{"id":1786,"date":"2026-07-26T15:49:00","date_gmt":"2026-07-26T18:49:00","guid":{"rendered":"https:\/\/tatianamendonca.com\/?p=1786"},"modified":"2026-09-12T00:53:04","modified_gmt":"2026-09-12T03:53:04","slug":"racismo-estrutural-e-colonialidade-na-formacao-da-ordem-internacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tatianamendonca.com\/temas\/direitos-humanos\/racismo-estrutural-e-colonialidade-na-formacao-da-ordem-internacional\/","title":{"rendered":"Racismo estrutural e colonialidade na forma\u00e7\u00e3o da ordem internacional"},"content":{"rendered":"<?xml encoding=\"utf-8\" ?><h1><strong>Racismo estrutural e colonialidade na forma&ccedil;&atilde;o da ordem internacional<\/strong><\/h1>\n<p><em>Racismo estrutural n&atilde;o &eacute; apenas uma soma de atitudes individuais. Ele aparece quando institui&ccedil;&otilde;es, regras econ&ocirc;micas, fronteiras, sistemas de conhecimento e hierarquias internacionais continuam produzindo desigualdades raciais mesmo sem declarar abertamente uma inten&ccedil;&atilde;o racista. Nas Rela&ccedil;&otilde;es Internacionais, essa discuss&atilde;o &eacute; indispens&aacute;vel porque a ordem mundial moderna foi formada junto com colonialismo, escravid&atilde;o, explora&ccedil;&atilde;o de territ&oacute;rios e classifica&ccedil;&atilde;o racial de povos. Falar de colonialidade &eacute; reconhecer que o fim formal dos imp&eacute;rios coloniais n&atilde;o eliminou as estruturas de poder que organizaram o mundo entre centro e periferia, civiliza&ccedil;&atilde;o e atraso, humanidade plena e humanidade subordinada.<\/em><\/p>\n<h2>Racismo como estrutura global<\/h2>\n<p>Durante s&eacute;culos, a expans&atilde;o europeia justificou domina&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, extra&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e viol&ecirc;ncia em nome de miss&atilde;o civilizat&oacute;ria, religi&atilde;o, ci&ecirc;ncia racial e progresso. Povos africanos, ind&iacute;genas, asi&aacute;ticos e afrodescendentes foram colocados em posi&ccedil;&otilde;es inferiores dentro de uma hierarquia global que definia quem podia governar, produzir conhecimento, possuir terras e circular livremente.<\/p>\n<p>Esse passado n&atilde;o desapareceu com a independ&ecirc;ncia formal das col&ocirc;nias. Ele permanece em padr&otilde;es de com&eacute;rcio, d&iacute;vida externa, controle tecnol&oacute;gico, desigualdade no acesso a vacinas, pol&iacute;ticas migrat&oacute;rias seletivas e baixa representa&ccedil;&atilde;o do Sul Global em institui&ccedil;&otilde;es internacionais. A colonialidade, conceito trabalhado por autores latino-americanos como An&iacute;bal Quijano, ajuda a nomear justamente essa perman&ecirc;ncia: a continuidade de formas coloniais de poder depois do fim jur&iacute;dico do colonialismo.<\/p>\n<p>A Declara&ccedil;&atilde;o e Programa de A&ccedil;&atilde;o de Durban, adotada em 2001, reconhece que escravid&atilde;o, tr&aacute;fico transatl&acirc;ntico de pessoas escravizadas, colonialismo e apartheid produziram consequ&ecirc;ncias duradouras e est&atilde;o entre as causas profundas de desigualdades contempor&acirc;neas. Isso desloca o debate do plano moral para o plano pol&iacute;tico: combater racismo exige enfrentar institui&ccedil;&otilde;es, mem&oacute;ria hist&oacute;rica, repara&ccedil;&atilde;o e distribui&ccedil;&atilde;o de poder.<\/p>\n<h2>A hierarquia racial das fronteiras<\/h2>\n<p>As pol&iacute;ticas migrat&oacute;rias mostram como a ordem internacional continua racializada. Passaportes n&atilde;o t&ecirc;m o mesmo valor. Pessoas de pa&iacute;ses ricos circulam com muito mais facilidade, enquanto cidad&atilde;os do Sul Global enfrentam vistos, suspeita permanente, controles biom&eacute;tricos, deten&ccedil;&otilde;es e risco de deporta&ccedil;&atilde;o. A fronteira funciona como filtro econ&ocirc;mico, mas tamb&eacute;m como filtro racial e colonial.