Alfabetização costuma ser associada à capacidade de ler e escrever, mas seus efeitos vão muito além da escola. Quem não consegue compreender uma carta do governo, um contrato de trabalho, uma receita médica, uma notícia eleitoral ou as condições de um serviço digital enfrenta obstáculos concretos para exercer direitos. Em uma sociedade democrática, alfabetização significa também autonomia: permite buscar informação, questionar autoridades, reconhecer manipulação, participar de debates e tomar decisões sem depender permanentemente da interpretação de outras pessoas.
Sessenta anos de uma data que transformou alfabetização em direito
O Dia Internacional da Alfabetização foi proclamado pela UNESCO em 1966 e é celebrado desde 1967. Em 2026, ao completar 60 anos, a data tem como tema “Literacy for people, the planet and prosperity” — “Alfabetização para as pessoas, o planeta e a prosperidade”, relacionando alfabetização não apenas ao desenvolvimento econômico, mas também à inclusão, à paz e à capacidade de participar de sociedades em rápida transformação.
Essa compreensão está ligada ao próprio direito à educação. O artigo 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos determina que a educação deve visar ao pleno desenvolvimento da personalidade humana e ao fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. Portanto, a escola não existe apenas para preparar trabalhadores; ela também deveria formar pessoas capazes de conhecer seus direitos e participar da vida coletiva.
Manos Antoninis, diretor do Global Education Monitoring Report da UNESCO, resumiu essa relação entre conhecimento e cidadania ao discutir educação e Estado de Direito:
“People can only claim the justice they know they are entitled to.”
— “As pessoas só podem reivindicar a justiça à qual sabem que têm direito.”
É uma frase particularmente importante para compreender alfabetização como poder. Um direito desconhecido ou incompreensível pode existir formalmente e continuar inacessível na prática.
O mundo escolarizou mais crianças — mas a crise de aprendizagem permanece
O avanço educacional das últimas décadas é expressivo. Em 2024, havia 1,4 bilhão de estudantes matriculados, e as matrículas no ensino primário e secundário haviam aumentado cerca de 30% desde 2000. Mesmo assim, o GEM Report 2026 calcula que 273 milhões de crianças e jovens continuavam fora da escola em 2024. Desde 2015, a redução da exclusão escolar praticamente estagnou e, nos países de baixa renda, 36% da população em idade escolar permanecia fora da escola.
Estar matriculado também não significa necessariamente aprender. A UNESCO estima que quatro em cada dez crianças no mundo não alcançam o nível mínimo de proficiência em leitura. Entre jovens e adultos, pelo menos 739 milhões ainda não possuíam competências básicas de alfabetização em 2024.
O Banco Mundial utiliza o conceito de “pobreza de aprendizagem” para identificar crianças que, aos dez anos, não conseguem ler e compreender um texto simples. Antes da pandemia, essa situação atingia aproximadamente 57% das crianças em países de renda baixa e média. Em 2022, uma estimativa conjunta do Banco Mundial, UNESCO, UNICEF e outras instituições apontou que a proporção poderia ter chegado a 70%, evidenciando que ampliar matrículas sem garantir aprendizagem deixa milhões de crianças formalmente dentro da escola, mas parcialmente excluídas do conhecimento que ela deveria oferecer.
Baixa alfabetização não termina na infância
O problema tampouco desaparece quando uma pessoa chega à vida adulta. A pesquisa PIAAC 2023, da OCDE, avaliou cerca de 160 mil adultos de 16 a 65 anos em 31 países e economias. Em média, 26% apresentaram proficiência baixa em leitura, enquanto aproximadamente um em cada cinco adultos só conseguia compreender textos simples ou realizar operações matemáticas elementares.
Mesmo em um país com forte sistema educacional como a Alemanha, 22% dos adultos avaliados ficaram no nível 1 ou abaixo em alfabetização, indicando dificuldades diante de textos que exigem interpretação mais complexa.
Essas pessoas não vivem necessariamente à margem da sociedade. Trabalham, pagam impostos, criam filhos, votam e utilizam serviços públicos. A desigualdade aparece quando precisam preencher um formulário, interpretar um contrato de aluguel, compreender uma decisão administrativa ou comparar propostas políticas. A baixa alfabetização pode produzir uma forma silenciosa de dependência que dificilmente aparece nas estatísticas tradicionais de participação democrática.
Ler também é saber quem está tentando convencer você
Na era digital, porém, saber decodificar palavras já não é suficiente. Uma pessoa pode ler perfeitamente uma mensagem falsa no WhatsApp e ainda não reconhecer sua origem, manipulação ou intenção.
