{"id":89,"date":"2026-04-03T11:30:16","date_gmt":"2026-04-03T14:30:16","guid":{"rendered":"https:\/\/tatianamendonca.com\/?p=89"},"modified":"2026-04-05T04:03:59","modified_gmt":"2026-04-05T07:03:59","slug":"trump-e-o-direito-internacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tatianamendonca.com\/temas\/geopolitica-diplomacia\/trump-e-o-direito-internacional\/","title":{"rendered":"Trump e o direito internacional"},"content":{"rendered":"<?xml encoding=\"utf-8\" ?><h2 data-section-id=\"1w73njb\" data-start=\"354\" data-end=\"393\">Poder, legalidade e unilateralismo<\/h2>\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\" data-start=\"395\" data-end=\"831\">As a&ccedil;&otilde;es recentes associadas a <span class=\"hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline\"><span class=\"whitespace-normal\">Donald Trump<\/span><\/span> reacenderam um debate central nas rela&ccedil;&otilde;es internacionais: at&eacute; que ponto grandes pot&ecirc;ncias est&atilde;o vinculadas &agrave;s normas do direito internacional no uso da for&ccedil;a. Em um contexto de crescente instabilidade global, decis&otilde;es pol&iacute;ticas e militares ligadas &agrave; atua&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos voltaram a expor uma tens&atilde;o hist&oacute;rica entre legalidade internacional e poder geopol&iacute;tico.<\/p>\r\n<p data-start=\"833\" data-end=\"1113\">O direito internacional estabelece limites claros. A Carta das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, em seu artigo 2(4), pro&iacute;be o uso da for&ccedil;a contra a integridade territorial ou independ&ecirc;ncia pol&iacute;tica de qualquer Estado, salvo em duas situa&ccedil;&otilde;es: leg&iacute;tima defesa ou autoriza&ccedil;&atilde;o do Conselho de Seguran&ccedil;a.<\/p>\r\n<p data-start=\"1115\" data-end=\"1232\">Na pr&aacute;tica, no entanto, essas regras t&ecirc;m sido frequentemente reinterpretadas &mdash; especialmente por pot&ecirc;ncias militares.<\/p>\r\n<h2 data-section-id=\"1ertbs9\" data-start=\"1234\" data-end=\"1277\">O precedente: ataques e justificativas<\/h2>\r\n<p data-start=\"1279\" data-end=\"1552\">Durante seu mandato, Trump tem autorizado opera&ccedil;&otilde;es militares controversas. Especialistas apontam que a no&ccedil;&atilde;o de &ldquo;amea&ccedil;a iminente&rdquo; foi ampliada para justificar a&ccedil;&otilde;es que, segundo muitos juristas, n&atilde;o atendem aos crit&eacute;rios tradicionais de proporcionalidade e necessidade.<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<p data-start=\"1750\" data-end=\"1985\">Segundo a professora de direito internacional Mary Ellen O&rsquo;Connell, da University of Notre Dame, esse tipo de interpreta&ccedil;&atilde;o &ldquo;enfraquece a proibi&ccedil;&atilde;o do uso da for&ccedil;a e abre espa&ccedil;o para a&ccedil;&otilde;es unilaterais fora do marco legal internacional&rdquo;.<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n<h2 data-section-id=\"1j5e35p\" data-start=\"2153\" data-end=\"2195\">Direito internacional vs. realpolitik<\/h2>\r\n<p data-start=\"2197\" data-end=\"2361\">A tens&atilde;o entre direito e poder n&atilde;o &eacute; nova. Como argumenta Hans Morgenthau, a pol&iacute;tica internacional &eacute; guiada pela l&oacute;gica do poder, e n&atilde;o pela moral ou pelo direito.<\/p>\r\n<p data-start=\"2363\" data-end=\"2551\">No caso dos Estados Unidos, essa din&acirc;mica se traduz em uma pr&aacute;tica recorrente de excecionalismo &mdash; a ideia de que o pa&iacute;s pode agir fora de determinadas regras em nome da seguran&ccedil;a nacional.<\/p>\r\n<p data-start=\"2749\" data-end=\"2892\">Essa l&oacute;gica se intensifica em contextos de competi&ccedil;&atilde;o global, nos quais o custo pol&iacute;tico de seguir normas internacionais &eacute; percebido como alto.<\/p>\r\n<h2 data-section-id=\"t3ksvu\" data-start=\"2894\" data-end=\"2930\">A eros&atilde;o da ordem internacional<\/h2>\r\n<p data-start=\"2932\" data-end=\"3052\">As a&ccedil;&otilde;es associadas a Trump tamb&eacute;m refletem uma tend&ecirc;ncia mais ampla: a eros&atilde;o da ordem internacional baseada em regras.<\/p>\r\n<p data-start=\"3054\" data-end=\"3262\">Relat&oacute;rios recentes do International Crisis Group e do Stockholm International Peace Research Institute apontam que o uso unilateral da for&ccedil;a tem aumentado, assim como a contesta&ccedil;&atilde;o das normas internacionais.