{"id":2270,"date":"2026-08-22T19:54:24","date_gmt":"2026-08-22T22:54:24","guid":{"rendered":"https:\/\/tatianamendonca.com\/?p=2270"},"modified":"2026-08-22T20:06:00","modified_gmt":"2026-08-22T23:06:00","slug":"diplomacia-sob-pressao-ira-gaza-ucrania-e-novas-disputas-revelam-um-sistema-internacional-mais-fragmentado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tatianamendonca.com\/temas\/geopolitica-diplomacia\/diplomacia-sob-pressao-ira-gaza-ucrania-e-novas-disputas-revelam-um-sistema-internacional-mais-fragmentado\/","title":{"rendered":"Diplomacia sob press\u00e3o: Ir\u00e3, Gaza, Ucr\u00e2nia e novas disputas revelam um sistema internacional mais fragmentado"},"content":{"rendered":"<?xml encoding=\"utf-8\" ?><p><em>A intensifica&ccedil;&atilde;o das san&ccedil;&otilde;es norte-americanas contra o Ir&atilde;, o impasse pol&iacute;tico em Gaza, a crescente tens&atilde;o entre Israel e Turquia na S&iacute;ria e a escalada de ataques contra infraestrutura econ&ocirc;mica na guerra entre R&uacute;ssia e Ucr&acirc;nia revelam um cen&aacute;rio internacional em que a diplomacia continua ativa, mas disputa espa&ccedil;o com coer&ccedil;&atilde;o, press&otilde;es econ&ocirc;micas e for&ccedil;a militar. Entre negocia&ccedil;&otilde;es que avan&ccedil;am lentamente e governos que ainda acreditam poder melhorar sua posi&ccedil;&atilde;o antes de fazer concess&otilde;es, cresce tamb&eacute;m o desafio para pot&ecirc;ncias m&eacute;dias como o Brasil: preservar autonomia estrat&eacute;gica e defender o multilateralismo em uma ordem internacional cada vez mais fragmentada.<\/em><\/p>\n<h2>Ir&atilde; e Estados Unidos: a diplomacia continua, mas sob coer&ccedil;&atilde;o<\/h2>\n<p>A rela&ccedil;&atilde;o entre Estados Unidos e Ir&atilde; voltou a combinar san&ccedil;&otilde;es, amea&ccedil;as e negocia&ccedil;&otilde;es indiretas.<\/p>\n<p>Washington prepara uma nova ofensiva econ&ocirc;mica contra Teer&atilde;. O secret&aacute;rio do Tesouro dos Estados Unidos, <strong>Scott Bessent<\/strong>, afirmou que o governo pretende aplicar medidas ainda mais severas contra o pa&iacute;s. A estrat&eacute;gia busca aumentar a press&atilde;o sobre a economia iraniana e tamb&eacute;m atingir parceiros comerciais que ajudam Teer&atilde; a contornar as restri&ccedil;&otilde;es. O Ir&atilde; considera as medidas ileg&iacute;timas e acusa Washington de utilizar coer&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica extraterritorial.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Scott Bessent, secret&aacute;rio do Tesouro dos Estados Unidos:<\/strong><br>\n&ldquo;The toughest sanctions in history.&rdquo;<br>\n<strong>Em portugu&ecirc;s:<\/strong> &ldquo;As san&ccedil;&otilde;es mais duras da hist&oacute;ria.&rdquo;<\/p><\/blockquote>\n<p>O conflito tem uma dimens&atilde;o que ultrapassa amplamente a rela&ccedil;&atilde;o bilateral: o <strong>Estreito de Hormuz<\/strong>. Antes da atual crise, aproximadamente um quinto dos fluxos mundiais de petr&oacute;leo e g&aacute;s natural liquefeito passava pela regi&atilde;o. O tr&aacute;fego mar&iacute;timo caiu drasticamente ap&oacute;s ataques contra embarca&ccedil;&otilde;es e restri&ccedil;&otilde;es iranianas &agrave; navega&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O Iraque, altamente dependente da exporta&ccedil;&atilde;o de petr&oacute;leo, precisou negociar diretamente com Teer&atilde; para obter permiss&atilde;o para que alguns de seus navios atravessassem o estreito.