{"id":912,"date":"2026-09-15T08:55:03","date_gmt":"2026-09-15T11:55:03","guid":{"rendered":"http:\/\/idea-draft-32"},"modified":"2026-09-15T09:07:52","modified_gmt":"2026-09-15T12:07:52","slug":"o-conflito-no-sudao-por-que-crises-humanitarias-recebem-pouca-atencao-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tatianamendonca.com\/temas\/geopolitica-diplomacia\/o-conflito-no-sudao-por-que-crises-humanitarias-recebem-pouca-atencao-global\/","title":{"rendered":"O conflito no Sud\u00e3o: por que crises humanit\u00e1rias recebem pouca aten\u00e7\u00e3o global"},"content":{"rendered":"<?xml encoding=\"utf-8\" ?><p>Enquanto aten&ccedil;&atilde;o internacional se concentra na guerra da Ucr&acirc;nia e no conflito em Gaza, o Sud&atilde;o vive, desde abril de 2023, a maior crise de deslocamento for&ccedil;ado do mundo, com cerca de 14 milh&otilde;es de pessoas expulsas de suas casas e dezenas de milhares de mortos &mdash; sem que o conflito receba cobertura midi&aacute;tica ou financiamento humanit&aacute;rio proporcional &agrave; sua escala. A guerra op&otilde;e as For&ccedil;as Armadas Sudanesas (SAF), lideradas pelo general Abdel Fattah al-Burhan, &agrave;s For&ccedil;as de Apoio R&aacute;pido (RSF), mil&iacute;cia paramilitar comandada por Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti &mdash; dois generais que um dia estiveram aliados e hoje disputam o controle de um dos maiores pa&iacute;ses da &Aacute;frica.<\/p>\n<p><strong>Das cinzas de uma revolu&ccedil;&atilde;o &agrave; guerra entre generais<\/strong><\/p>\n<p>Para entender o conflito atual, &eacute; preciso voltar a 2019, quando um levante popular derrubou o ditador Omar al-Bashir, no poder havia quase tr&ecirc;s d&eacute;cadas. Burhan e Hemedti uniram for&ccedil;as naquele momento, integrando um governo de transi&ccedil;&atilde;o junto a civis que prometia conduzir o Sud&atilde;o &agrave; democracia. A alian&ccedil;a, por&eacute;m, foi fr&aacute;gil: em outubro de 2021, os dois generais orquestraram um golpe conjunto contra o governo de transi&ccedil;&atilde;o, suspendendo a Constitui&ccedil;&atilde;o e interrompendo o processo democr&aacute;tico &mdash; decis&atilde;o que levou institui&ccedil;&otilde;es como o Banco Mundial e o FMI a suspenderem ajuda financeira ao pa&iacute;s.<\/p>\n<p>O rompimento definitivo entre SAF e RSF veio de desacordos sobre a integra&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as paramilitares ao Ex&eacute;rcito regular, disputa que escalou para confronto armado aberto em 15 de abril de 2023. A RSF tem origem na mil&iacute;cia Janjaweed, for&ccedil;a de maioria &aacute;rabe usada pelo regime de Bashir para reprimir rebeldes no sul do pa&iacute;s durante a Guerra de Darfur, no in&iacute;cio dos anos 2000 &mdash; conflito que j&aacute; havia matado mais de 200 mil pessoas e que a ONU classificou, &agrave; &eacute;poca, como genoc&iacute;dio.<\/p>\n<p><strong>O estado atual do conflito<\/strong><\/p>\n<p>Depois de tomar Cartum nos primeiros meses da guerra, a RSF foi expulsa da capital em uma grande ofensiva das SAF entre o fim de 2024 e mar&ccedil;o de 2025, quando o general Burhan declarou publicamente: &ldquo;Cartum est&aacute; livre&rdquo;. A cidade, por&eacute;m, ficou em ru&iacute;nas &mdash; hospitais, minist&eacute;rios e infraestrutura b&aacute;sica destru&iacute;dos, com dezenas de milhares de civis mortos ou deslocados apenas na capital. Em 2026, as SAF controlam a maior parte do centro e leste do pa&iacute;s, incluindo Porto Sud&atilde;o, enquanto a RSF concentra dom&iacute;nio sobre Darfur, no oeste, e trava batalhas pelo controle da regi&atilde;o central de Cordof&atilde;o, rica em ouro &mdash; recurso que financia diretamente o esfor&ccedil;o de guerra da mil&iacute;cia.