A UNESCO define alfabetização midiática e informacional como o conjunto de capacidades que permite acessar, analisar, avaliar e produzir informação de maneira crítica. Isso inclui identificar vieses, reconhecer desinformação, resistir ao discurso de ódio e participar de forma informada da vida cívica. A organização considera essas competências cada vez mais importantes diante das redes sociais, da inteligência artificial e da queda da confiança nas instituições e nos meios de comunicação.
A consequência é diretamente democrática. A UNESCO lembra que eleições livres dependem também de acesso a informação ampla e confiável, enquanto redes sociais, microdirecionamento político, conteúdos sintéticos e inteligência artificial criam novas possibilidades de manipulação.
Isso não significa que pessoas com maior escolaridade sejam imunes à propaganda ou à desinformação. O problema é mais complexo. Mas competências de leitura crítica oferecem ferramentas para perguntar quem produziu determinada informação, qual é a evidência apresentada, que interesse está por trás dela e se outras fontes independentes confirmam a afirmação.
Migração mostra que alfabetização também depende da língua e da burocracia
A experiência migratória revela outra dimensão frequentemente ignorada. Uma médica brasileira, engenheiro sírio ou professora ucraniana pode ser plenamente alfabetizado em sua língua materna e, ao chegar a outro país, encontrar-se novamente dependente de terceiros para compreender contratos, cartas oficiais, formulários de imigração ou informações escolares.
Isso não é analfabetismo. É uma barreira linguística e institucional.
A OCDE constatou que adultos nascidos no exterior apresentam, em quase todos os países pesquisados, resultados médios inferiores aos de pessoas nascidas no país na língua utilizada pela avaliação, uma diferença que também reflete domínio linguístico, percurso educacional e condições socioeconômicas.
Por isso, integração não deveria ser entendida apenas como obrigação do indivíduo de “aprender a língua”. Governos também têm responsabilidade de produzir informação acessível, oferecer cursos adequados às diferentes trajetórias educacionais e evitar uma burocracia tão complexa que direitos existam apenas para quem consegue decifrar seu vocabulário.
A alfabetização pode, nesse sentido, determinar pertencimento. Compreender o funcionamento da sociedade permite deixar de ser apenas destinatário de decisões e tornar-se participante delas.
Alfabetização digital pode criar uma nova exclusão
O avanço dos serviços digitais tornou essa discussão ainda mais urgente. Inscrições escolares, contas bancárias, marcação de consultas, pedidos de benefícios, candidaturas de emprego e comunicação com administrações públicas migram continuamente para plataformas online.
Ter um smartphone, contudo, não significa possuir alfabetização digital. Uma pessoa pode saber utilizar redes sociais e ainda não conseguir preencher um formulário eletrônico, configurar privacidade, identificar um phishing, interpretar uma estatística ou perceber que uma fotografia foi manipulada por inteligência artificial.
Essa diferença torna-se especialmente importante para idosos, pessoas com baixa escolaridade, migrantes recém-chegados e populações de baixa renda. Quando o Estado digitaliza serviços sem manter alternativas acessíveis, a tecnologia pode transformar eficiência administrativa em uma nova barreira de cidadania.
Alfabetizar é distribuir poder
A contribuição mais profunda da alfabetização para a democracia talvez não esteja em ensinar as pessoas o que pensar, mas em ampliar sua capacidade de decidir como pensar, onde procurar informação e quando questionar aquilo que recebem.
Uma população alfabetizada não garante automaticamente uma democracia saudável; sociedades altamente escolarizadas também produziram autoritarismo, racismo e propaganda. Mas uma democracia que exige que cidadãos compreendam leis, notícias, estatísticas, plataformas digitais e programas eleitorais enquanto aceita que milhões não tenham instrumentos para fazê-lo cria uma desigualdade política difícil de ignorar.
O Dia Internacional da Alfabetização, portanto, não deveria ser lembrado apenas como uma campanha contra o analfabetismo tradicional. Em 2026, alfabetização envolve leitura, escrita, informação, tecnologia, direitos e pensamento crítico. Em uma época de inteligência artificial, desinformação e serviços públicos digitalizados, ensinar alguém a ler continua sendo revolucionário — mas ensinar a interpretar criticamente aquilo que lê tornou-se igualmente necessário.
Porque democracia não depende apenas de cidadãos autorizados a votar. Depende também de pessoas capazes de compreender o mundo sobre o qual estão sendo chamadas a decidir.
Referências
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https://www.worldbank.org/en/news/press-release/2022/06/23/70-of-10-year-olds-now-in-learning-poverty-unable-to-read-and-understand-a-simple-text
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https://www.unesco.org/en/freedom-expression-rule-law/media-elections
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