<\/p>\n<p>Isso demonstra uma caracter&iacute;stica cl&aacute;ssica das Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais: Estados militarmente inferiores podem possuir instrumentos capazes de produzir custos significativos para pot&ecirc;ncias mais fortes quando controlam recursos, rotas comerciais ou pontos geogr&aacute;ficos estrat&eacute;gicos.<\/p>\n<p>A Turquia tamb&eacute;m tenta ocupar espa&ccedil;o diplom&aacute;tico. O presidente <strong>Recep Tayyip Erdo&#287;an<\/strong> pediu a Donald Trump que priorizasse negocia&ccedil;&otilde;es com Teer&atilde; e ofereceu apoio turco a uma sa&iacute;da diplom&aacute;tica.<\/p>\n<p>A quest&atilde;o central n&atilde;o &eacute; apenas se Washington e Teer&atilde; est&atilde;o dispostos a conversar. &Eacute; saber quando os dois lados passar&atilde;o a considerar um acordo mais vantajoso do que a continua&ccedil;&atilde;o da press&atilde;o.<\/p>\n<h2>Gaza: negocia&ccedil;&atilde;o existe, mas a ordem das concess&otilde;es bloqueia o acordo<\/h2>\n<p>Em Gaza, h&aacute; v&aacute;rios mediadores, mas permanece uma diverg&ecirc;ncia fundamental entre Israel e Hamas sobre quem deve agir primeiro.<\/p>\n<p>O plano atualmente discutido prev&ecirc; o desarmamento do Hamas, retirada progressiva das for&ccedil;as israelenses, reconstru&ccedil;&atilde;o de Gaza e transfer&ecirc;ncia da administra&ccedil;&atilde;o para uma estrutura palestina que n&atilde;o seja controlada pelo grupo.<\/p>\n<p>O primeiro-ministro israelense, <strong>Benjamin Netanyahu<\/strong>, mant&eacute;m a posi&ccedil;&atilde;o de que Israel n&atilde;o far&aacute; uma retirada significativa enquanto o Hamas n&atilde;o estiver completamente desarmado.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel:<\/strong><br>\n&ldquo;Israel does not accept the 15-point document.&rdquo;<br>\n<strong>Em portugu&ecirc;s:<\/strong> &ldquo;Israel n&atilde;o aceita o documento de 15 pontos.&rdquo;<\/p><\/blockquote>\n<p>Netanyahu acrescentou que n&atilde;o deveria haver retirada antes de um desarmamento completo, incluindo armas pesadas e leves.<\/p>\n<p>O Hamas, por outro lado, afirma aceitar uma rota de desmilitariza&ccedil;&atilde;o, mas condiciona sua implementa&ccedil;&atilde;o ao fim dos ataques israelenses e &agrave; retirada das for&ccedil;as de Israel.<\/p>\n<p>O impasse &eacute;, portanto, tamb&eacute;m um problema de <strong>sequenciamento<\/strong>: Israel quer desarmamento antes da retirada; o Hamas quer garantias de retirada e cessa&ccedil;&atilde;o dos ataques antes de concluir o desarmamento.<\/p>\n<p>Essa diferen&ccedil;a ajuda a explicar por que um cessar-fogo n&atilde;o equivale automaticamente a um processo de paz.<\/p>\n<p>O documento <strong>United Nations Guidance for Effective Mediation<\/strong>, elaborado pelas Na&ccedil;&otilde;es Unidas, identifica consentimento, imparcialidade, inclus&atilde;o, respeito ao direito internacional, coordena&ccedil;&atilde;o entre mediadores e qualidade dos acordos como elementos fundamentais para uma media&ccedil;&atilde;o eficaz.<\/p>\n<p>Mas um mediador pode propor compromissos sem possuir capacidade suficiente para obrigar as partes a execut&aacute;-los.