{"id":1111,"date":"2026-09-15T08:55:51","date_gmt":"2026-09-15T11:55:51","guid":{"rendered":"http:\/\/idea-draft-288"},"modified":"2026-09-15T08:59:01","modified_gmt":"2026-09-15T11:59:01","slug":"o-nacionalismo-de-trump-mudou-o-sistema-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tatianamendonca.com\/uncategorized\/o-nacionalismo-de-trump-mudou-o-sistema-global\/","title":{"rendered":"O nacionalismo de Trump mudou o sistema global?"},"content":{"rendered":"<?xml encoding=\"utf-8\" ?><p>Poucas quest&otilde;es dividem tanto analistas de rela&ccedil;&otilde;es internacionais quanto o real alcance do impacto de Donald Trump sobre a arquitetura da ordem internacional liderada pelos Estados Unidos desde 1945. Para uns, o chamado &ldquo;nacionalismo America First&rdquo; representa uma ruptura hist&oacute;rica com d&eacute;cadas de lideran&ccedil;a multilateral americana; para outros, trata-se de uma acelera&ccedil;&atilde;o &mdash; n&atilde;o uma cria&ccedil;&atilde;o &mdash; de tend&ecirc;ncias de desgaste que j&aacute; vinham corroendo essa ordem havia anos, independentemente de quem ocupasse a Casa Branca.<\/p>\n<p><strong>O diagn&oacute;stico da ruptura<\/strong><\/p>\n<p>Defensores da tese de ruptura apontam para uma s&eacute;rie de medidas concretas do segundo governo Trump, iniciado em janeiro de 2025: a imposi&ccedil;&atilde;o de tarifas comerciais amplas contra parceiros hist&oacute;ricos, incluindo aliados como M&eacute;xico, Canad&aacute; e pa&iacute;ses da Uni&atilde;o Europeia; questionamentos p&uacute;blicos recorrentes sobre o valor da Otan e da prote&ccedil;&atilde;o militar americana a aliados que, na vis&atilde;o do presidente, &ldquo;n&atilde;o pagam sua parte&rdquo;; e uma disposi&ccedil;&atilde;o declarada de agir unilateralmente mesmo em quest&otilde;es que tradicionalmente envolveriam consulta multilateral &mdash; como a opera&ccedil;&atilde;o militar direta que capturou o ent&atilde;o presidente venezuelano Nicol&aacute;s Maduro em janeiro de 2026, sem autoriza&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita do Conselho de Seguran&ccedil;a da ONU.<\/p>\n<p>Para cientistas pol&iacute;ticos alinhados a essa leitura, como os que se inspiram na tradi&ccedil;&atilde;o liberal institucionalista de rela&ccedil;&otilde;es internacionais, esse padr&atilde;o de comportamento mina a credibilidade dos compromissos americanos de longo prazo, incentivando aliados a buscar autonomia estrat&eacute;gica pr&oacute;pria &mdash; movimento j&aacute; vis&iacute;vel na acelera&ccedil;&atilde;o do rearmamento europeu liderado por Alemanha e Fran&ccedil;a, e na diversifica&ccedil;&atilde;o de parcerias comerciais e de seguran&ccedil;a por parte de pa&iacute;ses como &Iacute;ndia, Jap&atilde;o e Coreia do Sul, que hoje cultivam simultaneamente la&ccedil;os mais pr&oacute;ximos com Washington e hedge estrat&eacute;gico com outras pot&ecirc;ncias, incluindo a China.<\/p>\n<p><strong>O contra-argumento: continuidade sob nova ret&oacute;rica<\/strong><\/p>\n<p>Analistas da tradi&ccedil;&atilde;o realista de rela&ccedil;&otilde;es internacionais, por outro lado, argumentam que o comportamento transacional de Trump &eacute; menos uma anomalia radical e mais uma manifesta&ccedil;&atilde;o mais expl&iacute;cita de din&acirc;micas de poder que sempre estiveram presentes na pol&iacute;tica externa americana &mdash; apenas menos disfar&ccedil;adas por ret&oacute;rica multilateral tradicional. Segundo essa leitura, presidentes democratas e republicanos anteriores tamb&eacute;m usaram institui&ccedil;&otilde;es multilaterais de forma seletiva quando convinha aos interesses nacionais americanos, e o &ldquo;decl&iacute;nio&rdquo; da ordem liberal internacional j&aacute; vinha sendo diagnosticado por acad&ecirc;micos havia mais de uma d&eacute;cada, associado a fatores estruturais como a ascens&atilde;o econ&ocirc;mica da China, o fracasso de interven&ccedil;&otilde;es militares no Iraque e Afeganist&atilde;o, e o descontentamento dom&eacute;stico crescente com os custos da globaliza&ccedil;&atilde;o em economias ocidentais.<\/p>\n<p>Nessa vis&atilde;o, o BRICS ampliado, a Nova Rota da Seda chinesa e a crescente autonomia diplom&aacute;tica de pot&ecirc;ncias m&eacute;dias como Brasil, &Iacute;ndia e &Aacute;frica do Sul j&aacute; sinalizavam uma transi&ccedil;&atilde;o estrutural em dire&ccedil;&atilde;o a um sistema internacional mais multipolar antes mesmo do retorno de Trump ao poder &mdash; processo que ele teria acelerado, mas n&atilde;o originado.