{"id":1779,"date":"2026-07-01T00:20:53","date_gmt":"2026-07-01T03:20:53","guid":{"rendered":"https:\/\/tatianamendonca.com\/?p=1779"},"modified":"2026-07-02T00:21:23","modified_gmt":"2026-07-02T03:21:23","slug":"racismo-antimuculmano-seguranca-e-cidadania-na-alemanha-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tatianamendonca.com\/temas\/direitos-humanos\/racismo-antimuculmano-seguranca-e-cidadania-na-alemanha-contemporanea\/","title":{"rendered":"Racismo antimu\u00e7ulmano, seguran\u00e7a e cidadania na Alemanha contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"<?xml encoding=\"utf-8\" ?><p><em>O dia 1&ordm; de julho, lembrado na Alemanha como Dia contra o Racismo Antimu&ccedil;ulmano, remete ao assassinato de Marwa El-Sherbini, morta em 2009 dentro de um tribunal em Dresden. O caso permanece como s&iacute;mbolo de uma viol&ecirc;ncia que n&atilde;o se limita a insultos individuais ou epis&oacute;dios isolados. O racismo antimu&ccedil;ulmano atravessa debates sobre migra&ccedil;&atilde;o, seguran&ccedil;a, integra&ccedil;&atilde;o, pertencimento e cidadania. Em uma Alemanha cada vez mais diversa, mas tamb&eacute;m marcada pela ascens&atilde;o da extrema direita e pela securitiza&ccedil;&atilde;o da vida p&uacute;blica, a forma como pessoas mu&ccedil;ulmanas s&atilde;o vistas, representadas e tratadas diz muito sobre os limites reais da democracia.<\/em><\/p>\n<h2>Um crime que virou mem&oacute;ria p&uacute;blica<\/h2>\n<p>Marwa El-Sherbini era uma farmac&ecirc;utica eg&iacute;pcia, mu&ccedil;ulmana, esposa e m&atilde;e. Em 1&ordm; de julho de 2009, foi assassinada no Tribunal Regional de Dresden durante uma audi&ecirc;ncia. Ela havia denunciado um homem que a insultara de forma racista em um parque infantil. No tribunal, o agressor a matou a facadas diante de seu filho pequeno e feriu gravemente seu marido.<\/p>\n<p>A mem&oacute;ria desse crime ocupa hoje um lugar importante na luta contra o racismo antimu&ccedil;ulmano na Alemanha. O 1&ordm; de julho n&atilde;o &eacute; apenas uma data de homenagem. &Eacute; tamb&eacute;m um lembrete de que discursos de &oacute;dio, quando normalizados, podem se transformar em viol&ecirc;ncia concreta. Marwa El-Sherbini n&atilde;o foi atacada por algo que fez, mas por aquilo que representava aos olhos de seu agressor: uma mulher mu&ccedil;ulmana vis&iacute;vel, com hijab, que decidiu reagir juridicamente a uma agress&atilde;o racista.<\/p>\n<p>O caso tamb&eacute;m exp&ocirc;s uma dificuldade recorrente: por muito tempo, parte do debate p&uacute;blico alem&atilde;o tratou a hostilidade contra mu&ccedil;ulmanos como &ldquo;cr&iacute;tica ao Isl&atilde;&rdquo;, &ldquo;preocupa&ccedil;&atilde;o cultural&rdquo; ou &ldquo;medo da radicaliza&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Essa confus&atilde;o continua presente. Criticar ideias religiosas, institui&ccedil;&otilde;es ou pr&aacute;ticas pol&iacute;ticas &eacute; parte leg&iacute;tima da liberdade de express&atilde;o. Transformar pessoas mu&ccedil;ulmanas, ou percebidas como mu&ccedil;ulmanas, em amea&ccedil;a coletiva &eacute; outra coisa.<\/p>\n<h2>Quando a religi&atilde;o vira marcador racial<\/h2>\n<p>O termo &ldquo;racismo antimu&ccedil;ulmano&rdquo; pode causar estranhamento a quem entende religi&atilde;o apenas como cren&ccedil;a individual. Mas, nas sociedades europeias contempor&acirc;neas, o &ldquo;mu&ccedil;ulmano&rdquo; frequentemente aparece como categoria racializada. Isso significa que pessoas s&atilde;o tratadas como mu&ccedil;ulmanas &mdash; e discriminadas por isso &mdash; com base em apar&ecirc;ncia, nome, origem, idioma, cor da pele, roupa ou suposta cultura familiar, independentemente de sua pr&aacute;tica religiosa real.