<\/p>\n<h2>Ben-Gvir e a radicaliza&ccedil;&atilde;o do debate pol&iacute;tico israelense<\/h2>\n<p>As negocia&ccedil;&otilde;es sobre Gaza tamb&eacute;m enfrentam press&otilde;es vindas da pr&oacute;pria pol&iacute;tica dom&eacute;stica israelense.<\/p>\n<p>O ministro da Seguran&ccedil;a Nacional de Israel, <strong>Itamar Ben-Gvir<\/strong>, l&iacute;der do partido de extrema direita Otzma Yehudit, criticou a redu&ccedil;&atilde;o dos ataques israelenses em Gaza e defendeu uma pol&iacute;tica muito mais agressiva.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Itamar Ben-Gvir, ministro da Seguran&ccedil;a Nacional de Israel:<\/strong><br>\n&ldquo;Taking down 30 to 40 every night.&rdquo;<br>\n<strong>Em portugu&ecirc;s:<\/strong> &ldquo;Eliminar de 30 a 40 todas as noites.&rdquo;<\/p><\/blockquote>\n<p>Ben-Gvir acrescentou:<\/p>\n<blockquote><p><strong>Itamar Ben-Gvir:<\/strong><br>\n&ldquo;They&rsquo;re not even people.&rdquo;<br>\n<strong>Em portugu&ecirc;s:<\/strong> &ldquo;Eles nem sequer s&atilde;o pessoas.&rdquo;<\/p><\/blockquote>\n<div style=\"position: relative; width: 100%; max-width: 360px; height: 0; padding-bottom: 44.45%; overflow: hidden; margin: 20px auto;\"><iframe style=\"position: absolute; top: 0; left: 0; width: 100%; height: 100%;\" title=\"Itamar Ben-Gvir interview\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aljV8z-ULrc\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><br>\n<\/iframe><\/div>\n<p>As declara&ccedil;&otilde;es foram feitas durante uma conversa com o ex-ref&eacute;m Rom Braslavski. Ben-Gvir tamb&eacute;m voltou a defender a sa&iacute;da de palestinos de Gaza e o reassentamento israelense do territ&oacute;rio.<\/p>\n<p>&Eacute; importante diferenciar sua posi&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica institucional como um todo. Ben-Gvir &eacute; ministro e integra uma coaliz&atilde;o de governo, mas <strong>n&atilde;o comanda as For&ccedil;as Armadas israelenses e n&atilde;o possui autoridade para ordenar ataques militares em Gaza<\/strong>. Suas posi&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m n&atilde;o representam toda a sociedade israelense.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, n&atilde;o podem ser tratadas como irrelevantes. Como ministro da Seguran&ccedil;a Nacional, Ben-Gvir exerce influ&ecirc;ncia sobre a pol&iacute;cia e o sistema penitenci&aacute;rio e participa de uma coaliz&atilde;o cuja sobreviv&ecirc;ncia pol&iacute;tica afeta diretamente as decis&otilde;es de Netanyahu.<\/p>\n<p>Sob o Direito Internacional Humanit&aacute;rio, declara&ccedil;&otilde;es que tratem uma popula&ccedil;&atilde;o inteira como alvo leg&iacute;timo merecem aten&ccedil;&atilde;o particular. O princ&iacute;pio da distin&ccedil;&atilde;o exige que combatentes e civis sejam diferenciados; a condi&ccedil;&atilde;o de pertencer a determinado povo, territ&oacute;rio ou grupo pol&iacute;tico n&atilde;o transforma automaticamente uma pessoa em alvo militar.<\/p>\n<h2>Israel e Turquia: a S&iacute;ria abre uma nova frente de disputa<\/h2>\n<p>A rela&ccedil;&atilde;o entre Israel e Turquia tamb&eacute;m se deteriorou.