<\/p>\n<p><strong>O que os dados mostram<\/strong><\/p>\n<p>Empiricamente, alguns indicadores sustentam parcialmente ambas as leituras. Dados do SIPRI mostram aumento expressivo nas importa&ccedil;&otilde;es de armas por pa&iacute;ses europeus desde 2022, tend&ecirc;ncia que se intensificou ainda mais sob a atual administra&ccedil;&atilde;o americana, sugerindo que aliados europeus est&atilde;o, de fato, reduzindo sua depend&ecirc;ncia estrat&eacute;gica direta dos EUA. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos seguem sendo, disparadamente, o maior exportador de armas do mundo e o principal fiador de seguran&ccedil;a em negocia&ccedil;&otilde;es de conflitos ativos, como a guerra na Ucr&acirc;nia e o cessar-fogo em Gaza &mdash; evidenciando que, apesar da ret&oacute;rica nacionalista, a capacidade de proje&ccedil;&atilde;o de poder americana permanece central para a resolu&ccedil;&atilde;o de crises internacionais.<\/p>\n<p>Organismos multilaterais tamb&eacute;m n&atilde;o colapsaram: a ONU, o G20 e o FMI seguem funcionando, ainda que sob tens&atilde;o crescente e questionamentos frequentes sobre sua legitimidade e efic&aacute;cia. O que parece ter mudado de forma mais percept&iacute;vel &eacute; o grau de previsibilidade da pol&iacute;tica externa americana &mdash; um fator que a literatura de rela&ccedil;&otilde;es internacionais associa diretamente &agrave; capacidade de um hegemon sustentar a confian&ccedil;a de seus aliados ao longo do tempo.<\/p>\n<p><strong>Uma quest&atilde;o em aberto<\/strong><\/p>\n<p>Se o nacionalismo de Trump representa uma inflex&atilde;o definitiva ou apenas um cap&iacute;tulo turbulento dentro de uma trajet&oacute;ria mais longa de transi&ccedil;&atilde;o para um mundo multipolar &eacute; uma pergunta que, para a maioria dos especialistas, s&oacute; poder&aacute; ser respondida com mais dist&acirc;ncia hist&oacute;rica. O que j&aacute; parece consensual entre observadores de diferentes correntes te&oacute;ricas &eacute; que a confian&ccedil;a autom&aacute;tica de d&eacute;cadas passadas na lideran&ccedil;a multilateral americana n&atilde;o pode mais ser dada como certa por seus aliados tradicionais &mdash; independentemente de quem ocupe a Casa Branca nos pr&oacute;ximos ciclos eleitorais.<\/p>\n<p><strong>Refer&ecirc;ncias<\/strong><\/p>\n<p>SIPRI. Trends in International Arms Transfers 2025. Estocolmo, mar. 2026. Dispon&iacute;vel em: https:\/\/www.sipri.org\/. Acesso em: 14 set. 2026.<\/p>\n<p>IKENBERRY, G. John. A Liberal International Order in Crisis. Ethics &amp; International Affairs, v. 32, n. 1, 2018.<\/p>\n<p>MEARSHEIMER, John J. The Great Delusion: Liberal Dreams and International Realities. New Haven: Yale University Press, 2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Analistas de rela\u00e7\u00f5es internacionais divergem: para uns, a diplomacia &#8220;America First&#8221; de Trump rompe d\u00e9cadas de lideran\u00e7a multilateral dos EUA; para outros, apenas acelera uma transi\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 multipolaridade que j\u00e1 estava em curso. Veja os dois lados do debate.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"give_campaign_id":0,"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"initial","rop_publish_now_accounts":{"facebook_1005035685341291_1168996842959697":""},"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","ngg_post_thumbnail":0,"wpai_generated_summary":"","_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"wpai_meta_description":"","footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1152,3],"tags":[868,309,87,15,98,877,871,867,1194],"class_list":["post-1111","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-do-norte","category-geopolitica-diplomacia","tag-escandalos","tag-nacionalismo","tag-ordem-internacional","tag-poder-global","tag-relacoes-internacionais","tag-sistema-global","tag-trump","tag-trump-elites-lobby","tag-trump-elites-lobby-escandalos","et-doesnt-have-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1111","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1111"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1111\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4944,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1111\/revisions\/4944"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1111"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1111"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tatianamendonca.com\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1111"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}