<\/p>\n<p>Uma mulher com v&eacute;u, um homem chamado Mohammed, uma fam&iacute;lia &aacute;rabe, uma crian&ccedil;a turca, uma pessoa do norte da &Aacute;frica ou do sul da &Aacute;sia podem ser classificadas socialmente como &ldquo;mu&ccedil;ulmanas&rdquo; antes mesmo de dizerem qualquer coisa sobre sua religi&atilde;o. O racismo, nesse caso, n&atilde;o depende da teologia. Depende de marca&ccedil;&otilde;es sociais.<\/p>\n<p>Por isso, o racismo antimu&ccedil;ulmano atinge tanto a liberdade religiosa quanto a igualdade perante a lei. Ele aparece na escola, no mercado de trabalho, na busca por moradia, no atendimento em reparti&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, na cobertura da imprensa, nas redes sociais e nas intera&ccedil;&otilde;es cotidianas. N&atilde;o se trata apenas de viol&ecirc;ncia extrema, mas de uma soma constante de suspeitas, olhares, recusas e humilha&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>A Ag&ecirc;ncia dos Direitos Fundamentais da Uni&atilde;o Europeia registrou, em pesquisa publicada em 2024, altos n&iacute;veis de discrimina&ccedil;&atilde;o contra mu&ccedil;ulmanos na Europa. Na Alemanha, segundo dados mencionados em materiais da FRA e de organiza&ccedil;&otilde;es de monitoramento, 68% dos mu&ccedil;ulmanos entrevistados disseram ter sofrido discrimina&ccedil;&atilde;o racista nos cinco anos anteriores &agrave; pesquisa. Esse dado n&atilde;o descreve exce&ccedil;&otilde;es. Descreve uma experi&ecirc;ncia social repetida.<\/p>\n<h2>Seguran&ccedil;a p&uacute;blica ou suspeita permanente?<\/h2>\n<p>A Alemanha, como outros pa&iacute;ses europeus, tem raz&otilde;es leg&iacute;timas para enfrentar viol&ecirc;ncia pol&iacute;tica, terrorismo e radicaliza&ccedil;&atilde;o. O problema come&ccedil;a quando a pol&iacute;tica de seguran&ccedil;a transforma comunidades inteiras em objeto de suspeita preventiva. Desde os ataques de 11 de setembro de 2001 e, posteriormente, ap&oacute;s atentados cometidos por grupos jihadistas na Europa, a figura do &ldquo;mu&ccedil;ulmano perigoso&rdquo; ganhou for&ccedil;a no imagin&aacute;rio pol&iacute;tico e midi&aacute;tico.<\/p>\n<p>Esse enquadramento tem efeitos duradouros. Mesquitas passam a ser vistas como espa&ccedil;os de vigil&acirc;ncia antes de serem reconhecidas como institui&ccedil;&otilde;es religiosas. Jovens mu&ccedil;ulmanos s&atilde;o interrogados sobre lealdade nacional. Mulheres com hijab s&atilde;o cobradas a provar autonomia, integra&ccedil;&atilde;o ou compatibilidade com &ldquo;valores ocidentais&rdquo;. Debates sobre crime, migra&ccedil;&atilde;o e extremismo frequentemente se misturam em uma mesma narrativa.<\/p>\n<p>A seguran&ccedil;a p&uacute;blica &eacute; uma fun&ccedil;&atilde;o do Estado. Mas, em uma democracia constitucional, ela n&atilde;o pode operar por culpa coletiva. O Estado deve investigar atos, redes e organiza&ccedil;&otilde;es concretas, n&atilde;o transformar identidades religiosas em ind&iacute;cio de amea&ccedil;a. Quando a suspeita se torna permanente, a cidadania se torna condicional.