<\/p>\n<p>Israel atacou a base a&eacute;rea s&iacute;ria de <strong>Abu al-Duhur<\/strong>, afirmando possuir informa&ccedil;&otilde;es de que for&ccedil;as turcas poderiam ser instaladas no local. A Turquia negou que estivesse preparando esse tipo de deslocamento militar e afirmou que sua coopera&ccedil;&atilde;o com Damasco estava limitada principalmente a treinamento e interc&acirc;mbio de experi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>O ministro da Defesa israelense, <strong>Israel Katz<\/strong>, acusou Ancara de ampliar perigosamente sua presen&ccedil;a regional.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Israel Katz, ministro da Defesa de Israel:<\/strong><br>\n&ldquo;Dangerous adventures in Syria.&rdquo;<br>\n<strong>Em portugu&ecirc;s:<\/strong> &ldquo;Aventuras perigosas na S&iacute;ria.&rdquo;<\/p><\/blockquote>\n<p>O governo turco respondeu acusando Israel de realizar ataques &ldquo;reckless&rdquo; &mdash; <strong>&ldquo;imprudentes&rdquo;<\/strong> &mdash; e de violar a soberania territorial s&iacute;ria.<\/p>\n<p>Aqui existem duas narrativas distintas.<\/p>\n<p>Israel argumenta que uma presen&ccedil;a militar turca pr&oacute;xima de &aacute;reas consideradas sens&iacute;veis pode alterar sua seguran&ccedil;a estrat&eacute;gica. A Turquia afirma que Israel n&atilde;o possui direito de atacar territ&oacute;rio s&iacute;rio com base em uma poss&iacute;vel presen&ccedil;a futura de for&ccedil;as turcas.<\/p>\n<p>A S&iacute;ria, por sua vez, negou que houvesse acordo para instalar uma base turca permanente.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos tentaram evitar uma escalada. O enviado especial norte-americano para a S&iacute;ria, <strong>Tom Barrack<\/strong>, classificou o ataque israelense como:<\/p>\n<blockquote><p><strong>Tom Barrack, enviado especial dos Estados Unidos para a S&iacute;ria:<\/strong><br>\n&ldquo;An unnecessary escalation.&rdquo;<br>\n<strong>Em portugu&ecirc;s:<\/strong> &ldquo;Uma escalada desnecess&aacute;ria.&rdquo;<\/p><\/blockquote>\n<p>Washington agora tenta criar um mecanismo de comunica&ccedil;&atilde;o entre Israel, Turquia e S&iacute;ria para evitar confrontos provocados por erros de c&aacute;lculo.<\/p>\n<p>O epis&oacute;dio &eacute; especialmente relevante porque a Turquia &eacute; membro da OTAN e uma pot&ecirc;ncia militar regional. Uma escalada direta com Israel colocaria Washington diante de interesses de seguran&ccedil;a conflitantes entre dois de seus principais parceiros na regi&atilde;o.<\/p>\n<h2>Ucr&acirc;nia e R&uacute;ssia: infraestrutura econ&ocirc;mica torna-se alvo estrat&eacute;gico<\/h2>\n<p>Na guerra entre R&uacute;ssia e Ucr&acirc;nia, o combate est&aacute; cada vez mais voltado para a capacidade econ&ocirc;mica do advers&aacute;rio.<\/p>\n<p>A Ucr&acirc;nia ampliou ataques com drones contra refinarias, dep&oacute;sitos e instala&ccedil;&otilde;es log&iacute;sticas russas. Kyiv afirma que esses alvos sustentam financeiramente e materialmente o esfor&ccedil;o de guerra de Moscou.<\/p>\n<p>A R&uacute;ssia respondeu com ataques contra infraestrutura econ&ocirc;mica ucraniana, incluindo instala&ccedil;&otilde;es ligadas &agrave; exporta&ccedil;&atilde;o de gr&atilde;os pelo Mar Negro.<\/p>\n<p>O presidente russo <strong>Vladimir Putin<\/strong> respondeu &agrave;s opera&ccedil;&otilde;es ucranianas com uma advert&ecirc;ncia.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Vladimir Putin, presidente da Federa&ccedil;&atilde;o Russa:<\/strong><br>\n&ldquo;It opened this Pandora&rsquo;s box itself.