<\/p>\n<p>A viol&ecirc;ncia tem componente &eacute;tnico cada vez mais expl&iacute;cito. Pesquisadores da ONU j&aacute; apontaram que ataques da RSF contra comunidades negras n&atilde;o &aacute;rabes, sobretudo na cidade de El-Fasher, em Darfur, apresentam caracter&iacute;sticas de genoc&iacute;dio. O chefe de direitos humanos da ONU, Volker T&uuml;rk, alertou que civis em campos de refugiados como os de Abu Shouk e Zamzam correm &ldquo;s&eacute;rio risco de ataques retaliat&oacute;rios com base em sua identidade tribal&rdquo;. Segundo dados do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de sudan&ecirc;s citados pela ag&ecirc;ncia Reuters, mais de 11 mil mortes foram formalmente documentadas, mas especialistas estimam que o excesso de mortes desde o in&iacute;cio da guerra j&aacute; soma centenas de milhares.<\/p>\n<p><strong>Uma guerra que ultrapassa fronteiras<\/strong><\/p>\n<p>O conflito sudan&ecirc;s deixou de ser puramente interno. Relatos indicam que uma cadeia de abastecimento militar parte dos Emirados &Aacute;rabes Unidos, passa pela L&iacute;bia &mdash; via Benghazi e Tobruk &mdash; e chega a Darfur, abastecendo a RSF, acusa&ccedil;&atilde;o que Abu Dhabi nega oficialmente. Do outro lado, as SAF utilizam drones turcos em larga escala e afirmam j&aacute; ter abatido aeronaves n&atilde;o tripuladas vindas de bases na Eti&oacute;pia. Em agosto de 2026, o governo do Chade colocou suas tropas em alerta m&aacute;ximo diante do risco de o conflito se espalhar para o territ&oacute;rio chadiano, que j&aacute; abriga centenas de milhares de refugiados sudaneses. A dimens&atilde;o regional da guerra &mdash; envolvendo direta ou indiretamente Chade, L&iacute;bia, Eti&oacute;pia, Emirados &Aacute;rabes Unidos e Turquia &mdash; ilustra como conflitos internos em Estados fr&aacute;geis frequentemente se transformam em arenas de disputa por influ&ecirc;ncia entre pot&ecirc;ncias regionais e globais.<\/p>\n<p><strong>Por que o Sud&atilde;o recebe t&atilde;o pouca aten&ccedil;&atilde;o?<\/strong><\/p>\n<p>Organiza&ccedil;&otilde;es humanit&aacute;rias chamam repetidamente o Sud&atilde;o de &ldquo;crise esquecida&rdquo; &mdash; termo que descreve conflitos de escala humanit&aacute;ria compar&aacute;vel, ou at&eacute; superior, a guerras que dominam manchetes internacionais, mas que n&atilde;o geram cobertura midi&aacute;tica, engajamento diplom&aacute;tico ou financiamento proporcionais. O apelo da ONU para ajuda humanit&aacute;ria ao Sud&atilde;o em 2026 est&aacute; financiado em apenas 17% do necess&aacute;rio, segundo a CNN Brasil, em um momento no qual os Estados Unidos reduziram drasticamente a ajuda externa e doadores europeus fizeram cortes or&ccedil;ament&aacute;rios, enquanto pot&ecirc;ncias do Golfo concentram doa&ccedil;&otilde;es em canais bilaterais fora dos mecanismos multilaterais da ONU.<\/p>\n<p>Estudiosos de comunica&ccedil;&atilde;o internacional apontam fatores estruturais para essa disparidade: a aus&ecirc;ncia de interesses geopol&iacute;ticos diretos de pot&ecirc;ncias ocidentais no desfecho do conflito, a dificuldade de acesso de jornalistas estrangeiros a zonas de combate no Sud&atilde;o, e vieses hist&oacute;ricos da cobertura internacional que tendem a priorizar conflitos com conex&atilde;o direta a interesses econ&ocirc;micos ou de seguran&ccedil;a das grandes pot&ecirc;ncias. A diretora da Oxfam para a &Aacute;frica, Fati N&rsquo;Zi-Hassane, classificou a ina&ccedil;&atilde;o internacional como &ldquo;um fracasso pol&iacute;tico retumbante&rdquo; diante da escala da trag&eacute;dia humanit&aacute;ria sudanesa.