Sudão: a “guerra esquecida” e o colapso da diplomacia no Chifre da África

A guerra entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido produziu a maior crise de deslocamento do planeta e recebeu uma fração da atenção internacional dedicada a outros conflitos. O desinteresse não é acidental: é revelador de como funciona a hierarquia de prioridades do sistema internacional.

Por Tatiana Mendonça — Munique, Alemanha

21 de setembro de 2026 às 01:01h

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Desde abril de 2023, o Sudão vive o colapso estatal mais completo do período recente na África. A guerra entre dois generais que haviam sido aliados produziu a maior crise de deslocamento do mundo e recebeu uma fração da atenção internacional dedicada a outros conflitos — desproporção que diz mais sobre o sistema internacional do que sobre o Sudão.

Como dois aliados chegaram à guerra

A derrubada de Omar al-Bashir, em 2019, foi produto de uma mobilização civil massiva. O que se seguiu, porém, não foi transição democrática, mas divisão do poder entre duas estruturas armadas: as Forças Armadas Sudanesas (SAF), sob Abdel Fattah al-Burhan, e as Forças de Apoio Rápido (RSF), sob Mohamed Hamdan Dagalo, o “Hemedti” — força paramilitar originada das milícias janjaweed empregadas em Darfur nos anos 2000.

O golpe conjunto de outubro de 2021 removeu o componente civil da transição. A ruptura entre os dois, em abril de 2023, teve como estopim a negociação sobre a integração das RSF na cadeia de comando regular — isto é, sobre quem controlaria a força e a economia paralela que ela sustenta.

A guerra como mercado político

Alex de Waal (2015) oferece o instrumento analítico mais útil para entender o caso com sua noção de mercado político: um sistema em que a lealdade é comprada, os cargos são ativos financeiros e a violência funciona como mecanismo de precificação. Nesse arranjo, a guerra não é interrupção da política, mas sua forma normal de funcionamento.

A estrutura econômica confirma o modelo. As RSF controlam áreas produtoras de ouro no oeste do país, com cadeias de exportação que operam por rotas regionais; as SAF mantêm a burocracia estatal, o acesso portuário e a arrecadação formal. Ambos os lados dispõem de fluxos de receita independentes da população civil — o que elimina o principal incentivo histórico à negociação de paz: a necessidade de tributar quem se governa.

Atrocidades documentadas e a memória de Darfur

Relatórios de Human Rights Watch (2024) e de mecanismos de apuração das Nações Unidas documentaram ataques sistemáticos contra civis, violência sexual em larga escala e ataques de caráter étnico em Darfur Ocidental, sobretudo contra a comunidade masalit. O padrão remete diretamente ao ciclo de 2003, com a diferença de que os autores de então operam hoje com maior capacidade militar e reconhecimento político internacional.

A fome, por sua vez, deixou de ser efeito colateral e tornou-se instrumento: a obstrução deliberada de acesso humanitário foi registrada por agências das Nações Unidas em múltiplas regiões, com classificação de condições de fome catastrófica em áreas sitiadas.

Por que a diplomacia falhou

As iniciativas de mediação — o processo de Jeddah, conduzido por Estados Unidos e Arábia Saudita, e os esforços da União Africana e da IGAD — falharam por razões estruturais, não por incompetência técnica.

Primeiro, porque não houve coordenação entre os mediadores: processos concorrentes permitem que os beligerantes escolham a mesa mais conveniente e usem a negociação como recurso tático.

Segundo, porque os patrocinadores externos dos dois lados não foram incluídos como partes. Um conflito sustentado por suprimentos externos não se resolve em mesas que ignoram quem os fornece.

Terceiro, porque os civis sudaneses — comitês de resistência, sindicatos, associações profissionais que protagonizaram 2019 — foram sistematicamente excluídos. Negociar exclusivamente entre os generais consolida a premissa que produziu a guerra: a de que o poder no Sudão pertence a quem tem armas.

A dimensão sistêmica

O Sudão tornou-se caso exemplar do que se poderia chamar de negligência multipolar. Na ausência de um centro hegemônico com interesse em conter o conflito, e com o Conselho de Segurança paralisado, a guerra queima até a exaustão do tecido social. O custo não permanece contido: instabilidade no Mar Vermelho, fluxos migratórios em direção ao Egito, Chade e Europa, e a consolidação de milícias transnacionais com capacidade operacional regional.

Há uma pergunta incômoda que o caso impõe às Relações Internacionais: se a atenção internacional é recurso escasso e distribuído segundo interesse estratégico, a linguagem universalista das normas humanitárias descreve o sistema ou apenas o legitima? O Sudão não responde à pergunta — mas torna impossível ignorá-la.

Referências

DE WAAL, Alex. The real politics of the Horn of Africa: money, war and the business of power. Cambridge: Polity Press, 2015.

HUMAN RIGHTS WATCH. The massalit will not come home: ethnic cleansing and crimes against humanity in El Geneina, West Darfur, Sudan. Nova York, 2024.

INTERNATIONAL CRISIS GROUP. Sudan’s calamitous civil war: a chance to draw back from the abyss. Bruxelas, 2024.

NAÇÕES UNIDAS. Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). Sudan humanitarian update. Genebra, 2025.

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