&rdquo;<br>\n<strong>Em portugu&ecirc;s:<\/strong> &ldquo;Ela pr&oacute;pria abriu essa caixa de Pandora.&rdquo;<\/p><\/blockquote>\n<p>Putin afirmou ainda que Moscou pretende responder contra setores considerados particularmente sens&iacute;veis da economia ucraniana.<\/p>\n<p>A R&uacute;ssia sustenta que pode compensar eventuais perdas de exporta&ccedil;&otilde;es agr&iacute;colas ucranianas e evitar escassez internacional de alimentos. Kyiv, entretanto, afirma que os ataques russos procuram destruir sua capacidade econ&ocirc;mica e prejudicar uma das principais fontes de receita do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>A dimens&atilde;o internacional &eacute; evidente. Ataques contra portos e exporta&ccedil;&atilde;o de cereais podem atingir pa&iacute;ses que n&atilde;o participam diretamente da guerra, sobretudo economias importadoras da &Aacute;frica e do Oriente M&eacute;dio.<\/p>\n<p>A guerra entre R&uacute;ssia e Ucr&acirc;nia &eacute;, portanto, simultaneamente uma guerra territorial, econ&ocirc;mica, energ&eacute;tica e alimentar.<\/p>\n<h2>Quando os advers&aacute;rios realmente ficam dispostos a negociar?<\/h2>\n<p>O cientista pol&iacute;tico <strong>I. William Zartman<\/strong>, professor da Johns Hopkins University e importante pesquisador de negocia&ccedil;&atilde;o internacional, desenvolveu uma abordagem &uacute;til para interpretar situa&ccedil;&otilde;es desse tipo.<\/p>\n<p>Seu conceito de <strong>&ldquo;mutually hurting stalemate&rdquo;<\/strong>, ou <strong>&ldquo;impasse mutuamente doloroso&rdquo;<\/strong>, descreve uma situa&ccedil;&atilde;o em que os advers&aacute;rios concluem que n&atilde;o conseguem vencer a um custo aceit&aacute;vel e que continuar o confronto ser&aacute; cada vez mais prejudicial.<\/p>\n<p>Zartman escreve que um:<\/p>\n<blockquote><p><strong>I. William Zartman, Johns Hopkins University:<\/strong><br>\n&ldquo;mutually hurting stalemate is a necessary but insufficient condition.&rdquo;<br>\n<strong>Em portugu&ecirc;s:<\/strong> &ldquo;um impasse mutuamente doloroso &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria, mas insuficiente.&rdquo;<\/p><\/blockquote>\n<p>O pesquisador ressalta que o fator determinante &eacute; a <strong>percep&ccedil;&atilde;o<\/strong> das partes.<\/p>\n<p>Uma guerra pode ser objetivamente devastadora e continuar porque os dirigentes ainda acreditam que mais algumas semanas ou meses de press&atilde;o poder&atilde;o melhorar suas condi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Esse princ&iacute;pio ajuda a compreender tanto Ucr&acirc;nia quanto Gaza e Ir&atilde;.<\/p>\n<p>Em todos esses casos, a diplomacia existe. O problema &eacute; que pelo menos alguns dos atores ainda consideram a coer&ccedil;&atilde;o uma alternativa potencialmente mais vantajosa.<\/p>\n<h2>Brasil: autonomia estrat&eacute;gica entre Washington, Pequim e o Sul Global<\/h2>\n<p>Para o Brasil, essas crises n&atilde;o s&atilde;o distantes.<\/p>\n<p>O governo brasileiro mant&eacute;m uma tradi&ccedil;&atilde;o diplom&aacute;tica baseada em solu&ccedil;&atilde;o pac&iacute;fica de controv&eacute;rsias, multilateralismo e busca por autonomia nas rela&ccedil;&otilde;es com as grandes pot&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>Na quest&atilde;o palestina, o Brasil reconhece oficialmente o Estado da Palestina desde 2010 e mant&eacute;m apoio &agrave; solu&ccedil;&atilde;o de dois Estados: Israel e Palestina coexistindo em paz e seguran&ccedil;a, com um Estado palestino independente e vi&aacute;vel nas fronteiras de 1967 e Jerusal&eacute;m Oriental como sua capital.