<\/p>\n<p><strong>A resposta humanit&aacute;ria vem de dentro<\/strong><\/p>\n<p>Diante do colapso da resposta internacional, a sociedade civil sudanesa organizou um dos modelos mais estudados de ajuda m&uacute;tua da atualidade: as chamadas Salas de Resposta Emergencial, redes horizontais lideradas por volunt&aacute;rios locais que distribuem alimentos, operam cozinhas comunit&aacute;rias e prestam socorro m&eacute;dico b&aacute;sico em meio ao conflito &mdash; iniciativa que chegou a ser indicada ao Pr&ecirc;mio Nobel da Paz. Essas redes, por&eacute;m, operam sob risco crescente: relatos indicam que volunt&aacute;rios t&ecirc;m sido mortos por ambos os lados do conflito, que desconfiam de qualquer estrutura organizada fora de seu controle direto.<\/p>\n<p>Em abril de 2026, Alemanha e Uni&atilde;o Africana organizaram, em Berlim, a Terceira Confer&ecirc;ncia Internacional sobre o Sud&atilde;o, tentativa de reunir apoio diplom&aacute;tico e financeiro para uma solu&ccedil;&atilde;o negociada &mdash; esfor&ccedil;o que, at&eacute; o momento, n&atilde;o produziu avan&ccedil;os concretos em dire&ccedil;&atilde;o a um cessar-fogo nacional. Segundo o Unicef, apenas entre janeiro e mar&ccedil;o de 2026, ao menos 160 crian&ccedil;as foram mortas e 85 ficaram mutiladas em todo o pa&iacute;s, um aumento de 50% em rela&ccedil;&atilde;o ao mesmo per&iacute;odo do ano anterior &mdash; dado que ilustra a deteriora&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua da situa&ccedil;&atilde;o, mesmo tr&ecirc;s anos ap&oacute;s o in&iacute;cio da guerra.<\/p>\n<p><strong>O que esperar daqui para frente<\/strong><\/p>\n<p>Analistas de rela&ccedil;&otilde;es internacionais avaliam que, sem press&atilde;o diplom&aacute;tica coordenada das grandes pot&ecirc;ncias &mdash; algo improv&aacute;vel dado o desinteresse estrat&eacute;gico ocidental na regi&atilde;o &mdash; o conflito sudan&ecirc;s tende a se arrastar em um empate militar sangrento, com o pa&iacute;s efetivamente fragmentado entre duas administra&ccedil;&otilde;es rivais: uma controlada pelas SAF no centro-leste, outra pela RSF no oeste. Esse cen&aacute;rio de fragmenta&ccedil;&atilde;o territorial prolongada tem paralelo hist&oacute;rico com outros conflitos africanos que combinam disputa de poder pol&iacute;tico com controle de recursos naturais, como diamantes ou petr&oacute;leo em guerras civis anteriores no continente &mdash; no caso sudan&ecirc;s, o ouro de Darfur e Cordof&atilde;o desempenha esse papel de financiar indefinidamente o esfor&ccedil;o b&eacute;lico de ambos os lados.<\/p>\n<p>Para estudantes, pesquisadores e jornalistas que acompanham o Sud&atilde;o, os eixos centrais a monitorar s&atilde;o: os desdobramentos da disputa por Cordof&atilde;o, o risco de expans&atilde;o regional do conflito para Chade, L&iacute;bia e Eti&oacute;pia, o financiamento cada vez mais insuficiente da resposta humanit&aacute;ria da ONU, e o papel crescente &mdash; e cada vez mais perigoso &mdash; das redes de ajuda m&uacute;tua lideradas por civis sudaneses como &uacute;ltima linha de defesa contra o colapso humanit&aacute;rio total do pa&iacute;s.