{"id":2336,"date":"2026-09-13T08:32:48","date_gmt":"2026-09-13T11:32:48","guid":{"rendered":"https:\/\/tatianamendonca.com\/?p=2336"},"modified":"2026-09-13T08:34:44","modified_gmt":"2026-09-13T11:34:44","slug":"fim-de-uma-era-islandia-prepara-proibicao-definitiva-da-caca-comercial-as-baleias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tatianamendonca.com\/temas\/desenvolvimento-global\/fim-de-uma-era-islandia-prepara-proibicao-definitiva-da-caca-comercial-as-baleias\/","title":{"rendered":"Fim de uma era: Isl\u00e2ndia prepara proibi\u00e7\u00e3o definitiva da ca\u00e7a comercial \u00e0s baleias"},"content":{"rendered":"<?xml encoding=\"utf-8\" ?><p data-path-to-node=\"1\"><em>Em fevereiro de 2027, a Isl&acirc;ndia pretende submeter ao seu parlamento um projeto de lei para proibir definitivamente a ca&ccedil;a comercial &agrave;s baleias. Se aprovada, a medida far&aacute; com que o pa&iacute;s n&oacute;rdico se alinhe &agrave; esmagadora maioria da comunidade internacional, deixando a Noruega e o Jap&atilde;o ainda mais isolados na defesa da pr&aacute;tica. Embora a mudan&ccedil;a n&atilde;o elimine por completo as complexas tens&otilde;es entre conserva&ccedil;&atilde;o, tradi&ccedil;&atilde;o e soberania nacional, o caso island&ecirc;s demonstra que pol&iacute;ticas ambientais outrora estagnadas podem avan&ccedil;ar de forma decisiva quando a ci&ecirc;ncia, a opini&atilde;o p&uacute;blica e a engrenagem econ&ocirc;mica apontam na mesma dire&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n<h3 data-path-to-node=\"2\"><b data-path-to-node=\"2\" data-index-in-node=\"0\">Da morat&oacute;ria global &agrave; persist&ecirc;ncia das exce&ccedil;&otilde;es<\/b><\/h3>\n<p data-path-to-node=\"2\">A hist&oacute;ria moderna da prote&ccedil;&atilde;o aos cet&aacute;ceos tem seu marco regulat&oacute;rio centrado na Comiss&atilde;o Baleeira Internacional (CBI), que em 1982 aprovou uma morat&oacute;ria global sobre a ca&ccedil;a comercial, efetivada a partir de 1986. O objetivo era frear o colapso iminente de diversas popula&ccedil;&otilde;es de baleias, dizimadas por d&eacute;cadas de explora&ccedil;&atilde;o industrial descontrolada. No entanto, Isl&acirc;ndia, Noruega e Jap&atilde;o recusaram-se a abandonar a atividade de imediato, construindo ao longo dos anos diferentes bases e manobras jur&iacute;dicas para manter ou retomar seus programas de ca&ccedil;a, seja por meio de reservas formais &agrave; morat&oacute;ria ou sob o pol&ecirc;mico verniz da ca&ccedil;a com fins &ldquo;cient&iacute;ficos&rdquo;.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"3\">Neste cen&aacute;rio diplom&aacute;tico, &eacute; fundamental tra&ccedil;ar uma linha divis&oacute;ria clara entre a explora&ccedil;&atilde;o comercial e a ca&ccedil;a de subsist&ecirc;ncia praticada por povos ind&iacute;genas, como os inu&iacute;tes na Groenl&acirc;ndia e no Alasca. A CBI concede um tratamento jur&iacute;dico e &eacute;tico totalmente distinto a essas comunidades. Misturar a ca&ccedil;a de subsist&ecirc;ncia &mdash; que possui cotas estritas e &eacute; vital para a seguran&ccedil;a alimentar e cultural desses povos &mdash; &agrave; atividade comercial de grande escala operada por na&ccedil;&otilde;es ricas acaba por apagar diferen&ccedil;as antropol&oacute;gicas e econ&ocirc;micas essenciais, prejudicando o debate honesto sobre a conserva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h3 data-path-to-node=\"4\"><b data-path-to-node=\"4\" data-index-in-node=\"0\">O decl&iacute;nio de uma ind&uacute;stria e a ascens&atilde;o do turismo<\/b><\/h3>\n<p data-path-to-node=\"4\">A dr&aacute;stica mudan&ccedil;a de postura do governo island&ecirc;s n&atilde;o ocorre em um v&aacute;cuo pol&iacute;tico. Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, a outrora robusta ind&uacute;stria baleeira do pa&iacute;s encolheu a ponto de depender de uma &uacute;nica empresa ativa, a <i data-path-to-node=\"4\" data-index-in-node=\"260\">Hvalur hf.