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, documentos oficiais brasileiros tamb&eacute;m defendem a liberta&ccedil;&atilde;o de ref&eacute;ns israelenses e a cessa&ccedil;&atilde;o permanente das hostilidades.<\/p>\n<p>A posi&ccedil;&atilde;o brasileira apresenta, portanto, cr&iacute;ticas especialmente fortes &agrave; ocupa&ccedil;&atilde;o e &agrave;s opera&ccedil;&otilde;es israelenses contra palestinos, mas n&atilde;o implica apoio &agrave;s a&ccedil;&otilde;es armadas do Hamas.<\/p>\n<p>Em mar&ccedil;o de 2026, Brasil, Col&ocirc;mbia e M&eacute;xico reiteraram que disputas entre Estados devem ser resolvidas pela diplomacia e pediram cessar-fogo imediato no Oriente M&eacute;dio para permitir negocia&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>A autonomia brasileira tamb&eacute;m aparece em outra &aacute;rea fundamental da competi&ccedil;&atilde;o internacional: tecnologia.<\/p>\n<p>O governo anunciou aproximadamente <strong>R$ 2,3 bilh&otilde;es<\/strong> para ampliar a infraestrutura nacional de intelig&ecirc;ncia artificial. Parte dos projetos envolve empresas chinesas, como Huawei e iFlytek; outra parte dever&aacute; utilizar tecnologia da norte-americana Nvidia. O objetivo declarado &eacute; evitar depend&ecirc;ncia excessiva de uma &uacute;nica pot&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica.<\/p>\n<p>Simultaneamente, Bras&iacute;lia enfrenta uma disputa comercial com Washington. Lula e Donald Trump conversaram diretamente sobre tarifas de 25% impostas pelos Estados Unidos a determinadas importa&ccedil;&otilde;es brasileiras, e os dois governos decidiram continuar negociando.<\/p>\n<p>A pol&iacute;tica externa brasileira encontra-se, assim, diante de um dilema t&iacute;pico das pot&ecirc;ncias m&eacute;dias: cooperar com Estados Unidos, China, Uni&atilde;o Europeia, BRICS e outros pa&iacute;ses do Sul Global sem transformar rela&ccedil;&otilde;es estrat&eacute;gicas em alinhamento autom&aacute;tico.<\/p>\n<h2>Conclus&atilde;o<\/h2>\n<p>Os conflitos atuais mostram que a crise da diplomacia internacional n&atilde;o est&aacute; necessariamente na aus&ecirc;ncia de negocia&ccedil;&atilde;o, mas na dificuldade de transformar negocia&ccedil;&atilde;o em limite efetivo ao uso da for&ccedil;a. Israel pode reivindicar preocupa&ccedil;&otilde;es leg&iacute;timas de seguran&ccedil;a, assim como civis israelenses t&ecirc;m direito &agrave; prote&ccedil;&atilde;o contra ataques e sequestros; isso n&atilde;o elimina as obriga&ccedil;&otilde;es de distinguir civis de combatentes, evitar puni&ccedil;&otilde;es coletivas e respeitar as regras da ocupa&ccedil;&atilde;o e da guerra. Da mesma forma, viola&ccedil;&otilde;es cometidas pelo Hamas n&atilde;o anulam os direitos da popula&ccedil;&atilde;o palestina, assim como a invas&atilde;o russa da Ucr&acirc;nia n&atilde;o torna irrelevante a prote&ccedil;&atilde;o de civis russos ou as regras aplic&aacute;veis &agrave;s opera&ccedil;&otilde;es ucranianas. Na tens&atilde;o entre Israel