<\/p>\n<p>Essa l&oacute;gica aparece quando refugiados s&atilde;o tratados de forma diferente conforme nacionalidade, religi&atilde;o ou cor da pele. Tamb&eacute;m aparece quando profissionais altamente qualificados do Sul Global s&atilde;o aceitos como m&atilde;o de obra necess&aacute;ria, mas suas comunidades s&atilde;o vistas como problema cultural. O migrante &eacute; desejado como trabalhador e rejeitado como sujeito pol&iacute;tico. Essa contradi&ccedil;&atilde;o revela que o racismo estrutural n&atilde;o depende apenas de insultos expl&iacute;citos; ele opera por meio de regras aparentemente neutras.<\/p>\n<h2>Conhecimento, m&iacute;dia e poder de narrar<\/h2>\n<p>A colonialidade tamb&eacute;m est&aacute; presente na produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento. Universidades, centros de pesquisa, editoras, think tanks e grandes meios de comunica&ccedil;&atilde;o do Norte Global continuam tendo enorme poder para definir quais crises importam, quais autores s&atilde;o citados, quais conflitos recebem aten&ccedil;&atilde;o e quais popula&ccedil;&otilde;es aparecem apenas como v&iacute;timas, amea&ccedil;a ou atraso.<\/p>\n<p>Isso n&atilde;o significa rejeitar todo conhecimento produzido no Norte, mas questionar sua posi&ccedil;&atilde;o dominante. Durante muito tempo, teorias internacionais apresentaram a experi&ecirc;ncia europeia como modelo universal de Estado, soberania, democracia e desenvolvimento, enquanto outras experi&ecirc;ncias foram tratadas como exce&ccedil;&otilde;es ou objetos de estudo. Uma perspectiva decolonial pergunta quem fala, de onde fala e quais hist&oacute;rias foram silenciadas para que uma narrativa parecesse universal.<\/p>\n<h2>Repara&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; apenas passado<\/h2>\n<p>O debate sobre repara&ccedil;&otilde;es por escravid&atilde;o e colonialismo costuma gerar resist&ecirc;ncia porque muitos Estados preferem transformar o passado em mem&oacute;ria simb&oacute;lica sem consequ&ecirc;ncias materiais. Mas repara&ccedil;&atilde;o n&atilde;o significa apenas indeniza&ccedil;&atilde;o individual. Pode envolver reconhecimento hist&oacute;rico, devolu&ccedil;&atilde;o de bens culturais, reforma educacional, combate &agrave; desigualdade racial, financiamento para desenvolvimento, revis&atilde;o de pr&aacute;ticas policiais e participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica de comunidades afetadas.<\/p>\n<p>A ONU tem refor&ccedil;ado que racismo, xenofobia e discrimina&ccedil;&atilde;o seguem presentes em sociedades de todas as regi&otilde;es. <strong>O Dia Internacional para a Elimina&ccedil;&atilde;o da Discrimina&ccedil;&atilde;o Racial<\/strong>, lembrado em 21 de mar&ccedil;o, nasceu da mem&oacute;ria do massacre de Sharpeville, na &Aacute;frica do Sul, quando manifestantes contra o apartheid foram mortos pela pol&iacute;cia em 1960. A data lembra que o racismo &eacute; uma estrutura de Estado, n&atilde;o apenas um preconceito social.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1788 alignleft\" src=\"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg.webp\" alt=\"\" width=\"166\" height=\"166\" srcset=\"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg.webp 800w, https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg-300x300.webp 300w, https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg-150x150.webp 150w, https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg-768x768.webp 768w, https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg-440x440.webp 440w, https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg-600x600.webp 600w, https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg-100x100.webp 100w\" sizes=\"(max-width: 166px) 100vw, 166px\"><\/p>\n<blockquote style=\"padding-left: 40px;\">\n<p style=\"padding-left: 40px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>&ldquo;The ancient poison of racism is alive and kicking in every community, society, country and region of the world&hellip; <\/em><em>The antidote is unity and action.