns sobre os demais.<\/p>\n<h2>Fontes e refer&ecirc;ncias<\/h2>\n<p><strong>Constitui&ccedil;&atilde;o Federal do Brasil de 1988 &mdash; artigos 5&ordm; e 19<\/strong><br>\n<a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/constituicao.htm\" rel=\"nofollow\">https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/constituicao.htm<\/a><\/p>\n<p><strong>Constitui&ccedil;&atilde;o Pol&iacute;tica do Imp&eacute;rio do Brasil de 1824<\/strong><br>\n<a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/constituicao24.htm\" rel=\"nofollow\">https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/constituicao24.htm<\/a><\/p>\n<p><strong>Decreto n&ordm; 119-A, de 7 de janeiro de 1890 &mdash; separa&ccedil;&atilde;o entre Estado e religi&atilde;o<\/strong><br>\n<a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/CCIVIL_03\/decreto\/1851-1899\/D119-A.htm\" rel=\"nofollow\">https:\/\/www.planalto.gov.br\/CCIVIL_03\/decreto\/1851-1899\/D119-A.htm<\/a><\/p>\n<p><strong>IBGE &mdash; Censo 2022: religi&atilde;o no Brasil<\/strong><br>\n<a href=\"https:\/\/educa.ibge.gov.br\/jovens\/materias-especiais\/22703-censo-2022-numero-de-catolicos-no-brasil-em-queda.html\" rel=\"nofollow\">https:\/\/educa.ibge.gov.br\/jovens\/materias-especiais\/22703-censo-2022-numero-de-catolicos-no-brasil-em-queda.html<\/a><\/p>\n<p><strong>CIA &mdash; Directorate of Intelligence &mdash; <em>Liberation Theology: Religion, Reform, and Revolution<\/em><\/strong><br>\n<a href=\"https:\/\/www.cia.gov\/readingroom\/docs\/CIA-RDP97R00694R000600050001-9.pdf\" rel=\"nofollow\">https:\/\/www.cia.gov\/readingroom\/docs\/CIA-RDP97R00694R000600050001-9.pdf<\/a><\/p>\n<p><strong>Claudia Zilla &mdash; Evangelicals and Politics in Brazil, Stiftung Wissenschaft und Politik<\/strong><br>\n<a href=\"https:\/\/www.swp-berlin.org\/10.18449\/2020RP01\/\" rel=\"nofollow\">https:\/\/www.swp-berlin.org\/10.18449\/2020RP01\/<\/a><\/p>\n<p><strong>Ole Jakob L&oslash;land &mdash; The Political Conditions and Theological Foundations of the New Christian Right in Brazil<\/strong><br>\n<a href=\"https:\/\/iberoamericana.se\/en\/articles\/10.16993\/iberoamericana.495\" rel=\"nofollow\">https:\/\/iberoamericana.se\/en\/articles\/10.16993\/iberoamericana.495<\/a><\/p>\n<p><strong>Reuters &mdash; Bolsonaro shores up evangelical support in tight Brazil election, 27 de outubro de 2022<\/strong><br>\n<a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/americas\/bolsonaro-shores-up-evangelical-support-tight-brazil-election-2022-10-27\/\" rel=\"nofollow\">https:\/\/www.reuters.com\/world\/americas\/bolsonaro-shores-up-evangelical-support-tight-brazil-election-2022-10-27\/<\/a><\/p>\n<p><strong>Harvard ReVista &mdash; Evangelicals in Latin American Politics<\/strong><br>\n<a href=\"https:\/\/revista.drclas.harvard.edu\/evangelicals-in-latin-american-politics\/\" rel=\"nofollow\">https:\/\/revista.drclas.harvard.edu\/evangelicals-in-latin-american-politics\/<\/a><\/p>\n<p><strong>Pew Research Center &mdash; Religious Nationalism Around the World<\/strong><br>\n<a href=\"https:\/\/www.pewresearch.org\/global\/2025\/01\/28\/comparing-levels-of-religious-nationalism-around-the-world\/\" rel=\"nofollow\">https:\/\/www.pewresearch.org\/global\/2025\/01\/28\/comparing-levels-of-religious-nationalism-around-the-world\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deus, voto e poder: o que acontece quando religi&atilde;o e pol&iacute;tica deixam de ter fronteiras? O Brasil &eacute; constitucionalmente um Estado laico, mas religi&atilde;o nunca esteve fora da pol&iacute;tica. 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