e Turquia, preocupa&ccedil;&otilde;es estrat&eacute;gicas tamb&eacute;m n&atilde;o substituem a necessidade de respeitar a soberania territorial s&iacute;ria e evitar escaladas preventivas sem base jur&iacute;dica suficiente. &Agrave; luz da Carta das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, do Direito Internacional Humanit&aacute;rio e dos Direitos Humanos, seguran&ccedil;a n&atilde;o pode significar autoriza&ccedil;&atilde;o ilimitada para a for&ccedil;a. &Eacute; nesse ponto que uma perspectiva progressista e baseada em direitos se diferencia de um simples alinhamento pol&iacute;tico: o padr&atilde;o jur&iacute;dico deve valer para aliados e advers&aacute;rios, para Estados poderosos e grupos armados, e sobretudo para as popula&ccedil;&otilde;es civis que continuam pagando o maior pre&ccedil;o pela incapacidade dos governos de transformar diplomacia em paz.<\/p>\n<h3>Refer&ecirc;ncias<\/h3>\n<p><strong>ZARTMAN, I. William.<\/strong> <em>Mediation: Ripeness and its Challenges in the Middle East<\/em>. International Negotiation, v. 20, n. 3, 2015.<br>\n<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1163\/15718069-12341317?utm_source=chatgpt.com\" rel=\"nofollow\">Artigo acad&ecirc;mico &mdash; Brill<\/a><\/p>\n<p><strong>UNITED NATIONS.<\/strong> <em>United Nations Guidance for Effective Mediation<\/em>. New York, 2012.<br>\n<a href=\"https:\/\/peacemaker.un.org\/en\/documents\/united-nations-guidance-effective-mediation-0?utm_source=chatgpt.com\" rel=\"nofollow\">Documento das Na&ccedil;&otilde;es Unidas<\/a><\/p>\n<p><strong>ASSOCIATED PRESS.<\/strong> <em>Israel&rsquo;s Ben-Gvir advocates killing &ldquo;30 to 40&rdquo; people in Gaza nightly while speaking to ex-hostage<\/em>. 16 ago. 2026.<br>\n<a href=\"https:\/\/apnews.com\/article\/53f98e92686746f3c9bccd7cf59f26ad?utm_source=chatgpt.com\" rel=\"nofollow\">Associated Press &mdash; Ben-Gvir e Gaza<\/a><\/p>\n<p><strong>REUTERS.<\/strong> <em>Iran condemns US plans to announce new sanctions<\/em>. 22 ago. 2026.<br>\n<a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/middle-east\/us-iran-keep-up-hostile-rhetoric-ahead-new-sanctions-2026-08-22\/?utm_source=chatgpt.com\" rel=\"nofollow\">Reuters &mdash; Estados Unidos e Ir&atilde;<\/a><\/p>\n<p><strong>REUTERS.<\/strong> <em>Putin says Ukraine opened &ldquo;Pandora&rsquo;s box&rdquo; with strikes on economic targets<\/em>. 22 ago. 2026.<br>\n<a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/europe\/putin-says-ukraine-opened-pandoras-box-with-strikes-economic-targets-2026-08-22\/?utm_source=chatgpt.com\" rel=\"nofollow\">Reuters &mdash; R&uacute;ssia e Ucr&acirc;nia<\/a><\/p>\n<p><strong>REUTERS.<\/strong> <em>Israel and Turkey step up warnings over Syria after airbase bombing<\/em>. 20 ago. 2026.<br>\n<a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/middle-east\/syria-says-no-turkish-military-build-up-planned-airbase-struck-by-israel-2026-08-20\/?utm_source=chatgpt.com\" rel=\"nofollow\">Reuters &mdash; Israel, Turquia e S&iacute;ria<\/a><\/p>\n<p><strong>REUTERS.<\/strong> <em>Brazil launches AI supercomputer push, splits projects between Chinese, US firms<\/em>. 20 ago. 2026.