&rdquo;<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><strong><small>UN Secretary-General Ant&oacute;nio Guterres<\/small><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>Uma ordem internacional ainda seletiva<\/h2>\n<p>A seletividade aparece tamb&eacute;m no modo como o Direito Internacional &eacute; aplicado. Algumas viola&ccedil;&otilde;es recebem san&ccedil;&otilde;es r&aacute;pidas, tribunais, cobertura midi&aacute;tica e isolamento diplom&aacute;tico. Outras s&atilde;o relativizadas quando envolvem aliados estrat&eacute;gicos, interesses econ&ocirc;micos ou pot&ecirc;ncias ocidentais. Essa diferen&ccedil;a de tratamento alimenta a percep&ccedil;&atilde;o de que a ordem internacional fala em universalidade, mas pratica hierarquia.<\/p>\n<p>Por isso, combater racismo estrutural na pol&iacute;tica internacional exige mais do que diversidade em confer&ecirc;ncias. Exige reforma das institui&ccedil;&otilde;es multilaterais, democratiza&ccedil;&atilde;o do conhecimento, justi&ccedil;a clim&aacute;tica, financiamento ao desenvolvimento, enfrentamento da d&iacute;vida, prote&ccedil;&atilde;o de migrantes e reconhecimento das continuidades coloniais nas rela&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas e diplom&aacute;ticas.<\/p>\n<p>O racismo estrutural n&atilde;o organiza apenas sociedades nacionais; ele tamb&eacute;m atravessa a arquitetura do mundo. A colonialidade permanece quando alguns pa&iacute;ses continuam sendo vistos como produtores de crise, m&atilde;o de obra barata ou recursos naturais, enquanto outros se apresentam como &aacute;rbitros da civiliza&ccedil;&atilde;o, dos direitos e da democracia. Uma ordem internacional verdadeiramente antirracista n&atilde;o ser&aacute; constru&iacute;da apenas com declara&ccedil;&otilde;es. Ela exigir&aacute; mem&oacute;ria, repara&ccedil;&atilde;o, redistribui&ccedil;&atilde;o de poder e escuta real das vozes que foram historicamente colocadas &agrave; margem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Fontes e refer&ecirc;ncias<\/h2>\n<p><strong>&ndash; United Nations &ndash; International Day for the Elimination of Racial Discrimination. <\/strong>Link: https:\/\/www.un.org\/en\/observances\/end-racism-day<\/p>\n<p><strong>&ndash; United Nations &ndash; Durban Declaration and Programme of Action. <\/strong>Link: https:\/\/www.un.org\/en\/fight-racism\/background\/durban-declaration-and-programme-of-action<\/p>\n<p><strong>&ndash; OHCHR &ndash; International Convention on the Elimination of All Forms of Racial Discrimination. <\/strong>Link: https:\/\/www.ohchr.org\/en\/instruments-mechanisms\/instruments\/international-convention-elimination-all-forms-racial<\/p>\n<p><strong>&ndash; OHCHR &ndash; Working Group of Experts on People of African Descent. <\/strong>Link: https:\/\/www.ohchr.org\/en\/special-procedures\/wg-african-descent<\/p>\n<p><strong>&ndash; UNESCO &ndash; Breaking free from racial representations inherited from slavery. <\/strong>Link: https:\/\/www.unesco.org\/en\/articles\/breaking-free-racial-representations-inherited-slavery<\/p>\n<p><strong>&ndash; United Nations &ndash; Permanent Forum on People of African Descent <\/strong>Link: https:\/\/www.ohchr.org\/en\/permanent-forum-people-african-descent<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Racismo estrutural e colonialidade na forma&ccedil;&atilde;o da ordem internacional Racismo estrutural n&atilde;o &eacute; apenas uma soma de atitudes individuais. 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