<\/p>\n<p>Esse &eacute; um dos dilemas centrais da Alemanha contempor&acirc;nea. Milh&otilde;es de pessoas mu&ccedil;ulmanas vivem, trabalham, estudam, pagam impostos, cuidam de crian&ccedil;as, idosos e doentes, fundam empresas, participam da vida p&uacute;blica e constroem o pa&iacute;s. Ainda assim, muitas continuam sendo tratadas como se sua presen&ccedil;a exigisse explica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h2>A normaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica da hostilidade<\/h2>\n<p>O crescimento da extrema direita alem&atilde; agravou esse cen&aacute;rio. A AfD e outros atores do campo nacionalista conseguiram transformar o Isl&atilde;, a migra&ccedil;&atilde;o e a identidade nacional em temas centrais de mobiliza&ccedil;&atilde;o eleitoral. O discurso raramente aparece apenas como &oacute;dio expl&iacute;cito. Muitas vezes surge como defesa da cultura, da seguran&ccedil;a, das mulheres, da liberdade ou da &ldquo;civiliza&ccedil;&atilde;o europeia&rdquo;.<\/p>\n<p>Essa linguagem &eacute; eficaz porque desloca o racismo para uma zona aparentemente aceit&aacute;vel. Em vez de atacar diretamente pessoas mu&ccedil;ulmanas, fala-se em &ldquo;islamiza&ccedil;&atilde;o&rdquo;, &ldquo;culturas incompat&iacute;veis&rdquo;, &ldquo;sociedades paralelas&rdquo; ou &ldquo;fracasso da integra&ccedil;&atilde;o&rdquo;. O resultado, por&eacute;m, &eacute; semelhante: milh&otilde;es de pessoas passam a ser associadas a perigo, atraso ou amea&ccedil;a demogr&aacute;fica.<\/p>\n<p>O relat&oacute;rio do Unabh&auml;ngiger Expertenkreis Muslimfeindlichkeit, apresentado em 2023 ao Minist&eacute;rio do Interior alem&atilde;o, descreveu a hostilidade contra mu&ccedil;ulmanos como um fen&ocirc;meno presente em diferentes esferas sociais, incluindo pol&iacute;tica, m&iacute;dia, escola, institui&ccedil;&otilde;es e cotidiano. Essa constata&ccedil;&atilde;o &eacute; importante porque rompe com a ideia de que o problema estaria restrito a grupos extremistas.<\/p>\n<p>Quando imagens negativas sobre mu&ccedil;ulmanos circulam repetidamente em discursos oficiais, capas de jornais, campanhas eleitorais ou coment&aacute;rios de autoridades, a fronteira entre o preconceito social e a legitima&ccedil;&atilde;o institucional fica mais fr&aacute;gil. O racismo antimu&ccedil;ulmano n&atilde;o nasce apenas nas margens. Muitas vezes, ganha for&ccedil;a quando encontra eco no centro do debate p&uacute;blico.<\/p>\n<h2>Cidadania como pertencimento real<\/h2>\n<p>A quest&atilde;o da cidadania vai al&eacute;m do passaporte. Uma pessoa pode ter nacionalidade alem&atilde; e ainda ser tratada como estrangeira permanente. Pode falar alem&atilde;o como primeira l&iacute;ngua e ainda ouvir que &ldquo;deve se integrar&rdquo;. Pode nascer no pa&iacute;s e continuar sendo interrogada sobre &ldquo;de onde realmente vem&rdquo;. Para muitos mu&ccedil;ulmanos na Alemanha, a cidadania formal n&atilde;o garante automaticamente pertencimento social.<\/p>\n<p>Isso tem consequ&ecirc;ncias democr&aacute;ticas. Quando uma parte da popula&ccedil;&atilde;o sente que suas experi&ecirc;ncias de discrimina&ccedil;&atilde;o s&atilde;o minimizadas, que sua seguran&ccedil;a n&atilde;o &eacute; levada a s&eacute;rio e que sua presen&ccedil;a &eacute; constantemente colocada sob suspeita, a confian&ccedil;a nas institui&ccedil;&otilde;es se enfraquece. Combater o racismo antimu&ccedil;ulmano, portanto, n&atilde;o &eacute; uma pauta identit&aacute;ria isolada. &Eacute; uma quest&atilde;o de qualidade democr&aacute;tica.<\/p>\n<p>O relat&oacute;rio civil da CLAIM sobre 2025 documentou 4.096 incidentes antimu&ccedil;ulmanos na Alemanha, acima dos 3.080 registrados em 2024. A organiza&ccedil;&atilde;o ressalta que os n&uacute;meros representam apenas parte do fen&ocirc;meno, porque muitos casos n&atilde;o s&atilde;o denunciados ou n&atilde;o chegam &agrave;s estat&iacute;sticas oficiais. Mesmo com essa limita&ccedil;&atilde;o, a tend&ecirc;ncia indica um problema persistente e crescente.