<br>\n<a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/americas\/brazil-launches-ai-supercomputer-push-splits-projects-between-chinese-us-firms-2026-08-20\/?utm_source=chatgpt.com\" rel=\"nofollow\">Reuters &mdash; Brasil, China e Estados Unidos<\/a><\/p>\n<p><strong>BRASIL. Minist&eacute;rio das Rela&ccedil;&otilde;es Exteriores.<\/strong> <em>An&uacute;ncio do reconhecimento pela Fran&ccedil;a do Estado da Palestina<\/em>.<br>\n<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mre\/pt-br\/canais_atendimento\/imprensa\/notas-a-imprensa\/anuncio-do-reconhecimento-pela-franca-do-estado-da-palestina?utm_source=chatgpt.com\" rel=\"nofollow\">Itamaraty &mdash; posi&ccedil;&atilde;o brasileira sobre Palestina<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A intensifica&ccedil;&atilde;o das san&ccedil;&otilde;es norte-americanas contra o Ir&atilde;, o impasse pol&iacute;tico em Gaza, a crescente tens&atilde;o entre Israel e Turquia na S&iacute;ria e a escalada de ataques contra infraestrutura econ&ocirc;mica na guerra entre R&uacute;ssia e Ucr&acirc;nia revelam um cen&aacute;rio internacional em que a diplomacia continua ativa, mas disputa espa&ccedil;o com coer&ccedil;&atilde;o, press&otilde;es econ&ocirc;micas e for&ccedil;a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2273,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"no","rop_publish_now_accounts":{"facebook_1005035685341291_1168996842959697":""},"rop_publish_now_history":[{"account":"facebook_1005035685341291_1168996842959697","service":"facebook","timestamp":1787439907,"status":"queued"}],"rop_publish_now_status":"queued","ngg_post_thumbnail":0,"wpai_generated_summary":"","_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"wpai_meta_description":"","footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[3],"tags":[1054,483,956,482,97,462,70,713,123,840,452,563,105,17,892,118,1098,529,451,570,847,304,486,87,22,504,571,553,1185,532,524,502,453,583,503,78,18,534,544,500,952],"class_list":["post-2270","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geopolitica-diplomacia","tag-acordo","tag-autonomia","tag-benjamin-netanyahu","tag-brasil","tag-conflitos-internacionais","tag-diplomacia","tag-direito-internacional","tag-disputas","tag-donald-trump","tag-estados","tag-estados-unidos","tag-estrategia","tag-gaza","tag-geopolitica","tag-governos","tag-guerra","tag-hamas","tag-impasse","tag-ira","tag-israel","tag-militar","tag-multilateralismo","tag-negociacao","tag-ordem-internacional","tag-medio-oriente","tag-oriente-medio","tag-palestina","tag-paz","tag-paz-resolucao-de-conflitos","tag-potencias","tag-retirada","tag-russia","tag-sancoes","tag-seguranca-nacional","tag-siria","tag-sistema-internacional","tag-sul-global","tag-territorio","tag-turquia","tag-ucrania","tag-vladimir-putin","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Blog_23_08_2026.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2270","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2270"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2270\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2278,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2270\/revisions\/2278"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2273"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2270"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2270"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2270"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}