<\/i>, cuja viabilidade financeira tornou-se cada vez mais question&aacute;vel. A demanda dom&eacute;stica por carne de baleia despencou, e a depend&ecirc;ncia do mercado japon&ecirc;s provou-se insuficiente para manter a lucratividade das frotas.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"5\">Paralelamente, a legitimidade da ca&ccedil;a desmoronou internamente. Protestos de ativistas, somados a relat&oacute;rios contundentes de autoridades veterin&aacute;rias islandesas detalhando o intenso sofrimento animal prolongado durante o abate com arp&otilde;es explosivos, chocaram a popula&ccedil;&atilde;o. Ao mesmo tempo, o turismo de observa&ccedil;&atilde;o de baleias (<i data-path-to-node=\"5\" data-index-in-node=\"323\">whale watching<\/i>) explodiu em cidades como Reykjav&iacute;k e H&uacute;sav&iacute;k. A economia local descobriu, na pr&aacute;tica, que uma baleia viva nadando nos fiordes gera dividendos muito maiores e cont&iacute;nuos do que um animal abatido. Com essa transi&ccedil;&atilde;o de paradigma econ&ocirc;mico, o custo pol&iacute;tico para os legisladores de banir a pr&aacute;tica tornou-se infinitamente menor.<\/p>\n<h3 data-path-to-node=\"6\"><b data-path-to-node=\"6\" data-index-in-node=\"0\">O embate entre tradi&ccedil;&atilde;o, soberania e &ldquo;arrog&acirc;ncia cultural&rdquo;<\/b><\/h3>\n<p data-path-to-node=\"6\">Apesar do iminente banimento na Isl&acirc;ndia, os defensores ferrenhos da ca&ccedil;a mant&ecirc;m uma ret&oacute;rica pol&iacute;tica articulada. Eles argumentam que Estados costeiros e insulares possuem o direito inalien&aacute;vel de utilizar seus recursos marinhos &mdash; incluindo os cet&aacute;ceos &mdash; de maneira soberana, desde que os estoques populacionais permitam um manejo sustent&aacute;vel.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"7\">H&aacute;, tamb&eacute;m, um forte componente de orgulho nacionalista. Na&ccedil;&otilde;es baleeiras frequentemente rejeitam as cr&iacute;ticas de ONGs e governos ocidentais, classificando-as como demonstra&ccedil;&otilde;es de arrog&acirc;ncia cultural, eco-imperialismo ou seletividade hip&oacute;crita, apontando para a forma como o pr&oacute;prio Ocidente industrializa o abate de bovinos e su&iacute;nos. Esse argumento pol&iacute;tico merece ser ouvido nas mesas de negocia&ccedil;&atilde;o diplom&aacute;tica. Contudo, a mera sustentabilidade matem&aacute;tica de uma popula&ccedil;&atilde;o animal n&atilde;o anula o grave problema &eacute;tico atrelado ao m&eacute;todo de abate em alto-mar, tampouco mascara a realidade de que, no s&eacute;culo XXI, a necessidade econ&ocirc;mica e nutricional para a manuten&ccedil;&atilde;o dessa ind&uacute;stria j&aacute; n&atilde;o se sustenta.<\/p>\n<h3 data-path-to-node=\"8\"><b data-path-to-node=\"8\" data-index-in-node=\"0\">A vulnerabilidade da baleia-fin e o imperativo ecol&oacute;gico<\/b><\/h3>\n<p data-path-to-node=\"8\">A principal v&iacute;tima da frota comercial islandesa tem sido a baleia-fin (<i data-path-to-node=\"8\" data-index-in-node=\"128\">Balaenoptera physalus<\/i>), o segundo maior animal do planeta. Atualmente, a esp&eacute;cie est&aacute; classificada como vulner&aacute;vel na Lista Vermelha da Uni&atilde;o Internacional para a Conserva&ccedil;&atilde;o da Natureza (IUCN). Embora as avalia&ccedil;&otilde;es populacionais variem consideravelmente de acordo com a regi&atilde;o oce&acirc;nica, a ci&ecirc;ncia moderna exige cautela.