<\/p>\n<p>O desafio alem&atilde;o n&atilde;o &eacute; escolher entre seguran&ccedil;a e direitos fundamentais. A democracia exige os dois. Um Estado pode combater radicaliza&ccedil;&atilde;o sem criminalizar comunidades. Pode proteger judeus, mu&ccedil;ulmanos, crist&atilde;os, pessoas sem religi&atilde;o e outros grupos minorit&aacute;rios sem estabelecer hierarquias de dignidade. Pode defender a liberdade de express&atilde;o sem aceitar a desumaniza&ccedil;&atilde;o de popula&ccedil;&otilde;es inteiras.<\/p>\n<p>O Dia contra o Racismo Antimu&ccedil;ulmano lembra que a viol&ecirc;ncia come&ccedil;a antes do ataque f&iacute;sico. Come&ccedil;a quando uma pessoa deixa de ser vista como indiv&iacute;duo e passa a ser lida como amea&ccedil;a. A resposta democr&aacute;tica precisa come&ccedil;ar no mesmo ponto: recusando a suspeita coletiva e afirmando que cidadania plena n&atilde;o pode depender da origem, do nome, da apar&ecirc;ncia ou da religi&atilde;o de algu&eacute;m.<\/p>\n<h2>Fontes e refer&ecirc;ncias<\/h2>\n<ul>\n<li>Minist&eacute;rio Federal da Fam&iacute;lia, Idosos, Mulheres e Juventude da Alemanha &mdash; informa&ccedil;&atilde;o sobre o 1&ordm; de julho, Marwa El-Sherbini e o Dia contra o Racismo Antimu&ccedil;ulmano.<br>\nLink: https:\/\/www.bmbfsfj.bund.de\/bmbfsfj\/aktuelles\/alle-meldungen\/lisa-paus-dankt-zivilgesellschaftlichen-organisationen-fuer-ihr-engagement-242012<\/li>\n<li>Cidade de Dresden &mdash; Marwa El-Sherbini Gedenktag.<br>\nLink: https:\/\/www.dresden.de\/de\/rathaus\/politik\/demokratie-respekt\/marwa-el-sherbini\/gedenktag.php<\/li>\n<li>Cidade de Dresden &mdash; p&aacute;gina oficial sobre Marwa El-Sherbini.<br>\nLink: https:\/\/www.dresden.de\/marwa<\/li>\n<li>CLAIM &mdash; Bundesweites Lagebild antimuslimischer Rassismus 2025.<br>\nLink: https:\/\/www.claim-organisation.de\/aktuelles\/news\/bundesweites-lagebild-antimuslimischer-rassismus-2025-veroeffentlicht\/<\/li>\n<li>CLAIM &mdash; Zivilgesellschaftliches Lagebild antimuslimischer Rassismus, relat&oacute;rio 2025 em PDF.<br>\nLink: https:\/\/www.claim-organisation.de\/content\/uploads\/2025\/06\/claim_lagebild25_250630_web.pdf<\/li>\n<li>Ag&ecirc;ncia dos Direitos Fundamentais da Uni&atilde;o Europeia (FRA) &mdash; Being Muslim in the EU: Experiences of Muslims, 2024.<br>\nLink: https:\/\/fra.europa.eu\/de\/publication\/2024\/being-muslim-eu<\/li>\n<li>FRA &mdash; comunicado sobre o aumento do racismo e da discrimina&ccedil;&atilde;o contra mu&ccedil;ulmanos na Europa.<br>\nLink: https:\/\/fra.europa.eu\/en\/news\/2024\/muslims-europe-face-ever-more-racism-and-discrimination<\/li>\n<li>Comiss&atilde;o Europeia &mdash; Combating anti-Muslim hatred.<br>\nLink: https:\/\/commission.europa.eu\/strategy-and-policy\/policies\/justice-and-fundamental-rights\/combatting-discrimination\/racism-and-xenophobia\/combating-anti-muslim-hatred_en<\/li>\n<li>Governo Federal alem&atilde;o \/ Demokratie leben! &mdash; Aktionswochen gegen antimuslimischen Rassismus 2025.<br>\nLink: https:\/\/www.demokratie-leben.de\/dl\/service\/aktuelles\/aktionswochen-gegen-antimuslimischen-rassismus-2025-265696<\/li>\n<li>Unabh&auml;ngiger Expertenkreis Muslimfeindlichkeit &mdash; Abschlussbericht sobre Muslimfeindlichkeit in Deutschland, 2023.<br>\nLink: https:\/\/www.deutsche-islam-konferenz.de\/SharedDocs\/Anlagen\/DE\/Publikationen\/Studien\/uem-abschlussbericht.pdf<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dia 1&ordm; de julho, lembrado na Alemanha como Dia contra o Racismo Antimu&ccedil;ulmano, remete ao assassinato de Marwa El-Sherbini, morta em 2009 dentro de um tribunal em Dresden. 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