<\/p>\n<p><strong>Refer&ecirc;ncias<\/strong><\/p>\n<p>WIKIP&Eacute;DIA. Guerra Civil no Sud&atilde;o (2023&ndash;presente). Dispon&iacute;vel em: https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Guerra_Civil_no_Sud%C3%A3o_(2023%E2%80%93presente). Acesso em: 14 set. 2026.<\/p>\n<p>CNN BRASIL. Por que o Sud&atilde;o est&aacute; em guerra e qual &eacute; o impacto? mai. 2026. Dispon&iacute;vel em: https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/internacional\/por-que-o-sudao-esta-em-guerra-e-qual-e-o-impacto\/. Acesso em: 14 set. 2026.<\/p>\n<p>TERRA. Crise esquecida, guerra mata milhares e gera fome no Sud&atilde;o. Dispon&iacute;vel em: https:\/\/www.terra.com.br\/noticias\/crise-esquecida-guerra-mata-milhares-e-gera-fome-no-sudao,a1c21558351aa78bf4ed5d4f02b0ab8bada62r8t.html. Acesso em: 14 set. 2026.<\/p>\n<p>INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS (IHU). Tr&ecirc;s anos de guerra no Sud&atilde;o: drones, ouro e um roteiro incerto. abr. 2026. Dispon&iacute;vel em: https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/664849-tres-anos-de-guerra-no-sudao-drones-ouro-e-um-roteiro-incerto-artigo-de-sarah-babiker. Acesso em: 14 set. 2026.<\/p>\n<p>VATICAN NEWS. Guerra no Sud&atilde;o amea&ccedil;a se espalhar e envolve pa&iacute;ses vizinhos. ago. 2026. Dispon&iacute;vel em: https:\/\/www.vaticannews.va\/pt\/mundo\/news\/2026-08\/guerra-sudao-ameaca-espalhar-paises-vizinhos.html. Acesso em: 14 set. 2026.<\/p>\n<p>CARE INTERNACIONAL. Sud&atilde;o: Uma crise esquecida &agrave; qual o mundo deve prestar aten&ccedil;&atilde;o agora. jan. 2024. Dispon&iacute;vel em: https:\/\/www.care.org\/pt\/news-and-stories\/press-releases\/sudan-a-forgotten-crisis-the-world-must-pay-attention-to-now\/. Acesso em: 14 set. 2026.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Sud\u00e3o vive, desde 2023, a maior crise de deslocamento for\u00e7ado do mundo \u2014 com 14 milh\u00f5es de pessoas expulsas de casa e dezenas de milhares de mortos \u2014, mas o conflito entre o Ex\u00e9rcito e a mil\u00edcia RSF segue sem cobertura midi\u00e1tica ou financiamento humanit\u00e1rio proporcionais \u00e0 sua escala.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"give_campaign_id":0,"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"initial","rop_publish_now_accounts":{"facebook_1005035685341291_1168996842959697":""},"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","ngg_post_thumbnail":0,"wpai_generated_summary":"","_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"wpai_meta_description":"","footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1153,3],"tags":[20,464,911,97,512,702,462,17,98,511],"class_list":["post-912","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa","category-geopolitica-diplomacia","tag-africa","tag-analise","tag-atencao-global","tag-conflitos-internacionais","tag-crise-humanitaria","tag-crises-humanitarias","tag-diplomacia","tag-geopolitica","tag-relacoes-internacionais","tag-sudao","et-doesnt-have-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/912","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=912"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/912\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4933,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/912\/revisions\/4933"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=912"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=912"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=912"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}