<\/p>\r\n<p data-start=\"3264\" data-end=\"3344\">Quando pot&ecirc;ncias ignoram ou reinterpretam regras, isso gera um efeito sist&ecirc;mico:<\/p>\r\n<ul data-start=\"3345\" data-end=\"3468\">\r\n<li data-section-id=\"v5yyg8\" data-start=\"3345\" data-end=\"3386\">enfraquece institui&ccedil;&otilde;es multilaterais<\/li>\r\n<li data-section-id=\"6820e4\" data-start=\"3387\" data-end=\"3412\">reduz previsibilidade<\/li>\r\n<li data-section-id=\"1g0b7bs\" data-start=\"3413\" data-end=\"3468\">incentiva outros Estados a agir de forma semelhante<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<p data-start=\"3470\" data-end=\"3541\">Esse fen&ocirc;meno &eacute; frequentemente descrito como &ldquo;normaliza&ccedil;&atilde;o da exce&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\r\n<h2 data-section-id=\"ejtble\" data-start=\"3543\" data-end=\"3580\">O papel da ONU e suas limita&ccedil;&otilde;es<\/h2>\r\n<p data-start=\"3582\" data-end=\"3693\">A ONU continua sendo o principal mecanismo de regula&ccedil;&atilde;o do uso da for&ccedil;a, mas sua capacidade de a&ccedil;&atilde;o &eacute; limitada.<\/p>\r\n<p data-start=\"3695\" data-end=\"3818\">Decis&otilde;es mais robustas dependem do Conselho de Seguran&ccedil;a, onde o poder de veto frequentemente bloqueia respostas coletivas.<\/p>\r\n<p data-start=\"3820\" data-end=\"3945\">No caso dos Estados Unidos, sua posi&ccedil;&atilde;o como membro permanente permite atuar com relativa imunidade a san&ccedil;&otilde;es internacionais.<\/p>\r\n<p data-start=\"3947\" data-end=\"4040\">Esse desequil&iacute;brio refor&ccedil;a a percep&ccedil;&atilde;o de seletividade na aplica&ccedil;&atilde;o do direito internacional.<\/p>\r\n<h2 data-section-id=\"3jfs8f\" data-start=\"4677\" data-end=\"4701\">Implica&ccedil;&otilde;es globais<\/h2>\r\n<p data-start=\"4703\" data-end=\"4857\">As posi&ccedil;&otilde;es associadas a Trump n&atilde;o afetam apenas a pol&iacute;tica externa dos Estados Unidos &mdash; elas influenciam o comportamento de outros atores internacionais.<\/p>\r\n<p data-start=\"4859\" data-end=\"4939\">Quando normas s&atilde;o flexibilizadas por uma grande pot&ecirc;ncia, isso cria precedentes.<\/p>\r\n<p data-start=\"4941\" data-end=\"5113\">Pa&iacute;ses como R&uacute;ssia e China frequentemente utilizam argumentos semelhantes para justificar suas pr&oacute;prias a&ccedil;&otilde;es, o que contribui para um ambiente internacional mais inst&aacute;vel.<\/p>\r\n<p data-start=\"5115\" data-end=\"5193\">Esse efeito cumulativo pode levar a uma fragmenta&ccedil;&atilde;o do sistema internacional.<\/p>\r\n<h2 data-section-id=\"1epjn17\" data-start=\"5568\" data-end=\"5588\">An&aacute;lise cr&iacute;tica<\/h2>\r\n<p data-start=\"5590\" data-end=\"5724\">As a&ccedil;&otilde;es associadas a Donald Trump ilustram uma tend&ecirc;ncia estrutural das rela&ccedil;&otilde;es internacionais: a primazia do poder sobre o direito. O problema n&atilde;o &eacute; apenas jur&iacute;dico, mas pol&iacute;tico.<\/p>\r\n<p data-start=\"5775\" data-end=\"5895\">Enquanto o sistema internacional continuar baseado em assimetrias de poder, a aplica&ccedil;&atilde;o das normas tende a ser seletiva.<\/p>\r\n<p data-start=\"5897\" data-end=\"6020\">Nesse contexto, o direito internacional funciona mais como refer&ecirc;ncia normativa do que como mecanismo efetivo de restri&ccedil;&atilde;o.<\/p>\r\n<p data-start=\"6022\" data-end=\"6095\">A quest&atilde;o central, portanto, n&atilde;o &eacute; apenas se essas a&ccedil;&otilde;es s&atilde;o legais, mas:<\/p>\r\n<p data-start=\"6097\" data-end=\"6216\"><strong data-start=\"6097\" data-end=\"6216\">At&eacute; que ponto o direito internacional consegue limitar o uso da for&ccedil;a em um sistema dominado por grandes pot&ecirc;ncias?<\/strong><\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poder, legalidade e unilateralismo As a&ccedil;&otilde;es recentes associadas a Donald Trump reacenderam um debate central nas rela&ccedil;&otilde;es internacionais: at&eacute; que ponto grandes pot&ecirc;ncias est&atilde;o vinculadas &agrave;s normas do direito internacional no uso da for&ccedil;a. 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