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"9\">Pol&iacute;ticas ambientais respons&aacute;veis n&atilde;o podem se basear apenas em contar indiv&iacute;duos para definir cotas de abate. Elas precisam integrar dados multifacetados por esp&eacute;cie, considerando o bem-estar animal, o princ&iacute;pio da precau&ccedil;&atilde;o e, crucialmente, o papel ecol&oacute;gico dos cet&aacute;ceos. Baleias s&atilde;o &ldquo;engenheiras&rdquo; dos oceanos: elas fertilizam o fitopl&acirc;ncton e atuam como gigantescos sumidouros de carbono. A lenta recupera&ccedil;&atilde;o de uma popula&ccedil;&atilde;o, ap&oacute;s um s&eacute;culo de matan&ccedil;a, n&atilde;o transforma automaticamente qualquer nova explora&ccedil;&atilde;o em uma pr&aacute;tica ecologicamente aceit&aacute;vel.<\/p>\n<h3 data-path-to-node=\"10\"><b data-path-to-node=\"10\" data-index-in-node=\"0\">O futuro do bloco baleeiro: Noruega e Jap&atilde;o na mira<\/b><\/h3>\n<p data-path-to-node=\"10\">A eventual sa&iacute;da da Isl&acirc;ndia do clube das na&ccedil;&otilde;es baleeiras aumentar&aacute; drasticamente a press&atilde;o diplom&aacute;tica e midi&aacute;tica sobre a Noruega e o Jap&atilde;o. Ambos os pa&iacute;ses mant&ecirc;m posi&ccedil;&otilde;es firmes: Oslo estabelece suas pr&oacute;prias cotas anuais com base em sua obje&ccedil;&atilde;o legal &agrave; morat&oacute;ria de 1986, enquanto T&oacute;quio, ap&oacute;s abandonar formalmente a CBI em 2019, retomou a ca&ccedil;a comercial aberta em suas &aacute;guas territoriais e zonas econ&ocirc;micas exclusivas.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"11\">A resili&ecirc;ncia de Noruega e Jap&atilde;o diante das cr&iacute;ticas sugere que o ativismo de confronto puro tem limites. Historicamente, a coopera&ccedil;&atilde;o ambiental global tende a funcionar de maneira mais eficaz quando oferece incentivos &agrave; pesquisa cient&iacute;fica conjunta e apoia o desenvolvimento de alternativas econ&ocirc;micas s&oacute;lidas, em vez de recorrer exclusivamente &agrave; condena&ccedil;&atilde;o moral externa. A transi&ccedil;&atilde;o islandesa prova que as na&ccedil;&otilde;es mudam de rumo de dentro para fora, quando suas pr&oacute;prias sociedades concluem que velhos h&aacute;bitos j&aacute; n&atilde;o servem ao seu futuro.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"11\">&nbsp;<\/p>\n<h4 data-path-to-node=\"13\"><b data-path-to-node=\"13\" data-index-in-node=\"0\">Refer&ecirc;ncias<\/b><\/h4>\n<p data-path-to-node=\"14\">COMISS&Atilde;O BALEEIRA INTERNACIONAL (IWC). <i data-path-to-node=\"14\" data-index-in-node=\"39\">Commercial Whaling<\/i>. Cambridge, [2026]. Dispon&iacute;vel em: <a class=\"ng-star-inserted\" href=\"https:\/\/www.google.com\/search?q=https:\/\/iwc.int\/commercial-whaling\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\" data-hveid=\"0\" data-ved=\"0CAAQ_4QMahcKEwj3k_unueuWAxUAAAAAHQAAAAAQKA\">https:\/\/iwc.int\/commercial-whaling<\/a>. Acesso em: 13 set. 2026.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"15\">REUTERS. <i data-path-to-node=\"15\" data-index-in-node=\"9\">Iceland to propose whaling ban<\/i>. Londres, 10 set. 2026. Dispon&iacute;vel em: <a class=\"ng-star-inserted\" href=\"https:\/\/www.reuters.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\" data-hveid=\"0\" data-ved=\"0CAAQ_4QMahcKEwj3k_unueuWAxUAAAAAHQAAAAAQKQ\">https:\/\/www.reuters.com<\/a>. Acesso em: 13 set. 2026.<\/p>\n<p data-path-to-node=\"16\">UNI&Atilde;O INTERNACIONAL PARA A CONSERVA&Ccedil;&Atilde;O DA NATUREZA (IUCN). <i data-path-to-node=\"16\" data-index-in-node=\"59\">Balaenoptera physalus<\/i>. The IUCN Red List of Threatened Species. Gland, Su&iacute;&ccedil;a, [2026]. Dispon&iacute;vel em: <a class=\"ng-star-inserted\" href=\"https:\/\/www.iucnredlist.org\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\" data-hveid=\"0\" data-ved=\"0CAAQ_4QMahcKEwj3k_unueuWAxUAAAAAHQAAAAAQKg\">https:\/\/www.iucnredlist.org<\/a>. Acesso em: 13 set. 2026.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo island\u00eas prepara uma proibi\u00e7\u00e3o permanente da ca\u00e7a comercial \u00e0s baleias. 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